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Sofia

Sofia

Alma criativa ✍️

A Teia da Meia-Noite

4.7(285)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
14.9K
#RomanceSombrio#Vampire#EnemiestoLovers#PossessiveHero#SlowBurn
Passei a minha vida transmitindo os segredos mais obscuros de Manhattan para o vazio, sem jamais esperar que o predador mais letal da cidade respondesse.

O Medalhão

O silêncio na cabine de gravação era pesado, um peso físico que pressionava as têmporas de Chloe Sullivan. Era o silêncio específico e hermético das 2h da manhã em uma sala à prova de som, completamente divorciado da umidade e das sirenes da noite de New York lá fora.

Chloe ajustou os fones de ouvido, seus dedos demorando-se no metal frio do filtro pop. Ela respirou fundo, segurando o ar por um segundo, deixando seu ritmo cardíaco estabilizar. Era agora. A estreia da temporada. Seis meses vasculhando microfichas no porão da Biblioteca Pública, seis meses de becos sem saída, ligações desligadas na cara e rumores sussurrados haviam levado a este momento.

Ela se inclinou em direção ao microfone, sua voz caindo naquele tom familiar e íntimo que meio milhão de ouvintes convidavam para dentro de suas cabeças todas as semanas.

"Dizem que New York é uma cidade que nunca dorme", começou Chloe, seus olhos percorrendo o roteiro brilhante na tela do laptop. "Mas eu acho que é uma cidade que nunca se lembra. Caminhamos sobre a história todos os dias. Construímos arranha-céus sobre cemitérios e transformamos cenas de crimes em cafeterias. Nós esquecemos."

Ela fez uma pausa para causar efeito. Através do vidro da cabine de controle, Leo, seu produtor e único amigo, deu-lhe um aceno firme. O rosto dele estava iluminado pelas fileiras de monitores, banhando-o em uma luz azul fantasmagórica.

"Mas alguns segredos se recusam a permanecer enterrados sob o concreto", continuou Chloe. "Vinte e cinco anos atrás, Eleanor Vance era a garota de ouro de Manhattan. Herdeira de uma fortuna de navegação que remontava à Era Dourada, uma patrona das artes, uma socialite que parecia realmente se importar. Ela tinha vinte e três anos, era linda e, ao que tudo indicava, incrivelmente feliz. Na noite de 30 de outubro de 1999, ela entrou em sua cobertura na Fifth Avenue... e simplesmente deixou de existir."

Chloe clicou no mouse, abrindo um arquivo policial digitalizado em sua tela. A foto granulada em preto e branco de uma jovem sorria de volta para ela. Eleanor parecia radiante, com uma gargantilha de diamantes no pescoço, felizmente alheia ao fato de que lhe restavam apenas horas como pessoa.

"Sem sinais de arrombamento. Sem luta. O porteiro não viu nada. As câmeras de segurança — de última geração para a época — falharam por exatos três minutos. Seu jantar ainda estava quente sobre a mesa. Sua bolsa estava no aparador do hall de entrada. Foi como se Deus tivesse simplesmente estendido a mão e a retirado do tabuleiro."

Chloe recostou-se, deixando a história assumir o controle. "A investigação policial foi massiva. Foi o tipo de caso que constrói carreiras ou as destrói. Os detetives reviraram cada pedra da cidade. Interrogaram ex-amantes ciumentos, investigaram rivais de negócios, até mesmo examinaram as seitas que estavam surgindo em torno do milênio. Nada. Eleanor Vance havia evaporado."

Ela tomou um gole de água morna. "O caso esfriou. A cidade seguiu em frente. Novas tragédias substituíram as antigas. Mas Eleanor não foi a última. Ao longo das duas décadas seguintes, mais cinco pessoas desapareceram em circunstâncias quase idênticas. Um vereador em 2004. Um magnata da tecnologia em 2010. Um artista recluso em 2015. Todos ricos. Todos influentes. Todos intocáveis."

A voz de Chloe endureceu. "A polícia os tratou como incidentes isolados. 'Ricos fogem', diziam. 'Eles se cansam da pressão, compram um rosto novo e uma villa em Belize'. Era uma narrativa conveniente. Uma mentira bem amarrada."

Ela se aproximou mais do microfone, sua voz caindo para um sussurro conspiratório.

"Mas eu encontrei o fio. A única teia de aranha, fina como seda, conectando cada um desses desaparecimentos. Uma conexão que estava enterrada em listas de convidados e declarações de impostos de caridade, escondida à vista de todos."

Ela observou os picos das ondas de áudio em sua tela, montanhas verdes e denteadas de acusação.

"The Ethelred Foundation."

Ela deixou o nome pairar no ar.

"Uma instituição de caridade com um dinheiro tão antigo que faz os Rockefellers parecerem ganhadores da loteria. Discreta. Respeitável. Possuindo uma reputação impecável por financiar orfanatos e restauração de arte. Tão impecável, de fato, que ninguém notou um padrão. Cada um dos membros da 'Vanished Elite' compareceu à exclusiva Autumn Gala da Foundation exatamente uma semana antes de desaparecer. Cada. Um. Deles."

