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Capítulo 2

A Blue Line em direção a O'Hare ia quase vazia depois das onze, e Lane sentou-se no terceiro vagão porque o terceiro vagão costumava ser o mais vazio, e porque tinha um hábito que não chamaria de superstição. Duas paradas depois do rio, as luzes dentro do vagão piscaram, se reencontraram e se mantiveram acesas.

Ela não tinha voltado ao apartamento.

Do lado de fora da janela, Pilsen tinha dado lugar a um horizonte mais escuro — armazéns, a curva de uma rampa de expressa, a parte inferior laranja das luzes da ponte. O banco de vinil estava frio através do casaco. Ela tinha carregado o casaco debaixo do braço quando saiu do teatro, e não o tinha vestido até já estar na plataforma; tinha caminhado os quatro quarteirões de Carroll Stage com a roupa errada para a temperatura, e seu corpo tinha lhe contado sobre isso do jeito que corpos contam sobre pequenos erros que você comete quando a cabeça está em outro lugar.

No bolso direito, o anel repousava em silêncio. Sua mão o encontrou sem retirá-lo, o pequeno peso registrando contra o lado de um dedo, e ela o deixou ali.

Três mensagens de voz no celular. Nenhuma aberta.

Ela foi até o fim da linha porque o fim da linha era uma coisa com horário publicado. O trem ficaria na plataforma com as portas abertas por nove minutos antes de dar a volta, e nove minutos era um número que ela podia absorver.

No terminal, as portas se abriram para um vento vindo das pistas. Um zelador empurrava um balde com rodas ao longo da extremidade mais distante da plataforma. Dois homens de ternos amassados desceram e desapareceram pela escada rolante sem olhar para nada. Lane permaneceu no assento e virou a tela do celular para cima sobre a coxa.

A primeira mensagem de voz tinha chegado à meia-noite e trinta e dois. Ela pressionou o ícone.

— Me diz que você não mudou de ideia.

Só isso. Havia mais dois segundos de respiração e depois o clique da desconexão, e dentro da respiração estava a coisa que Lane não tinha querido ouvir antes de entrar no trem. A voz de Clara carregava um registro que Lane tinha ouvido talvez quatro vezes na vida. Consoantes pronunciadas com cuidado demais. Espaços entre frases generosos demais. O som de uma pessoa representando sobriedade para um telefone que ela não tinha percebido que a gravava.

Lane fechou a mensagem. As outras duas permaneceram sem abrir. Ela ligou.

Três toques. Quatro. A linha atendeu no quinto, e o „Oi" de Clara chegou um tempo depois de onde um olá chegaria de uma pessoa sóbria.

— Entrei — disse Lane.

Um pequeno suspiro do outro lado. O tipo que viajava antes que a pessoa decidisse se a notícia era boa. Então: — Ele te escalou.

— Understudy. Supporting third lead.

— Understudy.

— É o caminho de entrada.

A pausa que se seguiu foi a pausa de Clara, não a de seis tempos, o tipo indeterminado que corria enquanto uma pessoa lá em cima decidia onde pousar. Dentro da pequena acústica do telefone, Lane ouviu o distante som cerâmico de um copo sendo colocado sobre uma bancada.

— Bom — disse Clara. — Esse é o caminho de entrada. É aí que você começa.

Havia uma pergunta que Clara não tinha feito, que era como tinha sido o teste. Havia uma pergunta que Lane não tinha oferecido, que era a pelo qual tinha pegado o trem, que era o nome de um homem na terceira fila que tinha se levantado. O formato da conversa se construiu em torno da ausência do jeito que a água se constrói em torno de uma pedra.

— Você está bem? — perguntou Lane.

— Estou bem.

— É quase uma hora.

— Estou bem, Lane. Tomei um copo. Estou bem.

— Dorme um pouco.

— Você também.

Lane desligou primeiro. Isso não tinha sido o plano. Colocou o celular com a tela para baixo no banco ao seu lado e observou, através da porta aberta do vagão, o zelador varrer um papel de bala ao longo da plataforma com o lado do pé. O papel foi para um lado e depois para o outro e finalmente parou perto do trilho.

Tinha dito à irmã que tinha sido escalada. Não tinha dito à irmã que o homem que a escalou tinha pronunciado seu nome na sala de três fileiras atrás. A omissão não tinha custado nada. Tinha passado entre seus dentes sem deixar marca.

Ela ficou com aquilo pelos nove minutos em que o trem ficou parado na plataforma.

Às sete e quarenta da manhã ela estava no segundo andar do Carroll Stage ainda com o casaco e o celular silenciado dentro da bolsa.

O escritório de Noreen King ficava duas portas depois do de Adam. Noreen já estava à mesa quando Lane entrou — óculos numa corrente em volta do pescoço, uma cafeteira que, pelo peso do ar ao redor, parecia ter sido preparada às seis. Uma impressora zumbia atrás dela. No chão, perto do radiador, havia uma caixa de papelão baixa marcada PROGRAMS — FALL.

— Marsh — disse Noreen. — Sente.

Ela sentou.

O contrato tinha três páginas, grampeadas no canto, com uma adenda de uma página. Noreen a guiou pelos termos com a eficiência de uma mulher que já tinha feito isso algumas centenas de vezes — o dedo descendo pela margem, a canela virada e oferecida, uma pequena pigarreada no trecho onde estava a cláusula do cronograma de ensaios.

— Você está ciente de que ensaiamos seis dias por semana a partir de segunda.

— Estou ciente.

— A semana de tech é na semana do dia dezoito. Sem exceções. Incluindo funerais. Eu falo para todo mundo.

— Entendido.

— Conta bancária.

