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Capítulo 3

Às onze horas ela havia colocado a melhor das suas duas blusas limpas e o casaco que não usava desde a primavera, e o tipo de batom que uma mulher usa quando não quer ser lembrada nem ignorada. O espelho do motel era pequeno e manchado em um dos cantos. Ela encontrou os próprios olhos e os deixou ir.

A náusea veio no meio da abotoação. Ela sentou na beira da cama com o penúltimo botão ainda aberto e esperou do jeito que a gente espera uma onda passar por baixo de um barco. Passou. Ela terminou a fileira.

Antes de sair, esvaziou a bolsa sobre a colcha e colocou de volta apenas a carteira que não podia mais usar e o celular. O resto ficou numa pilha que ela reconheceria no escuro — o avental do The Pemberton dobrado sobre si mesmo, o livro de bolso que havia tirado da despensa no dia anterior, uma chave para uma porta com a fechadura trocada. Ficaram lá como se ela os estivesse deixando para alguém.

O táxi era um sedã preto e limpo com um motorista que disse South End, senhorita uma vez quando ela deu o endereço, e South End uma segunda vez quando ele saiu da ponte, e mais nada. O rádio ficou desligado. O banco havia sido limpo com algo que cheirava a pinho querendo ser limão e não era. Ela ficou agradecida por ele, e pelo silêncio que ele manteve.

A Mass Ave deu lugar à Tremont. A Tremont foi rareando. O South End no início da tarde era tijolos e luz de árvores despidas e uma porta azul e uma mulher passeando com um cachorro do tamanho de um gato. Ela observou as ruas sem procurar nada nelas.

The Talbot Inn era uma hospedaria de três andares de outra época, repintada nesta. Por fora, carregava os ombros atarracados de um bar de beira de estrada — uma passarela de concreto que circundava o segundo andar, uma placa num poste que dizia VAGAS embaixo de um logotipo desbotado pelo tempo. Por dentro, a reforma havia sido feita nos tons que uma rede compra em lote: carpete cor de aveia, arandelas de vidro fumê, uma recepção onde um homem sentado lia num tablet.

Ele ergueu os olhos quando ela entrou. Não perguntou o nome dela.

— Quatorze — disse ele. — No final do corredor à direita. — Deslizou uma chave de latão pelo balcão num chaveiro de plástico gasto.

Ela pegou. Ele voltou ao tablet.

O carpete do corredor era novo. Sob o novo havia o cheiro de algo mais antigo que ninguém tinha removido — uma camada química sobre uma camada adocicada de mofo, a química ganhando mas por pouca margem. A dois quartos de distância, o corpo dela avisou que ia sentar. Havia uma cadeira ao lado da máquina de gelo, uma espécie de banco que não pertencia a ninguém. Ela se sentou por uma respiração lenta e mais uma, e o cheiro se reorganizou em algo com o qual o estômago dela conseguia dividir um prédio, e ela se levantou.

Doze semanas e três dias. Cansada de um jeito que desabava sobre ela sem aviso, como uma janela que cai. Ela não sabia que o cansaço podia acontecer assim. O livro não dizia.

A porta quatorze tinha um número de latão, não uma etiqueta. Ela encaixou a chave, virou, e empurrou.

Ele estava sentado em cima da colcha, as costas não encostadas na cabeceira, mas a um palmo dela — a postura de um homem que esperava e havia escolhido não parecer acomodado. O quarto era limpo e pequeno e a cama ocupava a maior parte dele. Uma pasta estava aberta na colcha à esquerda dele, as páginas abertas em leque. O abajur na mesinha de cabeceira estava aceso contra a tarde cinzenta e lançava um círculo suave que abrangia a pasta e o homem e terminava no pé da cama.

Final dos trinta. Terno escuro, sem gravata, camisa branca aberta no colarinho. Olhos cinzentos no limite frio do cinza. Cabelo escuro mais curto do que ela esperaria de alguém com dinheiro, grisalho nas têmporas. Um cordão de couro enrolado duas vezes no pulso esquerdo, escurecido pelo uso antigo, o tipo de coisa que alguém lhe havia dado uma vez. Ele olhou — uma vez, brevemente — para o relógio no outro pulso, e depois para ela de novo.

— Eve — disse ele.

Não Mrs. Halloran. Não o nome que uma agência usaria. A mensagem que a trouxera até ali havia sido assinada Coordinator, e não havia nenhum Coordinator naquele quarto.

