TaleSpace

Dois Retornos

(POV DELA – CLAIRE)

O brilho frio de duas telas — o monitor do computador e o smartphone — criava uma atmosfera no meu apartamento escuro que lembrava um centro de controle de missão. Só que, em vez de lançar foguetes, eu estava tentando gerenciar minha própria vida, que de repente decidira sair da órbita.

Inclinei-me para trás em minha velha e rangente cadeira de escritório e esfreguei os olhos com força com a base das mãos. Do lado de fora da janela, a chuva de Portland tamborilhava seu ritmo familiar, borrando as luzes da cidade como manchas de aquarela. Minha caneca de chá de hortelã já havia esfriado há muito tempo, mas eu ainda a segurava como se fosse uma âncora.

Duas mensagens. Dois homens. Dois mundos completamente diferentes invadindo minha noite.

Um — “Elai” — era assustadoramente real. Corpóreo, tangível. Um estranho com cheiro de vento e uísque, com olhos cheios de um cansaço antigo. O texto dele era... simples. “Obrigado por não me expulsar.” Havia algo desarmadoramente honesto naquilo. Ele não estava tentando impressionar. Ele apenas era. O fato de ele ter pegado meu número no panfleto de “Aulas de Piano e Teoria Musical” pendurado na loja demonstrava observação. E ousadia. Meu coração, esse órgão estúpido que eu mantive em um regime de privação de trabalho e solidão por anos, falhou uma batida traiçoeiramente.

O outro — “E.V.” — era um fantasma. Uma entidade digital. Um gênio escondido atrás de camadas de criptografia e protocolos corporativos. Meu Everest profissional pessoal. Suas mensagens eram sempre diretrizes, comandos, clamores da alma traduzidos em texto. “Refaça.” “Errado.” “Mais dor.” E agora, de repente, a barreira havia desmoronado: “Eu preciso saber... quem é você?”

Essa pergunta me assustou até os joelhos trêmulos. Muito mais do que o texto ousado do andarilho.

E.V. me pagava mais por uma única faixa do que eu ganhava na loja em seis meses. Ele pagava pela minha habilidade, pela minha intuição musical, mas, o mais importante — ele pagava pelo meu anonimato. O pseudônimo “OpusNo23” era meu escudo, minha armadura. OpusNo23 era impecável. Ela não tinha medo do palco. Suas mãos não tremiam. Ela não tinha uma cicatriz feia no antebraço. Claire Duval havia falhado no palco, passado vergonha e fugido. OpusNo23 era invisível e brilhante.

E agora E.V., esse titereiro poderoso e invisível, queria arrancar minha máscara. Ele usou a palavra “precisava”. Havia perigo nessa palavra. Precisar é uma emoção, é vulnerabilidade, e eu não tinha assinado contrato para vulnerabilidade. Eu assinei para arranjos.

Eu sabia que tinha que respondê-lo primeiro. Era o trabalho. Era meu dever.

Sentei-me ereta e coloquei as mãos no teclado. O cursor piscava, aguardando minha decisão. Digitei três variações e apaguei todas. Finalmente, escolhi o caminho mais seguro — o profissional.

[OPUSNO23]: Senhor, fico genuinamente feliz que a ponte tenha finalmente funcionado e ressoado com você. Esse é o objetivo principal. No entanto, prefiro enfaticamente manter nossa colaboração estritamente dentro dos limites que estabelecemos inicialmente. Minha identidade, meu nome e meu rosto são irrelevantes para as notas. Apenas a música importa. Aguardarei os arquivos originais para a próxima faixa.

Reli duas vezes. Seco. Educado. Inflexível. A parede estava restaurada.

Apertei “Enviar” e senti um calafrio de alívio percorrer minha espinha, misturado com uma leve pontada de arrependimento. Eu acabara de rejeitar um homem cuja música me fazia chorar. Mas tinha que ser assim.

Expirei e me voltei para o celular.

A tela havia escurecido. Pressionei o botão e a mensagem apareceu novamente. “Ei. É o Elai...”

Olhei para aquelas letras. Elai. Ele não era um gênio protegido por um exército de advogados. Ele era apenas um cara que precisava de cordas. Um cara que, pelo que parecia, vivia em um motel ou em um carro. Meu lado prático e cauteloso — aquele que me fez escolher o emprego na loja em vez de tentar voltar aos palcos — estava gritando: “Apague! Bloqueie! Isso é encrenca!”

Ele era o caos. E eu passara cinco anos construindo ordem ao meu redor.

E, no entanto... ele tinha me visto. Naquela loja, no segundo em que minha manga subiu, ele não desviou os olhos da cicatriz com nojo. E ele ouviu a raiva no meu toque quando todos os outros ouviam apenas música de fundo.

Mordi o lábio até doer. Era apenas um café. Uma hora. Em um lugar público. O que poderia acontecer? No pior dos casos, eu perderia cinco dólares e uma hora de tempo. No melhor... eu apenas me sentiria viva.

Meus dedos tremiam quando comecei a digitar.

“Oi, Elai. Que bom que meu conselho sobre o café não te matou.” (Muito brincalhão?) “Ok. Tchau.” (Muito rude.)

Suspirei, fechei os olhos por um segundo e digitei a verdade, deixando o impulso assumir o controle.

“Café parece... complicado para mim. Não sou muito boa em encontros espontâneos. Mas tudo bem. No ‘Dead Eye’ amanhã às dez da manhã?”

