O motorista não quis me levar até o pier. Parou três quarteirões antes, sob um poste de luz que piscava e zumbia.
— É o máximo que eu vou, senhora. — Ele examinou a rua escura e escorregadia de chuva no retrovisor. — Zona morta lá embaixo. Ratos e viciados, nada mais.
— Está ótimo. — Passei uma nota de vinte para ele. — Fique com o troco.
Saí na chuva. Ela caía mais pesada aqui do que em Manhattan, mais fria, cheirando a sal e madeira apodrecida. Puxei o casaco para perto, mas o frio vinha de dentro, da fossa sob minhas costelas.
Old Dock No. 4. Eu conhecia aquele lugar, ou a garota que eu fui conhecia. Vinte anos atrás, aquele trecho estava vivo; meu pai me trazia aos sábados para assistir ao algodão descendo das barcaças, quando o ar cheirava a piche quente e ambição. Agora cheirava a túmulo.
Passei pelas carcaças de armazéns abandonados, suas janelas quebradas escuras. Os únicos sons eram a água batendo nas estacas e meus saltos nos paralelepípedos.
Minha mão estava no bolso, fechada em torno de uma lata pequena de spray de pimenta, uma defesa frágil, mas tudo o que eu tinha.
Por que você veio? A voz na minha cabeça de novo. Isso é uma armadilha. Corra.
Não podia. A rosa branca estava queimada atrás dos meus olhos. Quem quer que a tivesse enviado segurava minha vida. Se levassem a Maxwell Sterling, cinco anos virariam pó, ou uma acusação de fraude.
No final do pier havia um edifício de tijolos com metade do telhado ido, a placa acima da porta há muito desgastada até o nada. A porta de ferro estava entreaberta em uma fresta de escuridão.
Eu parei, o coração disparado.
— Alô? — O vento levou minha voz imediatamente.
Nada.
Respirei ferrugem e empurrei. A porta deu um longo gemido rangente.
Lá dentro era toda sombra. A luz da lua entrava pelos buracos no telhado sobre pilhas de detritos e máquinas velhas. A umidade estava em todo lugar.
Então eu vi. Lá no fundo, em uma mesa de caixotes empilhados, um laptop, sua tela um brilho azul pálido, a única luz no lugar.
Caminhei até ela, pisando em corda enrolada e vidro quebrado. Mais perto, vi o resto da mesa. Ao lado do laptop havia uma arma, um revólver preto pesado. E ao lado da arma, a rosa branca. Real. Ali.
Estendi a mão para tocar as pétalas, para provar que não estava na minha cabeça.
— Não. — Uma voz saiu raspando da escuridão. — O óleo da sua pele vai estragá-la. Seu pai sempre disse que você tinha mãos pesadas para uma florista.
Eu congelei. Conhecia a voz, mais grave agora, mais rouca, mas a cadência a mesma.
— Sr. Henderson?
Uma forma se destacou de um pilar enferrujado e entrou na luz azul, e mordi o lábio para não fazer nenhum som.
Arthur Henderson tinha sido um gigante na minha memória, alto, largo, uma risada que sacudia as paredes da fábrica do meu pai. Ele tinha sido chief technologist, o homem que inventou Falcon Blue, o corante que nos colocou no mapa.

O homem na minha frente era um destroço. Magérrimo, as roupas pendendo nele, o cabelo ralo e grisalho. Mas os olhos eram os mesmos, acesos com uma inteligência febril, fanática.
— Olá, Clara — disse ele.
Meu nome verdadeiro em voz alta atingiu como um soco.
— Eu pensei que você estivesse morto — consegui dizer. — Depois da falência, o julgamento, ninguém te viu mais.
— Essa era a ideia. — Ele tossiu, um som molhado e chocalhante, e acendeu um cigarro barato com mãos trêmulas. — Mortos são difíceis de processar. Mais difíceis de ver chegando.
— Você mandou a rosa. Onde conseguiu? Essa variedade desapareceu.
Ele mostrou dentes amarelados. — Salvei uma muda. Mantive viva em um porão em Jersey por cinco anos, do mesmo jeito que mantive eu mesmo. Esperando a estação certa.
Ele puxou o cigarro. — Você cresceu. Tem o rosto da sua mãe. O queixo teimoso do seu pai.
— Meu nome é Evelyn agora — disse eu. — Se você me trouxe aqui para reminiscer, está perdendo seu tempo. Por que me ameaçar?
— Ameaçar você? — Uma risada seca e rouca. — Eu não te ameacei, garota. Eu te acordei.
Ele tocou uma tecla. A tela encheu de documentos, extratos bancários, e-mails, fotos de vigilância.
— Eu tenho observado você construir isso. Evelyn Grey. Muito polido. Eu assisti você se formar. Assisti você buscar café para idiotas na LVMH. Assisti você se preparar.
