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Carla

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Histórias de amor ❤️

Seda e Cinzas

4.9(400)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#SuspenseRomântico#Revenge#HiddenIdentity#EnemiestoLovers#CEORomance
Apaguei tudo que eu era para destruí-lo. Nunca previ o momento em que eu quereria que ele soubesse meu nome verdadeiro.

Capítulo 1

A chuva de outubro em New York cheirava a concreto molhado. Eu estava sob o toldo de uma cafeteria na esquina da 5th Avenue e estudava meu reflexo na vitrine escura.

Uma estranha me olhava de volta.

Cabelos castanhos com um toque de cobre, estilizados até o milímetro. Um casaco de camelo cortado na cintura. Um rosto que não revelava nem medo nem dúvida. Estelle Grey. Formada em Harvard, ambiciosa, sangue azul.

Uma mulher que eu nunca tinha sido.

Ajustei a gola contra o frio que se insinuava sob minha echarpe. Em algum lugar sob o tecido caro e os anos de treinamento, uma menina ainda tremia — Clara, que lembrava do cheiro de queimado e do choro de sua mãe. Eu a mandei ficar quieta. Não havia lugar para ela hoje. Hoje pertencia a Estelle.

Cinco anos. Por cinco anos eu tinha lapidado essa pessoa em mim mesma do jeito que um joalheiro lapida uma pedra, desbastando a suavidade, a piedade, o passado. Tudo para esta manhã.

Olhei do outro lado da rua. Sterling House erguia-se contra o céu cinzento e baixo, vidro e aço, fria e absoluta. Parecia uma fortaleza sem entrada. Mas toda fortaleza tem uma porta, e eu pretendia ser a chave.

„Está na hora", murmurei.

Meus saltos bateram no asfalto molhado enquanto eu atravessava. Cada passo me aproximava do homem cujo nome tinha sido queimado na história da minha família.

Lá dentro, o lobby guardava aquele silêncio particular de dinheiro muito antigo. Sem agitação. Ar frio que cheirava a lírios, doce e denso, um aroma que eu nunca mais conseguiria separar do perigo.

„Sra. Grey?" A recepcionista me ofereceu um sorriso polido e ensaiado. „O Sr. Sterling está esperando a senhora. Quadragésimo quinto andar, Elevator A."

„Obrigada."

As portas espelhadas fecharam-se sem som e o elevador subiu até meus ouvidos estalarem. Fechei os olhos e controlei a respiração. Para dentro. Para fora.

Ele é apenas um homem, eu me disse. Não o monstro dos pesadelos. O filho do monstro. Carne e osso.

Então as portas se abriram no quadragésimo quinto andar, e minha confiança se fendou.

A recepção não era um escritório. Era uma declaração. Paredes de marfim, telas abstratas que custavam mais do que meus pais tinham ganho em suas vidas, janelas que transformavam a cidade lá embaixo em uma maquete. Tudo ali dizia nós somos os donos deste mundo e você é uma convidada.

A secretária, na casa dos cinquenta, impecável, não ergueu os olhos do monitor. „Pode entrar. Ele está esperando."

Atravessei até um par de portas duplas de madeira escura. Minha mão parou sobre a maçaneta de bronze; o frio dela atravessou minha pele como um aviso. Sem volta. Empurrei-a e entrei.

O escritório era maior que a recepção, e mais vazio, ar e luz e poder e nada mais. Uma parede de estantes não guardava livros nem prêmios. Guardava tecido: rolos de seda, veludo, cashmere, dispostos como troféus.

O homem pelo qual eu tinha queimado minha vida antiga estava à janela, de costas para mim.

Eu esperava uma cópia do pai, um homem velho, pesado, de pescoço taurino, cujas fotografias eu odiava desde a infância. Maxwell Sterling não era nada daquilo. Alto, magro. Um terno azul-escuro ajustado como uma segunda pele, o paletó aberto, os punhos à mostra, um descuido deliberado.

