Os números no cronômetro interno da cápsula eram debochadamente precisos: 938 dias, 14 horas, 22 minutos.
Esse era exatamente o tempo desde que Eve sentira ar natural e não filtrado em seus pulmões pela última vez.
Ela estava sentada, curvada em sua cadeira de imersão háptica, a peça central de sua fortaleza. A Capsule 3012 era seu mundo, sua prisão e seu santuário, tudo ao mesmo tempo. Eram vinte metros quadrados de um espaço estéril e com temperatura controlada, empoleirado precariamente no trigésimo andar da Helios Tower. Além da janela de poli-aço triplamente reforçada — que ela mantinha permanentemente polarizada em um preto opaco e impenetrável — Neo-Kyoto, 2077, vivia sua vida febril e mergulhada em neon.
Eve sabia o que havia lá embaixo. Ela não precisava olhar. Já tinha visto o suficiente em imagens de arquivo de drones e nos feeds de notícias constantes que rolavam projetados em sua retina. Ela sabia sobre a perpétua chuva ácida que deixava as ruas com um brilho oleoso. Sabia sobre as multidões — o rio aterrorizante e sem rosto de humanidade que sufocava as avenidas, milhões de pessoas se espremendo sob a luz bruxuleante de guarda-chuvas holográficos. Sabia sobre os spinners cortando a fumaça alaranjada como tubarões em águas sujas.
E ela sabia sobre os anúncios. Geishas e dragões holográficos do tamanho de prédios prometendo juventude eterna, êxtase neural e fuga. Tudo oferecido pela Elysium — sua empregadora.
Eve ajustou o feedback háptico em suas luvas. Na tela à sua frente, um modelo em aramado de uma vila toscana estava sendo renderizado. Ela não estava apenas construindo uma casa; estava tecendo uma sensação. Ajustou o código para a variável de "sunlight", aumentando o calor na pele virtual em 0,4%.
"Quente demais", ela murmurou, diminuindo o valor. "Os clientes querem 'Toscana', não 'insolação'."
Ela era a estrela da Elysium, uma "Dream Designer". Desse quarto, dessa cadeira que se moldava à sua coluna como uma segunda pele, ela criava universos inteiros. Construía simulações de bibliotecas flutuando em gravidade zero sob os anéis de Saturno, onde os grãos de poeira eram feitos de diamantes. Codificava primeiros encontros perfeitos em cafés parisienses que não existiam há cinquenta anos. A elite da cidade consumia suas criações como uma droga, desesperada para escapar da realidade sombria do Sprawl.
Ela era a melhor. E a Elysium pagava uma fortuna para que ela ficasse exatamente ali, trancada por suas próprias neuroses incapacitantes, mantendo o fluxo de conteúdo.
Sua agorafobia — o que os médicos da rede chamavam educadamente de "Capsule Syndrome" e o que Eve chamava em particular de "The Walls" — era seu contrato. Enquanto ela fosse um gênio, a corporação permitia que fosse uma eremita. Eles enviavam drones com pacotes de nutrientes. Filtravam seu ar. Mantinham-na segura.
Tudo estava sob controle. O código estava limpo. O ar era estéril.
Até este segundo.
Um sinal agudo e penetrante rasgou o silêncio. Não era o toque suave e melódico de uma notificação padrão. Era um grito dissonante e estridente — um "Red Alert".
Eve deu um salto, sua mão escorregando na interface háptica, deletando um vinhedo virtual instantaneamente. O quarto inteiro foi banhado por uma luz carmesim rítmica e pulsante. Em seu console principal, que abrangia a parede inteira, três palavras queimavam em uma fonte agressiva e em blocos:
REUNIÃO GERAL. AGORA. PRESENÇA OBRIGATÓRIA.
O sangue fugiu de seu rosto, deixando-a gélida.
Obrigatória.
A palavra era um martelo estraçalhando o vidro de seu frágil ecossistema. No léxico corporativo da Elysium, "Obrigatória" significava sem escolha. Significava que seu status remoto — sua autorização de Level 3 que a isentava da presença física — estava sendo anulado.
