No dia seguinte, Eve acordou em silêncio.
A cápsula era sempre silenciosa — o isolamento acústico era de nível militar —, mas aquela era uma frequência diferente de silêncio. Não era um vazio; estava carregado de tensão. Era o silêncio de um predador prendendo a respiração antes do ataque.
Após sua conversa com Atlas, seu sono fora inquieto, uma montagem febril dos olhos de obsidiana de Silas e do texto verde tóxico e sedutor de "Project Morpheus."
Ela passou a manhã tentando manter sua rotina. A rotina era sua armadura. 08:00: Nutri-shake (sabor Vanilla-Synth). 08:30: Calistenia nos dois metros quadrados de espaço livre. 09:00: Login.
Ela abriu sua tarefa atual: "The Azure Coast." Era uma simulação sob medida para um magnata do setor de transportes da Vanguard Corporation que queria uma praia particular onde o sol nunca se punha. Eve mergulhou no código, tentando esculpir as ondas. Ela ajustou a refração da luz na água, refinou o som das gaivotas.
Mas não conseguia se concentrar.
A areia parecia falsa. O som das ondas irritava seus nervos como estática. Cada clique do sistema de suporte de vida da cápsula — o zumbido do ventilador, o ruído da geladeira — a fazia estremecer.
Ele está me observando.
As palavras de Silas de ontem — "Não confio em ninguém" — haviam se infiltrado em seu cérebro como um parasita. Ela se sentia exposta. Sentia como se seu santuário, sua fortaleza de solidão, agora tivesse um espelho unidirecional instalado, e ele estivesse do outro lado, tomando notas.
A paranoia pinicava sua pele. Ela minimizou o trabalho e verificou os registros internos do sistema. Tudo limpo. Nenhum sinal de acesso não autorizado, nenhum visualizador remoto, nenhum ping. Mas isso não significava nada. Um homem que a Elysium contratou para caçar um fantasma seria, ele próprio, um fantasma. Ele não deixaria pegadas.
Às 10:17 da manhã, seu console piscou.
Não era o Red Alert de ontem. Não era uma chamada em grupo. Era uma solicitação única e não agendada para um link de vídeo direto e de alta prioridade.
Remetente: SILAS.
O coração dela despencou. Aquilo era pior do que a reunião geral. Era pessoal. Ele a estava selecionando. Ele a estava isolando do rebanho.
Ela tinha três segundos para atender antes que a IA corporativa a sinalizasse como "sem resposta" ou "insubordinada." Ela deu uma respiração irregular e trêmula, alisou o cabelo e apertou "Aceitar".
O código de The Azure Coast desapareceu. Sua parede tornou-se novamente o escritório cinzento e sem vida dele.
Ele estava lá. Estava sentado tão imóvel quanto ontem, uma estátua esculpida em pedra escura. Usava o mesmo estilo de camisa preta simples, de gola alta e severa. Parecia não dormir há uma semana, mas sua energia permanecia inabalável. Seus olhos, escuros e afiados, perfuraram-na instantaneamente.
"Designer Eve," disse ele. Não disse olá. Não perguntou como ela estava. Ele declarou o nome dela como um fato que havia verificado.
"Sr. Silas," ela sussurrou. Sua voz falhou imediatamente, traindo seu terror. Ela limpou a garganta. "Senhor."
"Analisei seu arquivo," disse ele. Seu olhar era tão pesado que parecia um peso físico pressionando o peito dela. "Nove anos na Elysium. O índice de produtividade mais alto na divisão 'Dream' por quatro anos consecutivos. Zero infrações. Zero dias de licença médica."
Ele fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça. "E 939 dias de trabalho remoto contínuo. Você não entra na Tower nem participa de uma reunião física há mais de dois anos e meio."
"Meu... meu contrato permite," ela forçou as palavras a saírem. "Isenção médica de Level 3."
"Seu contrato é uma relíquia da antiga administração," ele a interrompeu, a voz suave e fria. "A mesma administração que permitiu que esta violação ocorresse porque foram negligentes. Porque não prestaram atenção."
"Eu não... eu não tive nada a ver com a violação."
"Eu sei," Silas disse. "Já a inocentei do vazamento."
Eve piscou, atordoada. "O senhor... inocentou?"
"O traidor deixou pegadas digitais. Pegadas grosseiras. Você não deixa pegadas, Eve. Seu código é impecável. Elegante."
Foi a primeira vez que ele usou o primeiro nome dela sem o título. Parecia íntimo e perigoso.
"No entanto," continuou ele, inclinando-se para frente. "Seu isolamento a torna um ativo único, Designer. E um risco único. Você é um fantasma na máquina. Você existe fora da engenharia social do escritório. Você não tem conexões."
"Eu só quero fazer o meu trabalho."
"Não estou interessado no que você quer," ele interrompeu, a voz nunca se elevando, nunca perdendo aquela calma aterrorizante. Ele era como um cirurgião explicando uma amputação a um paciente. "Estou interessado no que você fará."
Ele desviou o olhar da câmera por uma fração de segundo, e uma notificação apitou no console de Eve.
"O vazamento que estamos caçando não é sobre seus 'Dreams'. É mais profundo. O traidor de ontem roubou lixo — ativos comerciais. Mas eles estavam tentando chegar a outra coisa. Algo mais antigo."
