Setenta andares acima do concreto suado e arquejante de Manhattan, o ar era rarefeito e filtrado até atingir uma pureza estéril. Aqui, na cobertura da Aethelred Tower, a sinfonia caótica de Nova York — as sirenes, os gritos, o moer incessante do tráfego — era reduzida a uma abstração silenciosa e cintilante.
Jude Devereaux estava diante de uma parede de vidro, seu reflexo pairando como um fantasma sobre as luzes da cidade abaixo. Para o mundo exterior, ele era um filantropo de trinta e cinco anos, um prodígio do capital de risco e o rosto charmoso de uma linhagem de posses. Na realidade, ele havia parado de envelhecer quando Napoleão ainda era um cabo na artilharia francesa.
Ele girou o conteúdo de seu copo de cristal. Não era um uísque raro ou um conhaque vintage. O líquido era espesso, opaco e de um carmesim profundo e escuro. Tinha sido decantado de uma bolsa de grau médico mantida em um refrigerador oculto atrás do bar. Era sustento, despojado da emoção da caçada, frio e clínico.
Ele tomou um gole, sua expressão inalterada enquanto o gosto ferroso banhava sua língua. Era entediante. Tudo, ultimamente, era terrivelmente entediante.
A sala atrás dele era um testemunho de séculos de gosto e riqueza acumulados. Um Modigliani estava pendurado casualmente ao lado de uma estante cheia de primeiras edições que fariam o curador de um museu chorar. Os móveis eram italianos, baixos e austeros, esculpidos em madeira escura e estofados em couro da cor da meia-noite. Era uma gaiola linda, mas, ainda assim, uma gaiola.
— Você está remoendo algo, Jude. Isso não combina com você.
A voz veio das sombras perto do elevador privativo. Não houve sinal sonoro, nem o zumbido de máquinas. Marcus simplesmente havia chegado.
Jude não se virou. Ele observou um helicóptero da polícia abrir caminho pela escuridão abaixo, seu holofote como um dedo minúsculo e inquisidor.
— Estou pensando, Marcus. Há uma diferença — respondeu Jude, sua voz suave, um barítono treinado para comandar exércitos e salas de reuniões da mesma forma. — Embora eu suponha que a distinção muitas vezes escape a você.
Marcus deu um passo para a luz da única luminária de chão escultural. Ele era a antítese da elegância polida de Jude. Onde Jude era uma rapieira — afiada, flexível, precisa — Marcus era um martelo de guerra. De ombros largos, com um cabelo raspado que em nada suavizava suas feições duras, ele vestia seu terno caro como um figurino que não servia direito. Sua energia era inquieta, violenta, uma mola comprimida pronta para saltar.
— Ela transmitiu o nome — disse Marcus, sua voz um rosnado baixo. Ele passou direto pelo bar e caminhou pela sala, suas botas pesadas silenciosas no tapete felpudo. — A Foundation. Ela disse no ar para meio milhão de pessoas. 'The Ethelred Foundation é o fio condutor'.
— Eu ouvi a transmissão — disse Jude calmamente.
— Então por que você está aí parado bebendo o jantar em vez de autorizar uma equipe de limpeza? — Marcus parou, as mãos cerradas em punhos ao lado do corpo. — Ela rompeu o Véu, Jude. Ela está nos ligando aos desaparecimentos. O Conselho está... descontente.
Jude finalmente se virou. Ele se moveu com uma graça fluida que era apenas uma fração rápida demais para ser humana. Ele pousou o copo em uma mesa lateral de mármore com um clique suave.
— O Conselho é uma reunião de relíquias amedrontadas — disse Jude, seus olhos da cor de ardósia tempestuosa fixos em Marcus. — Eles ainda pensam em termos de tochas e forcados. Acham que a solução para cada problema é um incêndio ou um cadáver drenado em um beco.
— Funciona — argumentou Marcus. — Jornalistas mortos não gravam podcasts.
— Não — corrigiu Jude. — Em 2024, jornalistas mortos tornam-se mártires. Tornam-se mistérios virais. Se Chloe Sullivan desaparecer esta noite, logo após nos acusar, ela se tornará a maior história do mundo. Cada detetive amador, cada agência federal, cada fanático por crimes reais estará dissecando a Foundation amanhã de manhã. Estaríamos trocando uma dor de cabeça por uma guilhotina.
Ele caminhou até sua mesa, uma placa maciça de ébano que dominava a extremidade da sala. Ele tocou a superfície e uma interface holográfica surgiu cintilando acima dela. Exibia um fluxo de dados: menções em redes sociais, estatísticas de download, discussões em fóruns. O nome Chloe Sullivan estava nos trending topics.
— Olhe para ela — disse Jude, gesticulando para os dados. — Ela não é apenas uma colunista de fofocas. Ela é diligente. Ela encontrou a conexão com Eleanor Vance que o NYPD deixou passar por três décadas. Ela tem instinto.
— Ela é uma ameaça — cuspiu Marcus.
— Ela é uma oportunidade — corrigiu Jude suavemente.