"Não", ela sussurrou, a respiração falhando. "Não, não, não..."
Ela agarrou os braços da cadeira, os nós dos dedos ficando brancos, as unhas cravando no couro sintético macio. Seu coração martelava contra as costelas como um pássaro enjaulado, frenético e dolorido. Um zumbido agudo começou em seus ouvidos, abafando o som dos recicladores de ar.
938 dias.
O número lampejou em sua mente. Ela não conseguiria. Não estava pronta. O simples pensamento da porta — a eclusa selada que a separava do corredor — se abrindo fazia a bile subir em sua garganta. Se tivesse que caminhar por aquele corredor, entrar em um elevador lotado, sentir o cheiro do suor de outras pessoas, respirar o ar não filtrado do saguão... ela morreria. Seu coração simplesmente pararia.
Ela olhou para a porta da cápsula. Era uma pesada placa de metal cinza. Além dela, jazia o abismo.
O cronômetro em sua tela iniciou uma contagem regressiva. 00:30.
O pânico ameaçou engoli-la por inteiro. Sua visão ficou turva. Ela se forçou a respirar, usando as técnicas que seu terapeuta de IA havia baixado em seu cérebro anos atrás. Inspira por quatro. Segura por quatro. Expira por quatro.
Pense, Eve. Esta é a Elysium. Eles são pragmáticos acima de tudo. Não arrastariam seu ativo de maior rendimento para fora de seu espaço de trabalho à força. Seria... ineficiente.
O cronômetro chegou a 00:00.
O quarto oscilou. O alerta vermelho agressivo desapareceu, substituído instantaneamente pela luz branca, estéril e implacável de uma interface de vídeo corporativa. Sua parede inteira se dissolveu em uma grade com dezenas de rostos.
O alívio foi tão poderoso, tão físico, que os joelhos de Eve cederam e ela se deixou cair de volta na cadeira.
Virtual. Graças a todos os deuses do binário e do código, é virtual.
Ela se apressou para ativar sua câmera, alisando sua túnica cinza e afastando o cabelo castanho emaranhado. Seu próprio rosto pálido e de olhos arregalados apareceu em um pequeno quadrado no canto da grade. Ela parecia um fantasma assombrando uma máquina.
"Obrigado por se juntarem a nós com tanta urgência", uma voz cortou o feed de áudio.
Pertencia a Akira Tanaka, o CEO da Elysium. Geralmente, Tanaka parecia uma escultura polida — terno impecável, postura calma, um sorriso que dizia que tudo estava bem. Hoje, ele parecia cinzento. Gotas de suor brotavam em sua testa, visíveis mesmo através da transmissão em alta definição.
"Tenho más notícias", disse Tanaka, com a voz tensa. "Notícias catastróficas. Há três horas, às 04:00, horário local, a Elysium sofreu uma violação de segurança massiva. Alguém vazou nosso código-fonte principal de 'Dream' na rede pública."
Um choque coletivo percorreu a grade virtual. As pessoas arfaram. Mãos cobriram bocas. Eve viu Marcus, seu supervisor direto, parecendo pálido e nauseado em seu quadro.
Eve sentiu um nó gelado se formar em seu estômago. O código-fonte? Aquilo era tudo. Eram as leis físicas da luz solar toscana, a gravidade da biblioteca de Saturno. Era a alma dela, exposta para carniceiros.
"Este não foi um ataque externo", continuou Tanaka, sua voz endurecendo, tornando-se quebradiça. "Nossos firewalls externos resistiram. Isso foi um trabalho interno. Um traidor."
O pânico no peito de Eve voltou, mas sofreu uma mutação. Não era mais o medo do lado de fora. Era o medo de estar sendo observada. Sua cápsula não era mais uma fortaleza; era a cena de um crime. Todos naquela grade eram suspeitos. E quem era a mais suspeita? A eremita. A esquisita na Capsule 3012 que se recusava a mostrar o rosto no escritório e tinha acesso remoto total aos servidores.