Ela ficou na soleira, a maçaneta ainda na mão do seu lado da porta. Depois de uma pausa ele disse: — Entre, ou feche a porta atrás de você. O corredor ouve.

Ela fechou a porta. Ficou encostada nela.

Ele esperou. Ela continuou de pé. Ele seguiu em frente.

— Meu nome é Cassian Vale. Sou o marido do seu contrato. — As mãos estavam sobre os joelhos. A voz não era a de um homem que havia ensaiado. Era a voz de um homem que havia decidido não ensaiar. — Vou lhe dizer quatro coisas e depois paro de falar. As páginas estão aqui. Você pode lê-las ou não, em qualquer ordem.

Ele virou a página do topo um quarto de volta para que ficasse de frente para ela. Um laudo genético no papel timbrado de um laboratório de Worcester. Duas colunas. Portadora: Eve Halloran. Sujeito A: Cassian Vale. Em três loci nomeados, uma coluna de zeros.

— O embrião que você carrega não é meu.

Um.

Ele virou a página seguinte. Um escaneamento de duas assinaturas lado a lado, e uma terceira extraída de um documento com reconhecimento de firma de seis anos atrás. A anotação dizia: Procuração outorgada em nome de Cassian Vale. Assinatura à direita: cônjuge, em arquivo.

— Minha esposa assinou o seu contrato usando uma procuração que lhe dei há seis anos para coisas corriqueiras — contas, aluguéis, um carro. Nunca a revoquei. Não sabia do programa até seis semanas atrás.

Dois.

Ele virou a próxima. Um recibo de fornecedor em papel timbrado que não significava nada para ela até que leu a linha abaixo do logotipo. Northbridge Solutions — Descarte de Material Biológico, contrato semanal. Um item de linha. Uma data. Um código. Um preço.

— Seis semanas atrás, paguei a um prestador para me trazer uma ampola do seu sangue da corrente de descarte da clínica. Material legalmente descartado. Mandei o laboratório fazer uma comparação de paternidade com a minha própria amostra. O resultado é a página acima desta.

Três.

Ele virou a última das quatro. Uma lista. Duas colunas de datas e horários. Ela conhecia as datas. Conhecia os horários. Os turnos no bar do The Pemberton. O ônibus de terça à noite. A quarta de manhã na farmácia no Dorchester quando havia ido buscar a receita de Mara. Uma coluna de localizações ao lado.

— Mandei um homem observar você por seis semanas. Ele manteve distância. Nada do que ele viu foi interrompido. — Uma pausa breve fez o trabalho de uma frase. — Esperava que você fizesse a pergunta certa. Você a fez esta manhã ao tentar sair andando.

Quatro.

A pasta ficou entre eles. As páginas que ele havia virado eram as quatro do topo. Embaixo delas havia muitas outras. O abajur iluminava a borda mais alta e deixava o resto guardar sua própria sombra.

A mão dela havia encontrado a maçaneta da porta atrás dela. Não para sair ainda. Para saber que a porta estava lá.

— Por que estou aqui — disse ela.

— Porque hoje é o dia em que o advogado da minha esposa protocola a ordem pré-nascimento nas doze semanas. Depois de hoje, ela não precisa mais ser cuidadosa. — Ele olhou para ela sem suavizar nada no rosto. — E depois de hoje eu não conseguia mais esperar.

Ele continuou sentado onde estava, as mãos ainda sobre os joelhos. O cordão de couro no pulso estava escurecido pelo uso antigo, e o relógio no outro pulso tinha um mostrador simples que não refletia o abajur.

Ela girou a maçaneta atrás dela. A trava clicou. Ela não puxou.

— Eve.

Ela parou, o ombro ainda contra a porta, a maçaneta na palma da mão.

— Não fuja — disse ele. — Seja lá o que for isso — já é tarde demais para eu recuar. Decida apenas se quer estar nisso sozinha ou não.

Ele continuou sentado onde estava. Entre eles, a pasta aberta segurava suas páginas no pequeno círculo do abajur, e o resto do quarto guardava seu breu.

Ela puxou a maçaneta. A porta abriu um centímetro. O cheiro do corredor veio ao encontro dela de novo, carpete antigo sob o novo, e ela colocou um pé além da soleira e ficou assim. A mão continuou na maçaneta.

O celular no bolso do casaco vibrou uma vez contra a coxa e ficou quieto — uma notificação que ela não olhou para baixo para ler, uma tela que iluminou o bolso através do tecido e apagou.

Ele a observou sem retê-la.

A porta ficou aberta.

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