O nascer do sol sobre Manhattan era de um roxo machucado, filtrando-se pela poluição para lançar uma luz doentia na cozinha de Chloe. Ela não tinha dormido. Estava sentada em sua pequena ilha, uma caneca de café frio intocada ao seu lado, encarando os dois objetos que haviam virado sua realidade de cabeça para baixo em menos de doze horas.
O locket de prata. E o burner phone.
O telefone tinha chegado às 6h da manhã, entregue por um mensageiro que não disse uma palavra e desapareceu antes que ela pudesse assinar pelo pacote. Era um tijolo de plástico barato e descartável, gritantemente diferente da elegância antiga do locket.
Tinha vibrado uma vez, exibindo uma única mensagem de texto:
A marca do fabricante no verso pertence à Van Der Hoven’s Auction House. Lot 49. Hoje. Meio-dia. Use algo bonito.
Chloe esfregou os olhos. O medo da noite anterior — a maçaneta girando, a ameaça silenciosa — havia se calcificado em uma determinação fria e dura. Alguém estava jogando com ela. E Chloe Sullivan detestava perder.
Ela passou a manhã pesquisando sobre a Van Der Hoven’s. Era exatamente o que esperava: uma casa de leilões tão exclusiva que não fazia propaganda. Atendia ao tipo de riqueza que não apenas comprava arte, mas comprava a história ligada a ela. E, crucialmente, tinha sido uma das principais beneficiárias de doações da The Ethelred Foundation para "preservação cultural".
Às 11h45, Chloe desceu de um táxi no Upper East Side. Tinha trocado sua habitual jaqueta de couro e jeans por um vestido preto elegante e saltos que costumava reservar para casamentos e audiências no tribunal. Sentia-se como uma impostora em sua própria pele, protegida por uma armadura de seda.
A casa de leilões era uma fortaleza de calcário disfarçada de sobrado. O porteiro conferiu o nome dela em uma lista — ela usara suas credenciais de imprensa, um movimento arriscado — e, surpreendentemente, permitiu sua entrada.
Lá dentro, o ar cheirava a cera de abelha, papel velho e dinheiro. O showroom era silencioso, povoado por pessoas que se moviam com o langor lento e confiante daqueles que são donos do mundo.
Chloe circulou pelas exibições, com os olhos varrendo a sala. O Lot 49 era uma coleção de joias de luto vitorianas. E ali, em uma vitrine de vidro, estava uma pulseira que combinava perfeitamente com o estilo de seu locket. A mesma prata pesada. O mesmo trabalho intrincado de nós.
"Bonita, não é?"
A voz era baixa, profunda e pareceu uma carícia física contra a nuca dela.
Chloe se virou bruscamente.
O homem parado atrás dela ocupava todo o oxigênio da sala. Ele era alto, vestindo um terno grafite que lhe caía com precisão arquitetônica. Seu cabelo era escuro, penteado para trás de um rosto que era simétrico demais, marcante demais para ser inteiramente confortável de se olhar. Mas eram os olhos dele que a prendiam no lugar. Tinham a cor de ardósia em uma tempestade, inteligentes e indecifráveis.
"É... intensa", Chloe conseguiu dizer, com seu cérebro de jornalista entrando em curto-circuito momentâneo.
"Joias de luto costumam ser", disse o homem, aproximando-se do vidro. Ele não olhou para ela; olhou para a pulseira. "Os vitorianos entendiam que o luto é algo pesado. Acreditavam que deveria ter peso. Substância." Ele se voltou para ela, oferecendo a mão. "Jude Devereaux."
A respiração de Chloe falhou. Era ele. O alvo. O chefe da Foundation. O homem que ela acusara de liderar uma conspiração há menos de vinte e quatro horas.
"Chloe Sullivan", disse ela, pegando a mão dele. O aperto era firme, a pele fria ao toque. Um choque elétrico, estática talvez, subiu por seu braço.
"Eu sei", Jude sorriu. Não era o sorriso de predador que ela esperava. Era charmoso, quase autodepreciativo. "Minha equipe de RP estava em polvorosa esta manhã. Me disseram que você acha que estou sequestrando a elite de New York."
Chloe puxou a mão de volta, suas defesas entrando em ação. "Acho que há perguntas que a Foundation não respondeu, Mr. Devereaux."
"Jude, por favor", ele corrigiu sem esforço. "E eu concordo. Transparência é uma virtude que negligenciamos. É por isso que eu esperava que nos encontrássemos."
