O palco às dez para as dez estava iluminado em dois planos — luzes de trabalho frias e brancas vindas do varal, e uma única luz quente que havia ficado acesa a noite toda desde o último load-in e que ninguém havia se dado ao trabalho de apagar. Lane ficou no centro e deixou a luz quente encontrá-la. Os sapatos ela havia deixado na coxia.
A terceira fila tinha um casaco pendurado no encosto de uma cadeira. Tweed, escuro, forrado; não estava lá uma hora atrás, quando ela havia atravessado a plateia vazia a caminho da entrada dos fundos. Adam estava em algum lugar no teatro.
Ela soltou o ar que vinha prendendo sem perceber. A acústica devolveu esse ar da parede do fundo com meio tempo de atraso, da mesma forma que havia devolvido sua primeira fala na véspera. Uma sala de trabalho.
Vivien Soul entrou pela plateia, não pelas coxias. Já usava sua roupa de ensaio — calça leve, blusa transpassada, um cardigan por cima de tudo — e caminhou pelo corredor central como alguém que já havia feito aquele percurso quinhentas vezes. Em vez de subir ao palco, ela colocou a bolsa na beira do tablado, colocou uma segunda garrafa d'água ao lado da primeira, e olhou para Lane na luz quente.
«Marsh.»
«Soul.»
«Você leu por mim na semana passada.»
«Na audição.»
«Hm.» Ela puxou as mangas do cardigan para baixo, cobrindo os pulsos. «Ele vai começar pela cena do corredor. Não sente entre as deixas. Ele detesta quando as pessoas sentam entre as deixas.»
«Obrigada.»
Era a gentileza que Vivien estenderia a qualquer pessoa em seu lugar, e Lane a recebeu sem fazer peso disso.
Atrás de Vivien, no fundo da plateia, um homem entrou carregando um copo de papel. Não cumprimentou ninguém. Ocupou o penúltimo assento da última fila, tirou um roteiro do bolso interno de um casaco grosso de lã, abriu em uma página e esperou. Cabelo prateado, ombros largos, uma quietude que se lia como a economia de quem trabalha no palco há anos. Vivien olhou para trás, registrou-o sem nenhuma alteração no rosto, e voltou a encarar Lane.
«Esse é o Tom. Não tente fazê-lo rir de manhã. Ele só vira gente depois de um café.»
«Anotado.»
Adam entrou por uma porta lateral na frente, sem o paletó, mangas dobradas até o cotovelo uma vez e não duas. Subiu os quatro degraus até o proscênio, disse bom dia a Vivien com uma única mão no ombro dela e a retirou imediatamente, olhou para Lane e disse: «Vamos fazer a cena do corredor. Marsh, você entra. Thomas — quando ela estiver posicionada, me faça o favor de ler Marcus de onde você está.»
«Com prazer.»
«A partir do limiar. Vivien, você cruza na deixa dela. Marsh — você já está na sala há uma hora. A gente pega dali.»
Ele desceu do palco, caminhou pelo corredor central e se acomodou na terceira fila ao lado do casaco. Cruzou os braços sem pegar um roteiro.
Lane tomou sua posição. À direita do palco de uma porta imaginária. As tábuas sob seus pés em meia estavam quentes onde a luz de trabalho incidia e frias onde não incidia, e ela deixou seu peso pousar no chão como havia pousado peso em palcos desde os dezenove anos. Colocou as mãos ao lado do corpo. O rosto ela deixou neutro.
Vivien cruzou do fundo esquerdo, acertou sua marca dentro da porta imaginária e disse sua fala.
Lane respondeu. Três falas foram trocadas entre elas. Vivien acrescentou uma pequena virada na terceira fala que não havia feito na fita da audição, e Lane registrou a mudança e respondeu para onde Vivien estava agora, não para onde Vivien havia estado.
«Parem.»
A voz de Adam subiu limpa. Ele não se levantou.
«Marsh. Quando Soul vira na deixa, o que você faz?»
«Eu a sigo com os olhos.»
«Por quê.»
Ela fez uma pausa. «Porque ela se moveu.»
«Isso é uma descrição. Por quê.»