Ele voltou a olhar para ela. A intensidade de seu olhar a prendeu na cadeira.
"Não posso confiar nos analistas. Eles fofocam. Tomam drinks depois do trabalho. Estão comprometidos por suas conexões sociais. Mas você... você está na sua caixa há 939 dias. Você não fala com ninguém. Não vê ninguém. Você é a ferramenta perfeita. Você é a única funcionária com seu nível de autorização em quem posso confiar para guardar um segredo."
Foi o elogio mais estranho que ela já recebeu. Parecia uma armadilha.
"O que... o que o senhor precisa que eu faça?"
"Preciso que você realize uma auditoria de segurança forense em um projeto antigo e enterrado. Isso é classificado como Level 5 — Eyes Only. Você não discutirá isso com ninguém. Nem com seu antigo supervisor, Marcus. Nem com seus colegas. Ninguém. Se você falar sobre isso, eu saberei, e seu contrato será encerrado. Junto com seu acesso ao suporte de vida."
"Apenas... apenas uma auditoria?" ela engoliu em seco.
"Você analisará os registros de acesso, encontrará quaisquer anomalias, descobrirá quem tentou acessá-los ontem e reportará... apenas a mim."
Um arquivo surgiu em seu console. Era pesado, criptografado com protocolos de nível militar que Eve não via desde as Net Wars. Mas uma janela de autorização apareceu ao lado dele. Silas acabara de lhe entregar as chaves do reino.
"O que é isso?" ela perguntou, a mão pairando sobre a interface.
"Codinome: Project Morpheus."
O sangue congelou em suas veias. O quarto pareceu girar.
Atlas.
"Eu encontrei algo... Project Morpheus..."
"Algo errado, Designer?" A voz de Silas cortou o choque dela como um chicote.
Eve olhou para cima. Um brilho de... algo... brilhou em seus olhos de obsidiana. Suspeita? Curiosidade? Ele tinha visto. Tinha captado sua microexpressão.
"Não," ela mentiu, forçando a voz a permanecer firme, embora o suor frio escorresse por sua espinha. "Não, nada. Apenas... um nome estranho para um arquivo corporativo."
"Não é um nome estranho. É um projeto fracassado. Um erro do passado. Você deve garantir que ele permaneça devidamente enterrado."
Ele enviou a chave de descriptografia. Ela a digitou com dedos trêmulos. O arquivo se descompactou em sua tela.
Não era código. Não eram os projetos estruturais de um Dream.
Era uma lista. Um banco de dados.
Project Morpheus: Ensaios Clínicos. Fase 1.
Seus olhos percorreram as linhas, e o horror a invadiu, frio e sufocante.
Cobaia 001: Status: Degradação Neural Grave. Colapso cognitivo. Cobaia 002: Status: Psicose (Agressiva). Exterminada. Cobaia 003: Status: Óbito (Parada Cardíaca causada por feedback loop). Cobaia 004: Status: Degradação Neural. Comatosa. Cobaia 005: Status: Óbito (Suicídio).
Eve encarou a tela, incapaz de respirar. A lista continuava. Dezenas de nomes. Idades. Datas.
"Meu Deus," o sussurro escapou de seus lábios antes que pudesse impedi-lo.
"São apenas dados antigos, Designer," disse Silas. Sua voz era gelo, mas seus olhos... eles queimavam com um fogo estranho e intenso. "Seu trabalho é garantir que esses dados estejam seguros. Garantir que ninguém perturbe os mortos."
Ela rolou a tela para baixo. Aqueles não eram apenas nomes. Eram pessoas. Pessoas que a Elysium tinha... usado? Quebrado? Matado?
"Silas... o que é isso?" ela olhou para ele, os olhos se enchendo de lágrimas de horror. "Essas são pessoas."
"Isso," disse ele, aproximando-se da câmera até que seu rosto preenchesse a parede dela, "é o que você está protegendo agora."
Foi então que ela percebeu. Todo o peso daquilo. Não era uma auditoria. Não era um teste de suas habilidades.
Aquilo era uma coleira.
Ele acabara de amarrá-la àquilo. Àquela atrocidade. Ele a tornara cúmplice. Ao abrir o arquivo, ao ver os nomes, ela agora fazia parte da conspiração. Ela não podia fugir. Não podia denunciá-lo, porque ela agora detinha a prova do crime.
"Ninguém mais vê este arquivo," a voz dele caiu para um sussurro baixo e letal que pareceu preencher o ar em sua cápsula, deslocando o oxigênio. "Apenas eu. Apenas você. Você é o meu cofre agora, Eve."
Ele a encarou, e ela soube que não era apenas uma ordem. Era um vínculo. Um pacto sombrio e distorcido.
"Fui claro... Eve?"
Era a segunda vez que ele usava o nome dela. E desta vez, não soou como uma fechadura se fechando. Soou como terra caindo sobre um caixão.
Eve assentiu lentamente, incapaz de desviar os olhos da lista dos mortos. Ela estava presa. Sua fortaleza se tornara sua masmorra. E esse homem, Silas, acabara de lhe entregar a chave e dizer que ela jamais teria permissão para usá-la.
"Entendido," ela sussurrou.
A chamada foi encerrada, deixando-a sozinha no escuro com os nomes dos mortos e o fantasma dos olhos de Silas queimando em sua alma.