„Estelle Grey", ele disse, sem se virar. A voz era baixa, levemente áspera, a voz de um homem que fumava demais ou falava de menos.

„Bom dia, Sr. Sterling."

Ele se virou.

Eu me preparei para um inimigo. Não me preparei para um homem. Cabelos louro-acinzentados jogados para trás como se por uma mão irritada. Maçãs do rosto afiadas, maxilar rígido, boca fina e cerrada. Mas foram os olhos que me detiveram: cinzas, não desbotados, mas de um aço duro, da cor de um mar antes da tempestade, e sob isso um cansaço tão profundo que me desequilibrou por um instante. Ele não parecia um homem que tinha vencido. Parecia um homem segurando algo pesado demais para largar.

Ele atravessou até sua mesa, uma laje única de mármore preto, e sentou-se sem tirar os olhos de mim. „Sente-se."

Sentei-me na cadeira rígida de designer, coluna ereta, bolsa sobre os joelhos, mãos dobradas para esconder o tremor.

Ele pegou uma pasta, meu currículo, e virou as páginas devagar, em silêncio, o som disso alto na sala estéril.

— Harvard, com honras — disse por fim, sem erguer o olhar. — Estágio em Paris. Cartas entusiasmadas da LVMH. Francês e mandarim fluentes.

— Estou acostumada a conseguir o que quero — disse eu, na deixa.

Ele levantou os olhos, e eu me senti pregada ao lugar. — Seu currículo é impecável, Ms. Grey. Tão impecável que parece inventado.

Meu pulso disparou. Será que ele sabe?

— Significado? — Levantei uma sobrancelha, suave.

— Significa que pessoas com um currículo como o seu abrem sua própria grife ou correm atrás de uma cadeira de diretor. Você se candidatou para ser assistente pessoal. Isso é um passo abaixo. Por quê?

Um teste. Eu sabia que viria.

— Não procuro caminhos fáceis, Mr. Sterling. Procuro a chance de trabalhar com os melhores. A Sterling House está no topo desta indústria. Quero ver como a máquina funciona por dentro, como as decisões que movem o mercado são tomadas.

Ele sorriu sem que o sorriso alcançasse os olhos. — Você quer poder.

— Eu quero competência. Poder é um efeito colateral.

Ele me estudou por um longo momento, como uma equação que ainda não conseguia resolver. Nenhum interesse masculino nisso, apenas aritmética fria.

— Minha última assistente durou três semanas — disse, olhando pela janela. — Inteligente, eficiente, cuidadosa. Ela quebrou.

— Eu não quebro — disse eu.

Os olhos dele voltaram para mim. — Você não sabe o que está dizendo. Eu sou impossível, Ms. Grey. Não durmo. Trabalho vinte horas por dia e espero o mesmo. Não explico uma tarefa duas vezes. Não aceito desculpas. Espero ser entendido antes de terminar a frase. Você seria minha sombra, minha memória, meu escudo contra tolos. Nenhuma vida privada, nenhum fim de semana, nenhuma margem para erro. Você ainda quer a cadeira?

O discurso foi construído para me assustar. Só acendeu uma raiva fria. Você acha que isso é difícil? Tente perder todos que você ama em um único dia e se reconstruir ao longo de cinco anos.

Eu me inclinei para a frente e segurei o olhar dele. — Mr. Sterling, não estou aqui para ficar confortável. Estou aqui para trabalhar. Se você quer alguém para trazer café e sorrir, contrate essa pessoa. Se quer uma profissional que vigie suas costas para que você possa tocar seus negócios, você a encontrou.

O silêncio se espessou entre nós. Dois lutadores antes do primeiro sino.

O canto da boca dele se moveu. — Preto, sem açúcar. Grãos Blue Mountain, torra média. Se esfriar um grau, vai para o lixo.

Pisquei. — Desculpe?