Apertei “Enviar” antes que minha crítica interna pudesse retomar o controle. Meu coração martelava em algum lugar da garganta. Era estúpido. Insano. Eu, Claire “Vida Bege” Duval, acabara de convidar um homem estranho para um encontro.

O telefone vibrou na minha mão quase instantaneamente, me fazendo dar um pulo.

“Complicado é meu sobrenome, Claire. Vejo você às dez. Serei o cara com cara de quem precisa de outro balde de café.”

Encarei a tela, e um sorriso fraco e incerto apareceu em meus lábios contra a minha vontade. Um sorriso que não estava lá há muito, muito tempo.

(POV DELE – ELIAS)

O Dead Eye Cafe fazia jus ao nome. Era um lugar escuro e esfumaçado (apesar das proibições), com mesas de madeira entalhadas com nomes de ex-amantes. O café aqui era exatamente como ela prometera: espesso, preto, amargo como piche, mas estava quente e era real.

Sentei-me em uma cadeira bamba no canto mais distante, com o boné puxado para baixo sobre os olhos, observando a chuva borrar as luzes dos carros que passavam através do vidro embaçado.

Alguma banda indie pretensiosa estava tocando nos alto-falantes. Sofrimento falso, bateria sintética. Lixo.

Na mesa à minha frente estavam dois celulares. Duas chaves para duas celas diferentes da minha prisão.

Celular um: O smartphone de última geração, criptografado pela equipe de segurança da gravadora. Minha coleira de trabalho. Ele estava com o chat do portal com “OpusNo23” aberto. Celular dois: Um descartável de plástico barato, comprado em um quiosque de aeroporto por trinta dólares. O celular do “Elai”.

O celular um apitou suavemente. Vi a resposta dela.

“...prefiro enfaticamente manter nossa colaboração estritamente dentro dos limites... Minha identidade, meu nome e meu rosto são irrelevantes... Apenas a música importa...”

Inclinei-me para trás e soltei uma risada curta e seca.

Droga. Ela era boa. Profissional até a medula. Fria como gelo. Brenda a adoraria — sem emoções, apenas negócios. Uma parte de mim — Elias Vance, o astro do rock mimado acostumado a conseguir tudo com um estalar de dedos — estava furiosa. Eu acabara de ser dispensado de forma educada, mas firme. Eu, um homem por quem as fãs matariam apenas por um olhar. Ela me colocou no meu lugar. “Minha identidade é irrelevante.” Que ironia deliciosa. Eu gastava milhões tentando esconder minha identidade, e ela escondia a dela de graça.

Mas a outra parte de mim — E.V., o garoto que costumava escrever músicas na garagem dos pais — sentiu um respeito imenso e profundo por ela. Ela estava certa. Droga, ela estava absolutamente certa. Era sobre a música. Ela colocou a arte acima do ego. Isso era tão raro no meu mundo que parecia quase um milagre.

“Tudo bem, Opus”, murmurei para minha xícara vazia, bloqueando o celular caro. “Você venceu. Jogamos pelas suas regras. Por enquanto.”

Senti um vazio estranho. Conversar com ela, mesmo essa troca seca de mensagens, era o único momento em todo o dia em que me sentia conectado a algo vivo. A rejeição dela pareceu uma porta batendo na minha cara.

E então, com um zumbido agudo, o celular número dois ganhou vida. O aparelho de plástico barato estremeceu na mesa.

Meu coração saltou, batendo contra as costelas.

“Café parece... complicado para mim... Mas tudo bem. No ‘Dead Eye’ amanhã às dez da manhã?”

Reli a mensagem três vezes. As letras borravam diante dos meus olhos.

Ela me convidara para um café. Neste exato lugar. Ela não sabia que eu já estava aqui, sentado na mesma mesa onde provavelmente nos encontraríamos amanhã. Ela não sabia que eu era o mesmo E.V. a quem ela acabara de negar intimidade.

Eu ri. Alto, genuinamente. Um casal de hipsters com laptops na mesa ao lado me olhou como se eu fosse o idiota da aldeia, mas eu não me importei.

O Todo-Poderoso E.V. acabara de ser rejeitado. Mas o andarilho indigente Elai acabara de conseguir um encontro.

Meus dedos voaram sobre os botões minúsculos do celular barato.

“Complicado é meu sobrenome, Claire. Vejo você às dez...”

Joguei o celular de lado e me encostei na cadeira, sentindo uma descarga de adrenalina que não sentia desde a minha primeira vez no palco, dez anos atrás, quando eu ainda tinha medo do público.

Era loucura. Era imoral. Era pura fraude. Eu estava mentindo para ela duas vezes, em duas frentes diferentes, cercando-a com um anel de decepção.

Um Elias Vance era seu chefe gênio, exigente e anônimo, a quem ela respeitava, mas mantinha à distância. O outro era Elai, o andarilho quebrado e intrigante com quem ela concordara em tomar um café por pena ou curiosidade.

Eu não sabia por quanto tempo conseguiria fazer malabarismos com essas máscaras. Eu não sabia o que aconteceria quando (não se, mas quando) tudo viesse abaixo.

Eu só sabia de uma coisa: pela primeira vez em longos e cinzentos anos, eu não estava entediado. Eu estava apavorado, sentia uma pontada de culpa, mas, meu Deus, eu me sentia vivo. E mal podia esperar pelas dez da manhã.

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