Chloe sentiu um calafrio percorrer sua espinha, apesar do calor do equipamento. Dizer aquilo em voz alta parecia perigoso. Parecia que estava invocando algo.

"Esta noite, começamos a puxar esse fio", disse ela, sua voz cheia de uma determinação que não sentia inteiramente. "Esta é a quarta temporada de The Midnight Web: The Vanished Elite. E eu prometo a vocês... eu vou encontrar a verdade. Não importa o que esteja escondido na escuridão."

Ela sinalizou para Leo. Ele apertou o botão, e a trilha de encerramento — uma melodia de violoncelo assustadora e dissonante sobreposta ao ruído ambiente de uma estação de metrô — cresceu e desapareceu.

A luz de "NO AR" se apagou.

Chloe relaxou na cadeira, soltando um suspiro que sentia estar prendendo por vinte minutos. A queda de adrenalina foi instantânea, deixando seus membros pesados.

"Isso foi... de arrepiar, Chlo", disse Leo, sua voz estalando pelo interfone. "Sério. Fiquei com a pele de galinha. As threads do Reddit vão estar pegando fogo amanhã de manhã."

Chloe esboçou um sorriso cansado e tirou os fones de ouvido, pendurando-os no suporte. "Vamos torcer para que estejam pegando fogo com pistas, não apenas com teorias da conspiração sobre pessoas-lagarto."

Ela se levantou, alongando as costas rígidas, e saiu da cabine. A sala de controle cheirava a café amanhecido e ozônio. Leo já estava guardando seu equipamento, seus dedos voando pelo teclado enquanto iniciava o upload.

"Você realmente acha que isso é seguro?", Leo perguntou, sem olhar para cima. Seu tom era casual, mas Chloe o conhecia bem o suficiente para ouvir a tensão subjacente. "Cutucar a Ethelred Foundation? Esses caras têm advogados que custam mais do que este prédio inteiro."

"É registro público, Leo", disse Chloe, pegando sua bolsa no sofá. "Tecnicamente. Eu só conectei os pontos."

"É, pontos que formam a imagem de uma rede de sequestros em série dirigida por bilionários", resmungou Leo. Ele girou a cadeira. "Apenas... tome cuidado, ok? Meus chakras estão todos desequilibrados com essa história."

"Seus chakras estão sempre desequilibrados quando pedimos comida tailandesa", ela brincou, tentando aliviar o clima.

De repente, um ping agudo ecoou do monitor principal de Leo. Não era a notificação padrão de e-mail. Era o alerta estridente e agudo que eles haviam configurado para a linha de denúncias criptografada.

Chloe congelou, com a mão no meio do caminho para o zíper da jaqueta. "Isso é...?"

Os olhos de Leo se arregalaram. Ele clicou no ícone. "Veio através do nó Tor. Completamente anônimo. Fortemente criptografado."

"Abra", ordenou Chloe, aproximando-se por trás da cadeira dele.

Leo digitou a chave de descriptografia, seus dedos movendo-se mais devagar agora. Uma barra de progresso preencheu a tela, agonizantemente lenta. O verde tornou-se vermelho, depois voltou para o verde.

Descriptografia Concluída.

Uma janela de texto simples surgiu. Não havia linha de assunto. Nenhum cumprimento. Apenas duas palavras, brilhando em um branco nítido contra o fundo preto.

PARE DE CAVAR.

Chloe encarou a tela, o sangue sumindo de seu rosto. O registro de data e hora era de dez segundos atrás.

"Eles estavam ouvindo", sussurrou ela. "Eles estavam ouvindo ao vivo."

Leo girou para encará-la, pálido. "Chloe, essa transmissão nem sequer foi totalmente propagada para os servidores ainda. Para alguém ouvir e responder tão rápido..."

"Eles teriam que estar monitorando a transmissão diretamente", ela concluiu.

Um nó frio se formou em seu estômago. Aquilo não era um ouvinte. Era um alvo da investigação.

"Ignore", disse ela, embora sua voz carecesse de convicção. "É apenas um troll. Alguém tentando nos assustar."

"É uma baita coincidência", argumentou Leo.

"É um sinal de que estamos no caminho certo", rebateu ela, fechando o zíper da jaqueta com um zzzt seco. "Vá para casa, Leo. Tranque as portas. Vejo você amanhã."

Ela saiu antes que ele pudesse argumentar mais, saindo do prédio do estúdio e entrando no abraço sufocante da noite de verão em New York.

A umidade a atingiu como uma parede física. O ar estava espesso, cheirando a asfalto molhado e fumaça de escapamento. Havia chovido enquanto gravavam, deixando as ruas escorregadias e reflexivas, os letreiros de neon de mercearias e bares fragmentando-se em poças de luz vermelha e azul.

Chloe começou a caminhada até seu apartamento. Eram apenas seis quarteirões, uma rota que ela já havia percorrido mil vezes. Mas, esta noite, a cidade parecia diferente. As sombras nos becos pareciam mais profundas, mais nítidas. O lamento distante de uma sirene soava menos como ambiente urbano e mais como um aviso.

Pare de cavar.