— Café. — Ele fechou a pasta. — Bebo aos litros. Isso é a primeira coisa a lembrar. Segunda: odeio canetas azuis. Tudo em tinta preta. Terceira, nunca, jamais me passe uma ligação da minha mãe a menos que eu tenha dito para fazer.

Ele se levantou; eu me levantei com ele.

— Você está contratada, Estelle. Duas semanas de experiência. — Ele chegou perto o suficiente para eu captar sua colônia, sândalo e tabaco e algo frio por baixo. — Escorregue uma vez, e você estará fora antes de fazer as malas.

— Não vou escorregar.

— Veremos. RH para seu crachá. Amanhã, oito horas. Não se atrase.

— Até logo, Mr. Sterling.

Caminhei até a porta com o olhar dele nas minhas costas, minhas pernas não inteiramente minhas. Passei pela secretária, entrei no elevador, e só quando as portas se fecharam me permiti respirar.

Apoiei a testa no espelho frio. Minhas mãos tremiam demais para fechar.

Eu tinha conseguido. Estava dentro. Eu tinha olhado o diabo nos olhos e me mantido firme.

Mas em vez de triunfo havia um estranho espaço vazio onde o triunho deveria estar. Maxwell Sterling não era um vilão de cartolina. Era um homem vivo, complicado, com algo sem fundo atrás dos olhos, e isso me assustou mais do que qualquer coisa. Odiar um monstro é fácil. Odiar um homem é a parte difícil.

A noite desceu sobre a cidade. Meu apartamento alugado em Queens era o oposto daquele escritório, estreito, suas janelas viradas para a parede de tijolos do vizinho, o cheiro permanente de cebola frita vindo da ventilação. Mas era meu. O único lugar onde eu podia tirar Estelle Grey.

Eu chutei os sapatos, me servi um copo de vinho barato e abri o laptop para verificar os e-mails, e o tempo todo minha mente voltou para a manhã. Para os olhos cinzas.

Você quer poder.

Sorri na escuridão. Se você soubesse o que eu realmente queria, Maxwell, nunca teria me deixado chegar a um quilômetro de você.

Meu celular vibrou uma vez sobre a mesa da cozinha, a tela cortando o azul através da penumbra.

Nova mensagem. Número oculto.

Estranho. Só a imobiliária e uns recrutadores tinham esse número.

Deslizei o dedo para abrir. Nenhum texto. Nenhum cumprimento, nenhuma ameaça. Apenas uma fotografia.

Por um segundo não entendi. Então o quarto se inclinou sob mim. O vinho escapou dos meus dedos e se estilhaçou no chão, vermelho pelo ladrilho, e eu não me mexi.

Uma foto de uma mesa antiga de madeira, o tampo rachado e gasto. Sobre ela, uma rosa branca. Fresca, impecável, orvalho ainda nas pétalas.

Não era apenas uma rosa. Era uma Snow Queen, uma variedade rara e difícil que meu pai cultivava na estufa dele. A que ele dava para minha mãe todas as manhãs durante vinte anos. A que eu coloquei no túmulo deles há cinco anos.

Não era possível. A estufa tinha ido. A casa tinha ido. Ninguém vivo sabia desse detalhe.

Uma segunda mensagem surgiu sob a foto. Duas linhas. Um endereço e um horário.

Brooklyn. Old Dock No. 4. HOJE À NOITE, 23:00. Venha sozinha.

Olhei o relógio. 22:15.

Alguém sabia. Alguém sabia quem eu era. Toda a lenda, toda a defesa, desfeitas em um segundo por uma foto de uma flor.

Quem: um chantagista, um inimigo, um fantasma?

Eu poderia ficar. Bloquear o número, terminar a garrafa, tentar esquecer. Eu sabia que não faria isso. Já tinha me jogado do precipício aquela manhã. Só restava a queda.

Passei por cima do vidro, peguei o casaco e saí na noite.