— Não me casarei com ele — disse Annabelle Thorne para seu reflexo no espelho dourado da penteadeira. — Antes me casaria com o próprio diabo.
— Talvez o Duque Alaric se revele exatamente isso — disse sua mãe, puxando os laços de seda do espartilho de Annabelle com mais força.
O ar escapou dos pulmões de Annabelle, menos pelo corpete do que pelo peso da ambição de sua mãe. O quarto era sufocante, superaquecido pela grande fornalha a carvão no porão, a mesma fornalha que era a origem da fortuna da família. A mansão Thorne era um palácio de dinheiro novo: cada superfície dourada, cada cortina de veludo, cada cômodo anunciando seu preço. Confortável. Caro. E para Annabelle, uma prisão.
— Ele é um Duque, Annabelle. — Sua mãe amarrou o laço com uma finalidade que a fez estremecer. — Você entende o que isso significa? Você entrará em uma sala e a Countess de Vane terá que fazer uma reverência para você. As portas que foram fechadas na cara do seu pai por vinte anos se abrirão.
Annabelle se virou, as baleinas rígidas fincando-se em suas costelas.
— Significa que estou sendo vendida, Mãe. Negociada como um carregamento de ferro gusa por um brasão na papelaria de alguém.
— Você está sendo estabelecida. — Sua mãe alisou as saias do vestido esmeralda que custara mais que um chalé de trabalhador. — Seu pai construiu um império de aço e fumaça. Mas a fumaça se dissipa. Um título é pedra. Ele dura.

Annabelle foi até a janela e olhou para os jardins impecavelmente cuidados, perfeitos demais, arrumados demais.
— Dizem que ele é frio. Dizem que Blackwood Manor é uma ruína onde o sol nunca chega. Dizem que é arrogante, sem sentimentos e falido.
— Ele é um herói de guerra. — Sua mãe pegou um colar de diamantes. — E sim, está falido. É por isso que aceitará você. E você aprenderá a ser uma Duquesa. Você tem fibra para isso. Certamente tem teimosia de sobra.
Annabelle pressionou os dedos contra o vidro frio. Não queria ser uma Duquesa. Queria ser livre. Queria sentar no escritório de seu pai e falar sobre bitolas de trilhos e tarifas de navegação, coisas que entendia muito melhor que bordado ou versos em francês. Mas a única moeda de uma mulher neste mundo era sua capacidade de se casar, e seu pai estava prestes a gastá-la no item mais caro do catálogo: um Duque desesperado.
— Não serei uma esposinha submissa — disse ela em voz baixa.
— Seja o que quiser. — Sua mãe prendeu os diamantes em sua garganta. — Apenas seja uma Duquesa até o fim do mês.
Trezentos quilômetros ao norte, o mundo era de outra cor. Não o ouro e o carmim da casa Thorne, mas o cinza do granito e o preto da terra encharcada de chuva.
Em um escritório que cheirava a lã úmida e papel velho, Alaric Blackwood, Nono Duque de Velloway, estava diante de uma janela que chacoalhava ao vento. Usava seu uniforme regimental, não por vaidade, mas porque era o casaco mais quente que possuía. O fogo era mantido baixo havia meses para economizar carvão.
— A falência não é uma ameaça, Sua Graça — disse Mr. Henderson, seu advogado. O homem idoso estava sentado, curvado diante do fogo escasso, suas mãos trêmulas enquanto virava as páginas de um livro-contábil de couro. — É um fato. Chegará em três meses. Quatro, se o inverno for brando.
Alaric não se virou. Olhava sua casa ancestral, florestas antigas e colinas ondulantes e fazendas de arrendatários trabalhadas pelas mesmas famílias por séculos. Bela. E morrendo.
— Quanto? — Sua voz era áspera.
— O total? — Henderson hesitou. — Com os juros das dívidas de jogo de seu falecido pai, os investimentos fracassados da South Sea, e a hipoteca das terras do oeste, perto de cem mil libras.
Alaric fechou os olhos. Ele lutara na Crimeia. Liderara homens contra fogo de canhão, segurara uma linha contra cavalaria em carga com um sabre e nervos. Este era um inimigo que não podia enfrentar com aço.
— Poderíamos vender os quadros — disse ele, embora o pensamento lhe revirasse o estômago.
— Já hipotecados.
— A madeira.
— Colhida há três anos, para os impostos.
— Então o quê? — Alaric se virou, seus olhos cinzas duros. — Deixo o telhado cair? Digo aos arrendatários para deixarem a terra que seus bisavós cultivaram porque a linhagem Blackwood finalmente fracassou?