A acústica, desta vez, não devolveu nada porque nada havia sido dito. Algo dentro de suas costelas fez uma coisa pequena e inesperada.
«Porque estou tentando ler para onde ela vai.»
«Por que você está tentando ler para onde ela vai.»
«Porque —» Ela deixou a resposta emergir. «Porque ainda não decidi se confio nela.»
«Bom. De novo. Os olhos seguem porque os olhos estão procurando evidências. Não porque ela se moveu.»
Ele soava como um homem no trabalho. Recomeçaram.

A cena durou seis minutos. Ele os interrompeu quatro vezes. Cada pausa era uma pergunta, e cada pergunta era sobre Lane, não sobre a fala, e cada pergunta exigia uma resposta que ela não tinha pronta e precisava encontrar no fundo do próprio corpo antes de conseguir dizê-la. Na quarta pausa ela tinha desistido de ser inteligente. Disse a coisa mais simples que conseguia dizer. Duas vezes ele disse bem. Uma vez disse: «É um chute. Tente de novo.» Uma vez não disse nada e esperou que ela passasse pela primeira frase e chegasse à segunda.
Vivien atuava ao lado dela como uma peça usinada. Houve um momento em que Lane cruzou o olhar com Vivien e Vivien piscou uma vez, devagar, como uma veterana pisca para uma novata para dizer: sim, é isso que ele faz.
Às onze e quarenta Adam chamou intervalo. Vivien saiu direto pelos bastidores. Thomas ficou no lugar e leu seu texto. Lane desceu do palco de meias e parou nas asas onde estavam seus sapatos, calçou-os devagar porque as mãos precisavam de algo para fazer.
Uma voz atravessou a plateia vinda da última fila, baixa e bem colocada e sem pressa.
«Marsh.»
Ela se virou.
Thomas não tinha se levantado. Ele a olhava por cima do roteiro. O olhar durou um tempo além do fim do chamado — um tempo e meio, talvez. Depois, em tom casual: «Ele vai continuar fazendo isso. As perguntas. Não deixe que ele te tire do eixo.»
«Obrigada.»
«Você respondeu bem.» Uma pequena pausa, cuidadosa. «A mão.»
«A mão?»
«Você a tinha aberta ao lado do corpo na terceira fala. A maioria das pessoas fecha o punho.»
«Ah.»
«Onde você aprendeu isso.»
Ela não tinha aprendido em lugar nenhum. Tinha crescido ao lado de uma pessoa que tinha isso. Manteve o rosto neutro e fez a voz pertencer a uma estranha.
«Não faço a menor ideia.»
Ele emitiu um som pequeno que não era uma risada e não era mais nada, e voltou ao texto.
Ela subiu o corredor da plateia.
Adam estava de pé na terceira fila, não por causa dela, mas porque tinha algo a fazer nos próximos dez minutos e já estava se movendo nessa direção. Esperou até ela estar à altura da sua fileira.
«Uma coisa.» A voz estava baixa o suficiente para exigir atenção, embora nada naquele prédio exigisse isso, porque a acústica carregava tudo de qualquer jeito. «Quando ela vira na fala — não acompanhe com o rosto. Só os olhos. O rosto fica voltado para a porta. Certo?»
«Certo.»
«Bom.» A mão encontrou o casaco. «Pode ir.»
Essa foi a troca inteira. O tipo de observação que um diretor faz para qualquer ator capaz de aproveitá-la. Ela passou pelas portas no fundo da plateia e saiu para o corredor que cheirava a tinta, como na véspera, e estava do lado errado do relaxamento antes mesmo de identificar que havia um lado a estar.
A tarde teve mais duas sessões. Às seis, a luz quente tinha sido cortada, as luzes de trabalho estavam pela metade, dois contrarregras reposicionavam cadeiras na segunda fila, e Vivien tinha ido embora com um aceno que queria dizer que faria isso todos os dias. Thomas tinha saído às quatro.
Lane estava nas asas colocando o suéter de volta quando Adam subiu o corredor da plateia.
«Marsh. Dois minutos.»
