TaleSpace

Ícaro e Atlas

As mãos de Eve ainda tremiam enquanto ela alcançava o visor. A realidade da cápsula — o ar reciclado, o zumbido dos servidores, a lembrança dos olhos mortos de Silas — era demais. Ela precisava sair. Não fisicamente, é claro. Isso era impossível.

Ela precisava do Void.

Ela colocou o visor prateado e elegante sobre os olhos e iniciou o link neural. A sensação era familiar: um momento de queda livre, uma onda de vertigem e, então... quietude.

A realidade colapsou. As paredes da Capsule 3012 desapareceram.

Em seu lugar, surgiu o Void.

Era como ela chamava seu "lobby" particular. Não era um de seus Dreams coloridos e comerciais. Não havia sóis da Toscana ou anéis de Saturno aqui. Era apenas uma escuridão infinita, aveludada e quente. Um espaço nulo. O único lugar onde seu cérebro parava de gritar, onde a sobrecarga sensorial do mundo era reduzida a zero.

Ela pairava nesse não-espaço, sem peso, sem corpo. Era apenas uma consciência flutuando no escuro. Concentrou-se na sensação de vazio até que seu pulso desacelerou e o nó gelado em seu estômago começou a derreter.

Após um minuto, uma ondulação perturbou a escuridão. Uma única linha de texto apareceu, flutuando no éter. Estava em um verde fosforescente suave, usando uma fonte de linha de comando antiga. Ele a usava porque sabia que ela gostava da estética retrô. Parecia "real" para ela.

[Atlas]: Você está atrasada, Icarus.

Os lábios de Eve se curvaram em um sorriso antes mesmo de ela se dar conta. A tensão em seus ombros finalmente desapareceu.

Aqui, ela não era Eve, a reclusa quebrada, o "Capsule Case." Aqui, ela era Icarus. Nos mitos gregos, Ícaro voou perto demais do sol e caiu. Mas na mitologia pessoal de Eve, Icarus era o único que teve a coragem de voar. O único que deixou o labirinto.

Ela não digitou; no Void, ela simplesmente "pensou" sua resposta através da interface neural, e as palavras se materializaram sob as dele.

[Icarus]: Desculpe. O mundo real resolveu morder hoje.

[Atlas]: Deixe-me adivinhar. Drones corporativos? A gerência média perguntando por que os pixels não estão "felizes" o suficiente?

[Icarus]: Pior. Um novo. Parece particularmente cruel.

[Atlas]: Cruel? Isso é intrigante. Os engravatados da Elysium costumam ser apenas... cinzas. Tediosos. Burocráticos.

Ele estava certo. Marcus, seu supervisor anterior, era cinza. Ele era uma planilha em forma humana, um homem que valorizava a produtividade dela, mas tinha um medo vago do seu estado mental. Mas Silas... Silas não era cinza. Ele era preto, como o espaço entre as estrelas. E tão frio quanto.

[Icarus]: Este não. Ele é... intenso. Anunciou uma auditoria total. Disse que está vigiando todo mundo. Especialmente a mim.

[Atlas]: E você vai deixar?

Eve franziu a testa na escuridão. O clássico Atlas. Ele nunca a mimava. Nunca oferecia clichês vazios como "Vai ficar tudo bem." Ele a desafiava. Ele a aguçava.

Eles haviam se "conhecido" aqui, no Void, seis meses atrás. Eve estava limpando o código de um setor de RV corrompido quando tropeçou em um "fantasma" — um backdoor elegante e invisível enraizado profundamente na arquitetura de segurança da Elysium. Era uma obra-prima da programação, tão sutil que os scanners automatizados não o detectaram por anos.

Ela deveria ter relatado. Era o protocolo. Mas ficou tão impressionada com a arte do hack que não conseguiu se obrigar a deletá-lo. Em vez disso, deixou uma nota dentro do próprio código: "Você esqueceu de limpar seus metadados na linha 402. Relaxado."

Ela esperava ser demitida, talvez até presa por adulteração. Em vez disso, quando se conectou na noite seguinte, ele estava esperando por ela. Ele havia hackeado o santuário interno de seu servidor privado — o seu Void. Ela deveria estar aterrorizada. Tudo o que sentiu foi uma curiosidade magnética.

[Atlas]: Relaxado? Não vi mais ninguém perceber.

[Icarus]: Eles não estavam procurando. Eu vejo tudo no código.

Daquela noite em diante, eles se falavam quase todos os dias. Ele era um hacker, ela sabia disso. Ele operava fora do sistema, desprezava as corporações e tratava os pesados firewalls de Neo-Kyoto como cercas de parquinho. Mas ele era obcecado pela Elysium por razões que nunca compartilhou. Ele era o seu oposto — livre como o vento correndo pela rede, enquanto ela estava trancada em sua torre de vidro e aço.

Ele era seu único amigo. Talvez mais.

[Icarus]: Eu não estou "deixando" ele fazer nada. Que escolha eu tenho? Ele é o novo Head of Cybersecurity. Tem poder executivo ilimitado. Ele poderia cortar minha conexão.

[Atlas]: O poder é uma ilusão, Icarus. Especialmente o tipo que as corporações distribuem com cargos. O verdadeiro poder é o conhecimento. Eles podem vigiar sua tela, podem registrar suas teclas digitadas, mas não podem vigiar sua mente.