"Você esperava?" Chloe estreitou os olhos. "Sabia que eu estaria aqui?"
"Eu sei de muitas coisas, Chloe. Sei que você é obstinada. Sei que está procurando a verdade sobre Eleanor Vance." Sua expressão mudou, uma sombra passando por suas feições que pareceu genuinamente sofrida. "Eleanor era... uma amiga da minha família. A perda dela não é apenas um 'caso encerrado' para nós. É uma tragédia."
Ele se inclinou levemente, baixando a voz. O perfume dele — sândalo caro e algo metálico, como ozônio — preencheu os sentidos dela.
"Cuidado, Chloe. Você está puxando fios que estão amarrados a coisas muito pesadas. Nem todo mundo nesta cidade é tão tolerante com a curiosidade quanto eu."
"Isso é uma ameaça?", ela desafiou, erguendo o queixo.
"É um conselho", Jude disse suavemente. "De um investigador para outro. Continue cavando, com toda certeza. Mas preste atenção onde pisa. O chão pode ser instável."
Antes que ela pudesse responder, ele se empertigou, verificando um relógio vintage no pulso. "Receio que eu tenha uma reunião de diretoria. Mas suspeito que nos veremos mais vezes."
Ele se afastou, desaparecendo na multidão sem olhar para trás. Chloe ficou parada ali, o coração martelando um ritmo frenético contra as costelas. Ele não era nada parecido com o monstro que ela tinha traçado no perfil. Ele era magnético. Era razoável.
E era aterrorizante.
Chloe saiu da casa de leilões dez minutos depois, com a mente girando. Precisava de ar. Precisava processar. Em vez de chamar um táxi na avenida principal, ela entrou em uma rua lateral, procurando um lugar calmo para ligar para Leo.
A rua lateral era estreita, sombreada pela massa imponente de prédios de antes da guerra. O barulho da cidade diminuiu para um rugido abafado.
Ela pegou o telefone — o verdadeiro — e discou.
"Leo, você não vai acreditar em quem eu acabei de —"
Uma mão se fechou sobre sua boca.
Não era uma mão humana. Parecia um torno feito de granito.
Chloe foi puxada para trás com uma força que sacudiu seus ossos. O telefone voou de sua mão, caindo no asfalto. Ela foi arrastada para a entrada de um beco de serviço, a escuridão engolindo-a por inteiro.
Ela chutou, arranhou, tentou gritar contra a pressão esmagadora em sua mandíbula, mas seu agressor nem sequer estremeceu. Ele a bateu contra a parede de tijolos, com força suficiente para lhe tirar o fôlego.
Chloe arquejou, deslizando pela parede, tentando encher seus pulmões ardentes. Ela olhou para cima.
Parado sobre ela estava uma muralha de homem. Ele era enorme, vestido com um terno que esticava contra seus músculos. Seu cabelo era um corte militar brutal, e os olhos dele...
Seus olhos eram amarelos. Não castanhos, não âmbar. Amarelos, como os de um lobo.
Ele sorriu, e Chloe viu dentes que eram afiados demais, longos demais.
"Mr. Devereaux é educado demais", o homem rosnou. Sua voz soava como brita sendo moída em um misturador. "Ele gosta de jogar xadrez. Ele gosta de conversar."
Ele deu um passo à frente, bloqueando o fiapo de luz da rua. Chloe recuou desajeitada, seus saltos raspando inutilmente no asfalto úmido. Ela estava encurralada.
"Quem é você?", ela conseguiu dizer com dificuldade.
"Eu sou quem limpa a bagunça", ele desdenhou. "Mr. Devereaux chamou você de bichinho de estimação. Ele disse para você parar de cavar. Mandou um presentinho para mantê-la ocupada."
O sangue de Chloe gelou. O locket. Esse monstro sabia sobre o locket. Ele conhecia Jude.
"Mas eu?" O homem — Marcus — inclinou-se, o rosto a centímetros do dela. Ela sentia o cheiro de carne crua em seu hálito. "Eu prefiro uma mensagem mais direta."
Ele ergueu uma mão. Suas unhas eram escuras, grossas e pontiagudas como garras.
"Grite se quiser", Marcus sussurrou, o amarelo em seus olhos brilhando. "Isso faz o sangue ter um gosto mais doce."
Chloe abriu a boca, mas som nenhum saiu. Ela estava encarando a morte de frente, e a morte sorria para ela.