Ele deslizou a mão e o fluxo de dados foi substituído por uma transmissão de vídeo ao vivo. Era uma visão em alta definição de um corredor, filmada de um ângulo alto. Uma jovem caminhava de um lado para o outro, o telefone pressionado contra a orelha, o rosto pálido e tenso de medo. Era Chloe, dentro de seu próprio prédio, vista através da câmera que a equipe de Jude havia hackeado minutos após o fim de sua transmissão.
— Eu enviei o medalhão para ela — revelou Jude.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Marcus olhou para ele, a mandíbula caindo ligeiramente. — Você... o quê?
— Enviei o medalhão de Eleanor para ela. Mandei retirá-lo do Vault.
— Você está louco? — A voz de Marcus subiu para um grito. — Você deu evidências a ela? Evidência física, inegável?
— Eu dei um gancho a ela — disse Jude, sua voz tornando-se fria, a temperatura na sala parecendo cair junto com ela. — Dei a ela um motivo para acreditar que alguém a está observando. Alguém poderoso. Alguém que sabe.
Ele deu a volta na mesa, encostando-se nela e cruzando os braços.
— Ouça-me, Marcus. Chloe Sullivan está procurando por um monstro. Se tentarmos nos esconder, ela continuará cavando até encontrar um. Ela encontrará os bancos de sangue. Encontrará os locais de descarte. Encontrará você.
Marcus se eriçou, arreganhando os dentes levemente — um flash branco que parecia afiado demais.
— Então — continuou Jude —, nós não nos escondemos. Nós controlamos a narrativa. Eu não vou matá-la. Vou seduzi-la.
Marcus piscou. — Como é que é?
Jude sorriu, uma expressão fina, como a de um tubarão. — Não da maneira que sua mente rude imagina — embora ela seja reconhecidamente atraente. Quero dizer intelectualmente. Eu me tornarei o aliado dela. Me tornarei a 'Fonte' pela qual ela está tão desesperada. Enviei o medalhão para estabelecer contato. Em seguida, vou alimentá-la com informações. Fatos reais, misturados com mentiras cuidadosamente construídas. Vou apontá-la para nossos rivais. Usarei o podcast dela para destruir os inimigos da Foundation, tudo enquanto ela pensa que está expondo a verdade.
— Você está brincando com fogo — alertou Marcus, embora sua raiva parecesse estar dando lugar à confusão. — Ela é esperta. E se ela enxergar através de você?
— Ela é humana — disse Jude com desdém. — Ela é movida pela emoção, por uma necessidade de justiça, pelo medo. Humanos são fáceis de conduzir se você souber quais cordas puxar.
Ele se voltou para a tela. Na transmissão, Chloe tinha parado de caminhar. Ela estava encarando a porta da frente, tremendo. Tinha acabado de encontrar o medalhão.
— Olhe para ela — sussurrou Jude. — Ela está aterrorizada. E, no entanto, ela o pegou. Não correu. Ela mordeu a isca.
— E quando ela perceber que a isca tem um anzol? — perguntou Marcus.
— A essa altura, ela estará tão emaranhada em minha teia que não conseguirá se mover sem minha permissão. — Os olhos de Jude brilharam com uma leve luminescência âmbar, um sinal de sua fome e excitação crescentes. — Serei seu protetor. Seu confidente. E quando chegar a hora certa, quando ela tiver servido ao seu propósito... então decidiremos o destino dela.
Marcus bufou, balançando a cabeça. — Você sempre gostou de brincar com a comida, Jude. Era o seu defeito há trezentos anos, e é o seu defeito agora.
— Não é um defeito, Marcus. É uma forma de arte. — Jude tocou a mesa e a tela ficou preta. — Agora, vá. Preciso que você organize o próximo passo. O mensageiro precisa entregar o celular descartável amanhã de manhã. E quero que você fique longe dela.
Marcus parou diante das portas do elevador. — E se ela entrar no beco errado? Se ela chegar perto demais de algo que não deveria?
— Ela é minha para lidar — disse Jude, sua voz caindo para um tom de autoridade absoluta e esmagadora. A pressão do ar na sala aumentou, pressionando os tímpanos de Marcus. — Não toque nela, Marcus. Não a assuste mais do que eu instruí. Se você danificar meu instrumento, eu arrancarei sua cabeça. Fui claro?
Marcus sustentou o olhar dele por um segundo longo e tenso. Na hierarquia de sua espécie, Jude era o Ancião, o Príncipe da Cidade. Marcus era um soldado. Ele baixou a cabeça, uma reverência rígida e relutante.
— Cristalino — resmungou Marcus. As portas do elevador se abriram e ele entrou, desaparecendo no poço.
Jude estava sozinho novamente. O silêncio retornou rapidamente, mas o tédio havia desaparecido.
Ele voltou para a janela, olhando para a malha urbana de Manhattan. Em algum lugar lá embaixo, em um brownstone no Village, Chloe Sullivan segurava um pedaço da história dele em suas mãos. Ela estava tentando resolver um quebra-cabeça que ele havia desenhado.
Ele sentiu uma pulsação de antecipação que não sentia há décadas.
— Pare de cavar, Chloe — sussurrou ele para o vidro, seu hálito embaçando a superfície por um breve segundo antes de desaparecer. — Ou cave mais fundo. Eu me pergunto qual caminho você escolherá.
Ele terminou o restante do sangue em um único gole, o gosto metálico finalmente parecendo doce. O jogo tinha começado.