— Há uma saída. — Henderson empurrou um papel sobre a mesa arranhada sem encontrar seus olhos. — Mas exige um compromisso.
Alaric foi até a mesa. A página não era um contrato de empréstimo. Era um dossiê.
— Um compromisso — repetiu ele.
— Casamento, Sua Graça.

O quarto pareceu esfriar mais um grau. Alaric riu, curto e sem humor.
— Casamento? Quem me teria, Henderson? Um título que remonta à Conquista e uma conta que envergonharia um comerciante. A nobreza sabe que estou arruinado. Nenhum pai no ton deixaria sua filha se aproximar deste naufrágio.
— Não a nobreza. — A voz de Henderson era suave. — O comércio.
Alaric ficou imóvel.
— Um industrialista. Um Sr. Silas Thorne. Fundições em Sheffield, minas em Wales, linhas de navegação em Liverpool. Extraordinariamente rico. E ele tem uma filha, filha única.
— Thorne. — O nome não tinha história, nem peso. Soava afiado e comum. — Você quer que eu venda o nome Blackwood a um comerciante de carvão.
— Mr. Thorne quitará integralmente as dívidas do ducado — insistiu Henderson. — Oferece capital para modernizar as propriedades além disso. Novos telhados para os arrendatários. Drenagem para os campos. A mansão restaurada.
— Em troca de quê?
— Uma aliança. Casamento com sua filha, Miss Annabelle Thorne. Ela se torna uma Duquesa. Seus filhos se tornam pares do reino.
Alaric percorreu as tábuas descobertas do piso onde um tapete persa estivera antes de ser vendido. Seus ancestrais observavam das paredes, homens sombrios em armaduras, mulheres orgulhosas em veludo. Eles sobreviveram a guerras e pragas e traições, e agora ele deveria entregar seu legado a um homem cuja fortuna fora construída sobre fumaça e suor.
— Ligar minha linhagem a dinheiro novo. — Disse isso como uma praga. — A uma mulher que pensa que um título é uma joia a ser comprada. Não. Isso não é um compromisso, Henderson. — Sua mão desceu sobre a mesa. — É rendição. A resposta é não.
— Por favor, Sua Graça. — Henderson se levantou, sua voz trêmula. — Isto não é sobre orgulho. Olhe o livro-contábil. É sobre os milhares de almas que dependem desta propriedade. Os Miller da North Farm, o telhado deles desabou. A escola da aldeia está fechando. As pessoas serão despejadas de suas casas quando os credores tomarem a terra. Você tem o direito de condená-las a isso, por causa do seu orgulho?
As palavras atingiram como um golpe. Os punhos de Alaric se fecharam. Ele odiava a armadilha, odiava um mundo onde a honra não era mais moeda, e odiava acima de tudo sua própria impotência.
Pensou nos Miller. Pensou na aldeia. Ele era seu protetor; esse era o contrato antigo. Se falhasse com eles, o título não significava nada.
Voltou para a janela. A chuva martelava o vidro agora, borrando as torres antigas. Sua casa. Sua maldição.
— Eu não... — começou ele, e a convicção já havia desaparecido.
Uma batida aguda o interrompeu.
Franziu a testa.
— Dei ordens para não ser perturbado.
A porta rangeu ao abrir. Jenkins, seu velho e inabalável mordomo, entrou parecendo abalado, algo raro em um homem que servira três gerações de Duques.
— Perdoe a intrusão, Sua Graça. Temos uma visitante.
— Não estou recebendo ninguém, Jenkins. Dispense-a. Diga que a sala de visitas inundou. Provavelmente é verdade.
— Receio que esta visitante não possa ser dispensada, senhor. — Jenkins se afastou. — Ela insistiu.
— Ela?
— Uma Srta. Annabelle Thorne, Sua Graça. Está esperando na sala de visitas. Veio sozinha.
Alaric ficou imóvel. O nome permaneceu ali, pesado de destino. Henderson prendeu a respiração.
— Sozinha — disse Alaric lentamente. — Sem acompanhante. Com este tempo.
— Ela disse... — Jenkins engoliu em seco. — Ela disse que desejava inspecionar a mercadoria antes que seu pai assinasse o cheque.
Fúria fria subiu no peito de Alaric, mais aguda que qualquer coisa que o dia trouxera. Aquilo não era uma proposta de negócios. Era uma invasão.
— Disse ela. — Ele ajeitou a jaqueta, seu rosto assumindo o desdém aristocrático. — Então não vamos fazer a senhorita esperar.