Lane recitou os números do banco e da conta de memória; tinha aberto a conta no nome Lane Marsh seis semanas antes, numa agência na Western Avenue, e mantinha os dígitos na superfície da mente desde então.

— Contato de emergência.

A caneta, recém erguida, pairou.

— Eu trago amanhã — disse Lane. — Preciso confirmar um número.

Noreen fez uma pequena risca no campo e seguiu em frente. — Traga. Headshot nós já temos. O W-9 você preenche aqui.

A linha da assinatura estava no final da terceira página. Noreen colocou a página na frente dela e girou para ficar na posição certa.

A mão estava fazendo essa assinatura havia seis semanas. Tinha feito em formulários bancários, num subaluguel, numa entrega de uma cadeira que Lane não precisava. A mão conhecia as voltas. O pulso conhecia o lugar onde o L se curvava de volta sobre si mesmo.

Ela assinou.

Parecia uma assinatura. Noreen pegou a página de volta sem uma palavra, juntou-a com as outras, aplicou um carimbo de um almofada no canto da mesa e deslizou uma cópia pela madeira.

— Bem-vinda à trupe.

A frase pousou dois tempos mais devagar que uma frase idêntica na noite anterior, no mesmo prédio, numa boca diferente. Lane pegou a cópia e a dobrou uma vez.

— O Sr. Carroll está esperando você no palco às dez — disse Noreen. — Ele está no prédio.

No corredor a manhã tinha começado a se organizar. Dois da equipe técnica carregavam um flat entre eles, de lado, gritando instruções de um lado pro outro na linguagem abreviada de uma equipe que trabalhava junto há muito tempo. Um aspirador de pó funcionava em algum lugar no andar de baixo.

Adam saiu do escritório carregando uma caneca, um rolo de páginas e um lápis enfiado atrás da orelha. Ele andou pela linha central do corredor, não pela lateral. Ele a viu.

Os olhos dele cruzaram o rosto dela como uma coluna numa tabela — anotando o valor, registrando-o, seguindo para o próximo. O lápis atrás da orelha ficou onde estava. A caneca permaneceu nivelada. Ele inclinou a cabeça uma fração, a inclinação fracionária que era, naquele prédio, a saudação diária entre um diretor e um membro da sua trupe.

Depois ele passou por ela.

Atrás dela, duas portas abaixo, a porta dele se fechou com a firmeza deliberada de um homem que fechava portas por hábito, não por opinião.

O corredor cheirava a tinta e café. O casaco ainda estava nos ombros dela. O contrato estava dobrado uma vez na mão esquerda. Ela tinha sido recebida duas vezes em doze horas pelo mesmo prédio, e o prédio não parecia ter notado nenhuma das recepções.

Ela ficou ali um momento, e então andou.

O apartamento ficava no terceiro andar de um prédio na Eighteenth, três paradas do teatro, sublocado por meio de um amigo de um amigo que se mudara para Madison por um ano. Vinha com uma cadeira, uma cama, um abajur, uma chaleira e a coleção de condimentos ainda lacrados do inquilino anterior na porta da geladeira. Ela trouxera uma única mala de seu próprio apartamento em Logan Square e não a terminara de desarrumar depois de oito dias, porque terminar de desarrumar teria significado uma posição sobre quanto tempo pretendia ficar.

Ela ficou parada na porta com o contrato ainda dobrado na mão.

Então foi e desarrumou a mala.

Fez isso na ordem errada, o que significa dizer que fez na ordem em que as coisas saíam, não na ordem em que eventualmente iriam. Suéteres sobre a cadeira. Duas calças jeans sobre os suéteres. Necessaire sobre a pia do banheiro. Um livro de bolso no chão ao lado da cama porque não havia outro lugar para onde livros de bolso pudessem ir. A mala vazia ela deixou de lado, encostada na parede, olhou brevemente, e deixou onde estava.

No fundo da mala, sob um moletom que trouxera para dormir e não usara, havia uma pasta manila.

Ela tirou e colocou sobre o balcão da cozinha, sob o abajur.

Dentro, três coisas. Uma cópia de um W-2 de seu último emprego legítimo, com dois anos, em seu nome verdadeiro. O contrato de aluguel do apartamento em Logan Square, em seu nome verdadeiro. E o currículo no qual escrevera, seis semanas antes, numa mesa de cozinha em outra parte da cidade, o nome LANE MARSH no topo.

Ela ergueu o currículo.

A assinatura na parte de baixo era dela. Tinta preta. As voltas do L iguais às voltas no contrato que dobrara na sala de Nora uma hora antes. O pequeno floreio no s do final — o floreio que fazia desde os doze anos, quando Clara lhe ensinara a assinar o nome na mesa da cozinha porque dissera que alguém um dia ia colocar um papel na sua frente e ela não deveria olhar para ele como uma criança.

Não era uma falsificação. Não havia falsificador. A mão era dela. Apenas o nome estava errado.

Na assinatura de um falsificador dá para ver o lugar onde o corpo deixou de confiar em si mesmo. Não havia esse lugar na página. A mão concordara em fazer aquilo. A mão mentira sem lhe avisar.

Ela abriu a segunda gaveta da pequena cômoda no canto, a gaveta que continha um recibo de supermercado dobrado e nada mais. Colocou o currículo na gaveta, com a assinatura virada para cima, e fechou.

Ficou parada com a mão na maçaneta da gaveta.

Lá fora, na Eighteenth, alguém ligou o carro. A chaleira na cozinha fazia o pequeno som de relógio que fazia ao esfriar, embora ela não a tivesse fervido. O telefone sobre a cadeira, sob as calças jeans, não tocou.

Dois recados de voz ainda não ouvidos nele.

It's just getting good…

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Sob o Nome da Minha Irmã — Capítulo 2: Capítulo 2 | Leia Online