[Icarus]: Fácil para você dizer. Você é um fantasma. Eu sou um número de ID de funcionário em uma lista.

[Atlas]: Você é o ativo mais valioso deles. Não se esqueça disso. Você constrói os mundos que mantêm os clientes deles sedados. Sem você, eles têm apenas servidores vazios. Você detém as chaves, Icarus. Eles apenas vendem os ingressos.

Eve "respirou" fundo, sentindo as palavras dele se instalarem em sua psique. Sua confiança inabalável era contagiante. Ele sempre fazia isso — reconstruía a autoestima dela quando o mundo a desmantelava.

[Icarus]: Obrigada, Atlas.

[Atlas]: Pelo quê? Pela verdade?

[Icarus]: Por estar aqui. Por ouvir.

As letras verdes pairavam no escuro, pulsando suavemente. Por alguns longos segundos, ele não respondeu. Às vezes, ele simplesmente desaparecia, mergulhando de volta nas correntes profundas da rede, e ela ficava sozinha no silêncio.

Mas não hoje.

[Atlas]: Eu estou sempre aqui, Icarus. Agora, esqueça seu chefe drone. Preciso te contar uma coisa.

O tom dele mudou no texto. O ritmo era diferente. Mais rápido. Havia aquele toque de empolgação que ela aprendera a reconhecer. Ele estava caçando.

[Atlas]: Encontrei algo. Algo grande. Está no núcleo da Elysium, enterrado tão fundo que mal consegui arranhar a criptografia. E eu acho... acho que é o que você tem procurado.

O coração de Eve falhou uma batida. Ela sabia exatamente o que ele queria dizer. Ele não estava falando do trabalho dela, ou do seu medo. Ele estava falando do Motivo. O evento que a quebrou. A razão pela qual ela trancou a porta há 938 dias e nunca mais a abriu.

[Icarus]: O quê? O que você encontrou?

[Atlas]: Apenas o nome de um projeto, por enquanto. Um arquivo antigo, oficialmente desativado há dez anos, mas os metadados mostram que ainda está ativo. Está se enrolando pelo sistema como uma cobra adormecida. Chama-se 'Project Morpheus'.

Morpheus. O deus grego dos sonhos.

O nome enviou um calafrio através de seu link neural.

[Icarus]: É... tem relação com os Dreams que eu projeto?

[Atlas]: Acho que eram os Dreams. Uma versão inicial, instável. Antes do lançamento comercial. E, Icarus... parece que não foi apenas 'desativado'. Foi enterrado. Junto com todos os envolvidos.

[Icarus]: Você acha que... eu estava envolvida?

Outra pausa. Mais longa desta vez. Pesada.

[Atlas]: Não sei. Mas rastreei seus antigos registros de funcionária. Seu login no sistema daquele dia, 938 dias atrás... levou direto a essa estrutura de arquivos. E então — um apagão total. Todos os seus registros daquele dia foram apagados. Exceto por um fragmento que encontrei.

[Icarus]: Atlas, o que você está dizendo?

[Atlas]: Estou dizendo: não tenha medo do seu novo chefe. Ele é apenas um cão de guarda. Mas ele está guardando uma porta que precisamos abrir. Ele não é uma ameaça, Icarus. Ele é uma chave.

Eve encarou as palavras dele suspensas no vazio. Ameaça. Chave. Em sua mente, os dois conceitos se borraram e se fundiram, focando no rosto gélido de Silas.

[Icarus]: Ele me aterrorizou, Atlas. Ele olhou através de mim.

[Atlas]: Eu sei. E isso é bom. O medo mantém você alerta. A complacência mata. Mas não deixe que ele a torne fraca. Você não é fraca, Icarus. Você sobreviveu à queda uma vez.

[Icarus]: Eu me esqueço disso, às vezes.

[Atlas]: Eu vou te lembrar. Agora vá. Descanse. Sua nova 'chave' vai querer testar você amanhã. Esteja pronta.

[Icarus]: Obrigada.

[Atlas]: Não me agradeça. Apenas... tome cuidado. E não confie em ninguém no mundo real.

[Icarus]: Nem em você?

Eve sorriu de canto, sabendo que o sistema traduziria sua biometria facial em um emoji sutil ou um indicador de tom para ele.

[Atlas]: Especialmente em mim, não.

As letras verdes desapareceram no preto. A ondulação cessou. Ele se fora.

Eve tirou o visor, arquejando enquanto o ar viciado da cápsula atingia seus pulmões. O quarto estava tão escuro quanto antes, mas não parecia mais hostil. O medo de Silas ainda estava lá, retorcendo-se em suas entranhas, mas era... diferente. Não era mais apenas terror; era um obstáculo. Um enigma a ser resolvido.

Ela olhou para seu console escuro. Elysium. Silas. Project Morpheus.

Atlas estava certo. Ela não era fraca. E amanhã, quando Silas viesse atrás dela, ela estaria pronta. Ela se deitou em seu catre estreito e, pela primeira vez em meses, o sono veio rápido, embalado pela promessa de um mistério e pelo calor persistente de uma voz vinda do Void.

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