— Você me perseguiu.
— Eu te avaliei. — Os olhos dele brilharam. — Precisava saber se você tinha isso dentro de si, se era mole como sua mãe, ou se o fogo também tinha tomado seu coração.
Ele se inclinou, o rosto próximo, cheirando a fumaça velha e raiva antiga. — Eu sei por que você está na Sterling House, Clara. Você quer fazer o filho pagar pelo pai.
— Isso não é da sua conta.
— É inteiramente da minha conta. — Ele bateu na mesa; a arma saltou. — Quem você acha que colocou seu currículo no topo da pilha? Quem deletou as filmagens das câmeras de trânsito do semestre no exterior que você nunca fez? Quem te limpou o suficiente para que a segurança dos Sterling não encontrasse uma fresta?
Eu encarei. Achei que fosse boa. Achei que tinha sorte.
— Você fez isso.
— Claro que fiz. Você é boa, garota. Também é uma amadora conduzindo um golpe longo contra tubarões. Sem mim, você teria sido devorada antes do almoço.
Ele virou o laptop para mim. Um esquema, uma teia de empresas de fachada e contas offshore.
— O Sterling empire — disse ele. — Parece sólido. Parece indestrutível. — Ele tocou, e linhas vermelhas correram através dele como rachaduras no gelo. — É podridão. O pai construiu sobre patentes roubadas, chantagem e sangue. Nosso sangue.
A loucura nos olhos dele afinou por um segundo, e por baixo havia luto.
— Ele tomou o trabalho da minha vida. Meu nome. Levou minha esposa ao suicídio quando perdemos a casa. E ele matou seu pai tão certamente como se tivesse segurado a arma.
Lágrimas subiram quentes. Eu as empurrei para baixo. — Eu sei o que ele fez.
— Então você sabe que não podemos apenas machucá-los — disse ele. — Nós queimamos tudo até virar cinza. E Maxwell, o Prince, cai mais duro.
— Maxwell não é o pai dele. — Saiu antes que eu pudesse impedir.
Os olhos dele se estreitaram. — Não me diga que você está caindo pelo terno. Ele é um Sterling. O veneno está no sangue.
— Não estou caindo por nada — menti. — Eu o encontrei. Ele parece diferente. Parece cansado.
— Ele é um lobo em um bom casaco. Está se remarcar, lavando o sangue do dinheiro para poder dormir. Não deixe.
Ele tirou uma coisa pequena e prateada do bolso. Um flash drive. Estendeu para mim.
— O que é isso?
— Uma chave. Eu escrevi um worm. Indetectável. Não rouba dados, ele os espelha, cada e-mail que ele manda, cada arquivo que ele abre, cada tecla digitada, direto para mim.

Ele pressionou na minha mão, frio e pesado. — Eu tenho o mapa, mas estou bloqueado. Você está lá dentro, bem ao lado dele. Preciso disso na máquina pessoal dele, a física no escritório dele, não na rede. A rede é muito bem guardada.
Olhei para a coisinha na minha palma. Tão inofensiva. Uma arma. Pegá-la significava uma linha que eu não podia atravessar de volta.
— Se eu for pega—
— Então você vai para a prisão e eu desapareço. Se você tiver sucesso, recuperamos tudo o que eles roubaram, e assistimos eles se desmancharem.
Ele virou a rosa nos dedos. — Seu pai costumava dizer que a Snow Queen era a rosa mais difícil de cultivar porque não suportava calor. Ela precisava do frio para se abrir. — Ele me olhou. — Você também, Clara. Você tem que ser fria. — Ele a estendeu. — Está comigo? Ou você vai embora e deixa eles continuarem vencendo?
Olhei para a rosa. Para o homem arruinado que tinha sido amigo do meu pai. Depois para aquele escritório estéril e brilhante no quadragésimo quinto andar, e a arrogância dele.
Fechei a mão no drive. Peguei a rosa. — Estou com você. — Desta vez minha voz se manteve.
— Bom. — Henderson sorriu, e foi a pior coisa que vi a noite toda. — Vá para casa, Evelyn Grey. Durma. Amanhã vamos para a guerra.
Saí de volta para a chuva com a rosa contra o peito. As luzes de Manhattan estavam distantes, brilhantes e indiferentes. Em algum lugar lá em cima, Maxwell Sterling estava dormindo em seda, sem saber que os fantasmas do pai acabavam de se armar.
Consegui um táxi na rua principal. Entrando, olhei para o drive uma vez antes de guardá-lo na bolsa.
Henderson estava certo. Eu tinha que ser fria.
Mas conforme a água ficava para trás, não consegui deter o pensamento: se eu queimasse tudo, o que sobraria de mim?
