(POV DELA – CLAIRE)
Passei a maior parte da noite acordada. Fiquei deitada no escuro, ouvindo o som da chuva e dividida entre dois pensamentos: "Esta é a ideia mais estúpida e perigosa da sua vida" e "Finalmente, droga, você está fazendo algo que a faz se sentir viva."
Às 9h50, eu já estava do outro lado da rua do café "Dead Eye", escondida sob um grande guarda-chuva preto. A chuva havia se transformado em uma garoa fina e persistente que encharcava as roupas. Eu usava meu melhor jeans e um suéter macio de cashmere cor de aveia — minha armadura pessoal para saídas "sérias", fosse uma visita ao dentista ou, como se viu, um encontro com um homem misterioso que possivelmente nem tinha casa.
Três vezes me aproximei da faixa de pedestres, e três vezes estive pronta para dar meia-volta e correr para casa, para minhas partituras e minha segurança. Era irracional. Eu não sabia nada sobre ele. Ele poderia ser um maníaco. Poderia ser um vigarista.
Mas ele era alguém que tinha visto minha cicatriz e não desviara o olhar. Alguém que ouvira a raiva no meu toque, não apenas a melodia.
Respirei fundo, inalando o cheiro de asfalto molhado e ozônio, e atravessei a rua. Seja o que Deus quiser.
O sino acima da porta do café tocou, admitindo-me no ventre quente e barulhento do ambiente. O lugar cheirava a grãos de café queimados, lã úmida e canela. Estava lotado: estudantes com laptops ocupando as tomadas, moradores locais com jornais, hipsters discutindo startups.
Eu o vi imediatamente.
Ele estava sentado exatamente no mesmo canto afastado onde eu o imaginei mentalmente ontem. Ele parecia se fundir às sombras.
Hoje ele parecia... diferente. Menos ameaçador, mas talvez mais perdido. Usava a mesma jaqueta jeans macia, mas, por baixo, uma camiseta preta limpa abraçava seu peito. Ele havia tirado o boné, e vi seu cabelo — escuro, levemente bagunçado, como se tivesse acabado de acordar. Ele não estava olhando para o celular. Estava simplesmente encarando a rua cinzenta pela janela, e em seu rosto havia uma expressão de um cansaço tão profundo e universal que senti uma fisgada física no peito.
Ele sentiu meu olhar e ergueu a cabeça.
A exaustão em seu rosto desapareceu instantaneamente, como se alguém tivesse acionado um interruptor, substituída por algo... caloroso. Atento. Ele se levantou quando me aproximei. Foi antiquado e educado.
"Claire. Você veio", disse ele. Sua voz era tão rouca e grave quanto eu lembrava, vibrando em algum lugar no meu diafragma.
"Eu disse que viria", respondi, deslizando para o assento oposto e escondendo minhas mãos trêmulas debaixo da mesa. "Embora 'complicado' não seja exatamente a palavra que eu escolheria hoje. 'Impulsivo' se encaixa melhor. Ou 'imprudente'."
Ele soltou uma risadinha. Foi um sorriso real e leve que enrugou os cantos de seus olhos, transformando completamente seu rosto severo.
"Impulsivo é bom. Eu também sou assim. Café?"
Ele se levantou para fazer o pedido antes que eu pudesse pegar minha carteira. Eu o observei no balcão. Ele era alto e, mesmo com aquelas roupas simples, se destacava. Movia-se com uma espécie de graça felina oculta, apesar da fadiga visível. Havia uma confiança estranha nele, um cerne que não combinava com a imagem de um andarilho. Ele definitivamente estava fora de seu elemento naquele café hipster; parecia... grande demais para este lugar.
Ele voltou alguns minutos depois com duas grandes canecas de cerâmica.
"Preto como uma noite sem luar para mim. E eu arrisquei e peguei para você um latte de leite de aveia com canela em dobro. Você me pareceu uma garota que precisa de um pouco de conforto e calor hoje."