Ela se virou. Ele estava de pé no proscênio com uma manila folder na mão. A pasta era do tipo que todo ator da trupe recebia em algum momento — padrão Carroll Stage, um pequeno carimbo azul no canto, sem nome na aba.
«Material para o papel», ele disse. «Tenha para quinta. Tem um USB dentro. Arquivos identificados por data. Não precisa assistir a tudo. A audição é a relevante.»
«A minha?»
«Não.» O rosto não mudou. «De alguém que usamos num papel parecido uma vez. Para ver como essa pessoa chegou até ele. Prática padrão. Faço isso com gente nova.»
«Tudo bem.»
Ele estendeu a pasta por cima do proscênio. Ela desceu os degraus e pegou. As mãos não se tocaram. A pasta pesava o que pastas pesam; o pequeno dispositivo dentro dela se deslocou com um som leve.

— Quinta-feira — disse ele.
— Quinta-feira.
Ele virou e subiu o corredor da plateia sem olhar para ela uma segunda vez. Os contrarregras continuavam reposicionando as cadeiras. Ela ficou parada ao pé do palco com a pasta na mão e o cheiro de tinta do corredor impregnado na roupa.
O camarim das understudies ficava no fundo de um corredor dos fundos — quatro espelhos, quatro luminárias, quatro cadeiras, as quatro cadeiras naquele momento vazias. Ela ocupou o lugar mais próximo da porta. O radiador embaixo da bancada estava alto demais; o ar tinha o gosto seco e levemente metálico de um calor excessivo, e ela o sentia no fundo da garganta. Colocou a pasta sob a luminária. Tirou o laptop da bolsa.
O dispositivo tinha uma etiqueta de papel colada. A etiqueta trazia uma data em caligrafia que não era de Adam — funcional, sem afetação, o tipo de letra que um stage manager usava. A data era de sete anos e meio atrás.
Ela inseriu.
Uma pasta se abriu. Três arquivos. Dois tinham o nome de atores que ela não reconhecia. O terceiro estava rotulado com três letras e uma data.
As três letras eram iniciais.
Ela conhecia as iniciais. Colocou o fone de ouvido e clicou.
Um quadrado preto cedeu lugar a um plano aberto de um palco vazio visto de aproximadamente a terceira fileira. Os mesmos tablados. Da coxia saiu uma jovem de jeans e suéter preto, com os sapatos errados para o palco e o rosto certo, e ela caminhou até o centro e pousou a mão no encosto de uma cadeira reta que havia sido deixada ali para ela e a girou quarenta e cinco graus e sentou. Ergueu o rosto em direção à frente.
Clara aos vinte e oito anos. Ainda não quem ela seria — sem o polimento, sem ser ainda um nome pronunciado em voz baixa em salas desta cidade. O cabelo era mais comprido. O rosto estava desguarnecido de um modo que não havia em nenhuma fotografia de sua irmã que Lane vira desde então.
Ela deu o slate. A voz de Clara aos vinte e oito anos era uma oitava mais grave do que a voz de Clara ao telefone na noite anterior, e não havia verniz nenhum sobre ela.
Ela começou o monólogo.
Uma página adiante, no meio de uma frase, a linha se partiu num silêncio sustentado. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. A palavra seguinte veio limpa.
A lâmpada no espelho sobre o ombro esquerdo de Lane começou um zumbido elétrico baixo que indicava que o filamento estava cedendo. O zumbido encontrou a sala. Não a encontrou.
A tela continuou rodando. Clara na cadeira no palco continuava movendo os lábios, e as palavras saíam num tom diferente do tom do telefone na noite anterior, porque esta era a voz antes que a sala lhe ensinasse a se defender.
Lane não apertou pause.
O azul do laptop estava no seu rosto. O amarelo da luminária de mesa estava nas suas mãos. Do lado de fora da porta do camarim o corredor tinha silenciado, porque os contrarregras tinham terminado e ido embora, e o prédio havia se entregado à sua equipe noturna, e o único som na sala pequena era o da lâmpada começando a falhar e a voz limpa e pequena de uma mulher aos vinte e oito anos entregando à sua irmã uma prova que ela não sabia que estava carregando.