"O Conselho removeu nosso antigo Head of Security", disse Tanaka, limpando a testa com um lenço de seda. "E nomeamos um novo. A ele foi concedido poder executivo extraordinário e ilimitado para encontrar a fonte deste vazamento. Por qualquer meio necessário."
Tanaka fez uma pausa, engolindo em seco. Sua janela de vídeo se moveu para o lado, encolhendo para dar lugar a um novo feed.
"O nome dele é Silas. Ele já está aqui."
Um novo rosto apareceu na tela, ocupando o centro das atenções.
Eve esperava um estereótipo. Um soldado corporativo cheio de cromo com uma mandíbula cibernética, ou talvez um veterano grisalho das Net Wars com cicatrizes e medalhas.
Mas este homem era... diferente.
Ele era jovem, talvez trinta e dois anos. Tinha cabelos escuros que eram um pouco longos demais para os padrões corporativos rígidos de Neo-Kyoto. Não usava implantes visíveis — sem portas de dados nas têmporas, sem lentes cibernéticas. Sua camisa preta era simples, de gola alta e sem logotipos.
Mas seus olhos.
Eram como obsidiana polida. Frios, vazios e incrivelmente perceptivos. Ele não estava transmitindo da sala de reuniões da Elysium. Seu plano de fundo era uma parede cinza simples, sem janelas. Uma cela? Um bunker? Ele olhava diretamente para a lente da câmera, e Eve teve a sensação horrível e irracional de que, entre os cinquenta rostos na grade, ele olhava exclusivamente para ela.
"Meu nome é Silas", ele disse.
Sua voz era um estrondo de barítono, firme e profunda. Carecia dos tremores nervosos de Tanaka ou do entusiasmo falso da equipe de marketing. Parecia ter sido gerada por uma IA caríssima que havia removido toda a empatia humana desnecessária.
"O Sr. Tanaka chamou isso de 'vazamento'", continuou Silas. "Eu chamo de declaração de guerra. Meu predecessor era mole demais. Ele operava sob o princípio da confiança."
Silas fez uma pausa. Ele não piscou.
"Eu não confio em ninguém."
O silêncio na chamada era ensurdecedor. Até a estática parecia prender a respiração.
"Minha investigação começa imediatamente", afirmou Silas. "Não pedirei relatórios. Eu os tomarei. Cada conta, cada linha de código que vocês escreveram no último ano, cada registro de comunicação, cada leitura biométrica será analisada. Cada um de vocês é um suspeito até que eu prove o contrário. Encontrarei este vazamento e o arrancarei pelas raízes."
Seu olhar pareceu vagar pela grade, verificando os rostos dos funcionários aterrorizados. Então, parou. Eve sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
"Não haverá exceções", disse Silas. Sua voz baixou, tornando-se mais contida, mais íntima. Deslizou por baixo da pele dela como uma agulha hipodérmica. "Especialmente... para aqueles com acesso remoto de alto nível."
Ele não disse o nome dela. Não precisava. Ela era a única.
"Vocês irão cooperar", finalizou. "Ou serão considerados uma obstrução. E eu considero obstruções... ineficientes. Terminamos."
A transmissão caiu.
A parede ficou preta. O alerta vermelho se foi. A luz branca se foi. Eve ficou sentada na penumbra que retornava à sua cápsula, incapaz de se mover. Suas mãos tremiam tanto que vibravam contra os braços da cadeira.
Por 938 dias, ela viveu aterrorizada pelo mundo lá fora. Achava que as paredes mantinham os monstros do lado de fora. Mas esse homem, Silas, acabara de provar que o verdadeiro terror não precisava de uma porta. Ele podia vir diretamente pelos cabos de fibra óptica.
Seu mundo não era mais seu santuário. Agora era o campo de caça dele. E ela sabia, com uma certeza aterrorizante, que era seu alvo principal.