Pisquei, encarando a espuma na xícara. Era assustadoramente preciso. Exatamente o que eu teria pedido.
"Obrigada. É... exatamente o que eu precisava."
Os primeiros dez minutos foram excruciantes. Dançamos a dança verbal de dois estranhos tentando encontrar terreno firme. Falamos sobre a chuva (é claro). Sobre Portland. Sobre como a cidade havia mudado nos últimos anos.
"Então... você disse que está de passagem pela cidade", comecei, tentando desesperadamente afastar a conversa do clima. Girei a xícara em minhas mãos. "Você está aqui a trabalho? Ou..."
"Ou apenas vagando?" ele completou para mim, e não havia ofensa em sua voz, apenas uma leve ironia. "Algo assim, Claire. Estou... digamos, em um período sabático. Indefinido. Esgotado. Decidi apenas entrar no carro e dirigir até que... bem, até que algo mude por dentro ou até que a gasolina acabe."
"Esgotado?" Agarrei-me à palavra. Era familiar para mim. "Você é músico, você disse na loja."
"Eu tento ser", disse ele de forma evasiva, olhando para o abismo negro de sua caneca.
"Eu não acredito em 'tentar'", eu disse com mais firmeza do que pretendia. Meu orgulho profissional foi cutucado. "Ou você é, ou não é. Ontem na loja... você sabia do que estava falando. Fósforo bronze. Calibre médio. Você sabia como o instrumento soa. Essas não são palavras de um novato ou de um amador."
Seus olhos encontraram os meus. Azuis, penetrantes, inteligentes. Não havia fingimento neles.
"Você tem razão. Eu... toco. Muito. A vida toda, desde que me entendo por gente."
"E... é só isso que você vai me dizer?" perguntei suavemente, inclinando-me um pouco mais para perto.
Ele ficou em silêncio, considerando a resposta. "O que você quer saber, Claire? Minha biografia? É entediante."
"Eu quero saber por que você olha para um piano como se ele te devesse dinheiro. E por que notou a raiva no meu toque quando a maioria das pessoas apenas ouve... notas. Por que você ouviu aquilo?"
Ele se recostou na cadeira, cruzando os braços sobre o peito. A tensão entre nós mudou. Deixou de ser estranha e tornou-se quase elétrica.
"Porque", disse ele lentamente, pesando cada palavra, "a raiva é apenas paixão que não tem para onde ir. É energia presa em uma gaiola. É como... segurar um acorde complexo até seus dedos começarem a sangrar, até que ele deixe de ser uma harmonia e se torne apenas ruído, um zumbido nos ouvidos. Isso é o esgotamento, Claire. Quando você toca tanto, tão alto e por tanto tempo para os outros que esquece em qual nota começou. Você esquece por que pegou o instrumento em primeiro lugar."
Parei de respirar. O mundo ao nosso redor congelou.
Ele não estava apenas falando de música. Ele estava falando de mim. Ele descreveu meu fracasso na competição, meu medo de palco, minha dor, minha cicatriz... ele descreveu minha vida melhor do que eu mesma seria capaz de fazer.
"Eu..." comecei, mas as palavras ficaram presas na garganta, transformando-se em um nó.
"Você estava tocando Chopin ontem", continuou ele, e sua voz suavizou, tornando-se quase íntima. "Prelude No. 4. Não é apenas uma melodia triste. É uma marcha fúnebre para si mesma. Você estava de luto por algo quando tocou. Algo que perdeu."
Encarei-o com os olhos arregalados. Meu coração batia tão forte que achei que ele seria capaz de vê-lo pulsando através do meu suéter.
"Como você... como soube disso?"
"Eu te disse. Eu escuto", respondeu ele simplesmente. "É minha maldição e meu dom."
E naquele momento, eu soube. Aquele homem, aquele "Elai", não era apenas um andarilho com um violão. Ele era... alguém. Alguém significativo. Ele entendia a linguagem da música no mesmo nível profundo e intuitivo que eu. No mesmo nível que meu cliente anônimo "E.V.".