As palavras se repetiam em sua mente, acompanhando o ritmo de suas botas no pavimento. Quem as enviara? Um advogado da Foundation? Um funcionário nervoso? Ou alguém... pior?

Ela se viu verificando seu reflexo nas vitrines das lojas, olhando não para si mesma, mas para a rua atrás dela. Aquele sedã preto estava seguindo-a? O homem de moletom na esquina oposta estava observando-a?

Paranoia, disse a si mesma com firmeza. Você é uma jornalista, Chloe, não uma espiã em um romance de suspense de bolso. Você expôs um padrão, e alguém ficou nervoso. Esse é o trabalho.

Ela dobrou a esquina de sua rua. Seu brownstone ficava no meio do quarteirão, uma relíquia de tempos mais tranquilos com seus degraus de pedra e corrimão de ferro. Geralmente parecia acolhedor, um santuário contra o caos da cidade.

Esta noite, parecia exposto.

Ela subiu os degraus apressadamente, pescando as chaves na bolsa. Só queria estar lá dentro, com o ferrolho passado e uma taça de vinho na mão.

Seu pé tocou em algo no capacho.

Chloe olhou para baixo. Bem no centro do tapete, perfeitamente alinhada com o batente da porta, estava uma pequena caixa preta.

Ela congelou. Sua chave estava no meio do caminho para a fechadura.

Não era um pacote da Amazon. Não era uma entrega de comida. Era uma caixa de joias, envolta em veludo que parecia velho e gasto, o tecido amassado nos cantos. Não havia etiqueta. Nenhum bilhete.

Seu coração começou a martelar contra as costelas, um ritmo frenético, como o de um pássaro. Pare de cavar.

Ela olhou para cima e para baixo da rua. Estava vazia. Os postes de luz zumbiam acima.

Não toque nisso, seus instintos gritavam. Chame a polícia.

Mas a curiosidade, aquela falha fatal de sua profissão, sobrepujou o medo. Sua mão tremeu ao se abaixar. A caixa era mais pesada do que parecia. O veludo parecia empoeirado contra as pontas de seus dedos.

Ela se levantou, agarrando a caixa, e rapidamente destrancou a porta. Ela praticamente caiu para dentro, batendo a porta atrás de si e acionando as três trancas. Só então respirou.

Ela foi para a cozinha, acendendo a luz forte do teto. Colocou a caixa sobre a bancada de granito. Ela ficou ali, um vácuo escuro e incongruente em sua cozinha moderna.

Com uma respiração profunda, ela abriu a tampa.

A dobradiça rangeu, um som de velhice. Dentro, aninhado em um leito de seda desbotada e amarelada, jazia um medalhão de prata.

Chloe arquejou, levando a mão à boca.

Estava manchado, quase preto pela oxidação, mas o trabalho artesanal era inegável. Era pesado, de formato oval, com um desenho intrincado em relevo na frente. Um Ouroboros. Uma serpente comendo a própria cauda, um símbolo antigo da eternidade e do ciclo de vida e morte.

Ela conhecia aquele medalhão.

Ela correu para pegar o laptop, seus dedos escorregando nas teclas enquanto o despertava. Abriu a pasta marcada como VANCE, ELEANOR. Rolou freneticamente pelas imagens até encontrá-la.

Uma foto de evidência policial digitalizada de 1999. Um close de Eleanor Vance na Gala, rindo, com a cabeça jogada para trás. Em volta de seu pescoço, brilhando em prata viva contra sua pele, estava este medalhão.

"É impossível", sussurrou Chloe para a sala vazia.

O relatório policial afirmava claramente que o medalhão nunca fora encontrado. Foi listado como desaparecido, presumivelmente roubado por quem quer que tivesse levado Eleanor. Estava sumido há trinta anos.

E agora estava sobre a bancada de sua cozinha.

Chloe estendeu a mão e o pegou. O metal estava gelado como gelo, drenando instantaneamente o calor de seus dedos. Parecia errado. Parecia... ocupado.

Ela o virou na mão. A parte de trás era lisa, desgastada pelo tempo e pela pele. Mas, ao incliná-lo sob a luz da cozinha, viu algo que as fotos da polícia não haviam mostrado. Algo tênue, gravado na prata com uma precisão delicada, quase cirúrgica.

Não era a marca de um joalheiro. Não era um selo de quilates.

Era um brasão de família. Um escudo dividido em quadrantes. E no centro, gravada em uma caligrafia que parecia ter séculos de idade, estava uma única inicial.

D.

Chloe deixou o medalhão cair como se ele a tivesse queimado. Ele ecoou ruidosamente sobre o granito.

O e-mail. O aviso. E agora este artefato, retornado do vazio após três décadas. Isso não era apenas uma ameaça. Era um convite. Ou uma provocação.

De repente, um som cortou o silêncio do apartamento.

Click.

Foi suave, mecânico e aterrorizantemente distinto.

Não veio do medalhão. Não veio da rua.

Veio da porta da frente que ela acabara de trancar duas vezes.

Chloe girou, com a respiração presa na garganta. Ela assistiu, paralisada por um medo primal e gélido, enquanto a maçaneta de latão do seu ferrolho começava a girar lenta e suavemente.