A barreira desmoronou. Começamos a conversar. Conversar de verdade. Pulamos os tópicos educados e fomos direto ao cerne. Falamos sobre Bach e sua precisão matemática. Discutimos até ficarmos roucos sobre se Liszt era um gênio inovador ou apenas um showman talentoso. Falamos sobre a sensação física de quando uma harmonia perfeita ressoa bem na cavidade do peito, fazendo seus ossos vibrarem.
Eu não conversava assim com ninguém... nunca. Nem mesmo no conservatório. Lá, tudo girava em torno da técnica, da carreira. Aqui, era sobre a alma.
Não sei quanto tempo passou. Uma hora? Duas? O café esfriou. Eu estava rindo. Eu, Claire Duval, estava rindo, com a cabeça jogada para trás, em um encontro com um estranho misterioso de jaqueta gasta. O mundo fora da nossa mesa se dissolveu, tornando-se um fundo desfocado.
Era perfeito. Era bom demais para ser verdade.
E, claro, o universo decidiu me lembrar disso.
"Com licença... desculpe interromper..."
Nós dois nos sobressaltamos e olhamos para cima. A realidade voltou com tudo.
Parada à nossa mesa estava uma garota jovem em um avental verde de barista, com cerca de vinte anos. Ela torcia nervosamente um pano de prato nas mãos. Não estava olhando para mim. Estava olhando para Elai.
"Sim?" perguntei, ainda sorrindo, tentando segurar os restos da magia do momento.
A barista não me respondeu. Seus olhos estavam arregalados, brilhando com uma mistura de incredulidade e deleite reverente.
"Eu... eu sei que isso vai soar totalmente louco, e provavelmente estou errada, desculpe se eu estiver errada, mas..." Ela respirou trêmula, reunindo coragem. "Alguém já lhe disse que você é a cópia escarrada de Elias Vance?"
Pisquei, sem entender. O nome soava familiar, mas fora de contexto, não significava nada para mim. "Quem?"
Virei-me para Elai, esperando que ele risse ou fizesse uma brincadeira educada.
Mas Elai havia congelado.
Não foi apenas silêncio. Foi uma cessação completa de tudo. O sorriso desapareceu de seu rosto instantaneamente, como se apagado por uma borracha. Seus ombros ficaram tensos, transformando-se em pedra. Todo o calor, a abertura e o brilho vivo que estavam em seus olhos um segundo atrás sumiram sem deixar rastro. Em seu lugar, surgiu o frio. Um frio ártico, gélido e morto.
Ele não estava olhando para a garota. Estava olhando para mim. E em seus olhos, em suas profundezas, vi puro terror primitivo. O pânico de um animal encurralado sobre o qual uma armadilha acaba de se fechar.
Desviei o olhar de seu rosto pálido e petrificado para a barista animada e radiante, e algo dentro de mim quebrou, despencando no meu estômago.
"Elias... Vance?" repeti lentamente. O nome parecia estranho, alienígena em minha língua.
A barista assentiu vigorosamente, com os olhos ainda colados nele como se fosse uma divindade.
"Sim... bem... você sabe! Guitarrista e vocalista da banda 'Static'. O músico mais incrível da década!" Ela baixou a voz para um sussurro excitado, dirigindo-se a ele: "Meu Deus, é você mesmo, não é? Você é ele, certo?"
Elai não se moveu. Ele nem sequer respirava. Sua mão, apoiada sobre a mesa, fechou-se em um punho tão apertado que os nós dos dedos ficaram brancos.
E eu fiquei ali sentada, segurando minha xícara de latte frio, e o nome "Elias Vance" ecoava em minha cabeça, evocando imagens vagas de capas de revistas que eu nunca olhava.
Um nome que não combinava em nada com o andarilho cansado à minha frente. Mas que explicava perfeitamente, de forma aterrorizante, o medo paralisante que agora estava congelado em seus olhos.
