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Capítulo 2

Na quarta-feira ela já sabia os horários dele.

Ele chegava ao jardim às cinco e cinquenta. Saía às sete e vinte. À tarde, brevemente, voltava — uns vinte minutos por volta das seis e quarenta, nada mais, tempo suficiente apenas para regar o canteiro mais perto do galpão e verificar algo na parede sul. Ela não anotou nada disso. Guardou da mesma forma que uma pessoa guarda um número de telefone que já ligou duas vezes. Sem intenção. Sem esforço. Sem dar nome ao ato de guardar.

Ela o observava pela janela da sala com a segunda xícara de café, que havia parado de fingir ser a primeira. Sentava no braço do sofá em vez de ficar de pé, o que a colocava num ângulo em relação ao vidro, e o via atravessar a esquina indo embora. Cabeça baixa. Sacola de lona. Nas quatro manhãs em que havia contado, ele não ergueu os olhos uma única vez para o lado dela na rua.

Ela chegava às oito.

A primeira coisa que viu no banco do galpão foram suas próprias luvas, que havia esquecido no dia anterior — as deixara onde as tirara, na madeira, com as palmas para cima, os dedos indicadores manchados de escuro pela terra da lavanda. Ao lado delas, a uns dez centímetros, o outro par. O par mais pesado. O par que ele não tinha levado na manhã em que levara todo o resto.

Estavam dobradas da forma como ele as havia dobrado. Dobradas uma vez no pulso. Palma de couro contra palma de couro. Dedos recolhidos. Do jeito que uma pessoa dobra as luvas quando pretende voltar buscá-las.

Ela colocou as suas. Deixou as dele onde estavam.

A lavanda estava igual. A lavanda faz o que a lavanda faz a onze graus e em câmera lenta, que não é grande coisa, exceto nas raízes. Duas abelhas já trabalhavam nos pequenos cones roxos ao longo da parede sul, lentas no ar fresco, trabalhando do jeito que trabalhavam quando nada era urgente — uma poeira fina de pólen nos tóraces, nas folhas abaixo delas. Ela arrancou três ervas daninhas entre o segundo e o terceiro canteiro elevado. Encheu o regador três vezes, porque o adaptador para mangueira que havia encomendado ainda estava num caminhão em algum lugar nos arredores de Newark. Amarrou um comprimento de barbante verde na pequena árvore fina junto à parede sul para marcá-la para si mesma, porque ele havia olhado para ela duas vezes na manhã da licença e ela queria perguntar a alguém algum dia o que era.

Perto das dez, a aba do chapéu estava quente ao toque e a nuca estava pegajosa onde ela havia passado protetor solar grosso demais naquela manhã. A terra sob o chapéu tinha seu próprio calor agora, seco e adocicado, o cheiro de solo que ficara tempo suficiente ao sol para lembrar o sol. Ela se refugiou na sombra do galpão e comeu metade de um sanduíche e bebeu água. Tirou o pequeno comprimido branco do frasco na bolsa — a dose do meio-dia, a segunda das duas — e engoliu sem água, depois alcançou a garrafa de novo, porque engolir sem água era um hábito que estava tentando largar. O recipiente laranja ficava no parapeito da cozinha em casa. Dois comprimidos, duas janelas, um corpo. Ela tinha os seus arranjos.

Escreveu duas linhas no caderno da bolsa.

Manhã: 5h50 / 7h20. Tarde: 6h40. Quatro dias.

O couve está espigando.

As linhas ficaram sem leitura. Ela fechou o caderno. Colocou-o de volta na bolsa e fechou o zíper, e não deu nome ao caderno em que havia estado escrevendo.

Voltando para casa por volta das onze, pelo lado oposto ao jardim, ela encontrou Esther Kaplan três portas abaixo da sua.

Uma mulher baixa num cardigã verde-escuro com uma caixinha de leite numa mão e um pequeno saco de papel na outra. Cabelo prateado cortado na altura do queixo. Olhos azuis. Um broche no colarinho — uma folha de cobre polida, de carvalho. Ela não estava com pressa. Tinha a postura ereta de uma mulher que havia passado quarenta anos fazendo adolescentes se sentarem direito.

Ela assentiu uma vez.

«Bem-vinda ao quarteirão.»

Não era caloroso. Tampouco era frio. Era a forma de boas-vindas que uma pessoa dirige a uma colega numa conferência com quem não tem intenção de falar duas vezes.

«Obrigada», disse Pam.

Esther a observou — o chapéu, as mangas compridas às onze da manhã, as luvas presas à alça da bolsa — e emitiu um pequeno som que não era bem um hum nem bem um comentário. Ergueu a caixa um centímetro na direção da própria porta, três casas adiante.

— Leite neste quarteirão, você chegou um pouco tarde — disse ela. — Tem um lugar na Franklin. Fica lá no fundo.

— Vou lembrar.

Um canto da boca de Esther se moveu — o formato que um sorriso assume quando a pessoa decidiu não deixá-lo acontecer. Ela seguiu em frente.

Pam ficou parada três segundos na calçada antes de entrar. O broche era uma folha. Carvalho, ela tinha quase certeza. A porta atrás dela travou como sempre fazia. Ela abriu com o ombro.

Lavou as mãos duas vezes. A segunda metade do sanduíche foi comida em pé no balcão, com a borda ressecada de tanto tempo dentro da sacola. Deitou no sofá com a intenção de descansar dez minutos e acordou às quatro e doze com a marca da costura da almofada impressa na bochecha e o apartamento tão quieto que conseguia ouvir o F train no chão.

Lavou o rosto. A chaleira demorou. Levou o chá até a janela da sala.

O jardim estava três quartos na sombra. Um homem com carrinho de bebê passou. Uma menina com o uniforme bordô da P.S. 161 comia alguma coisa de uma sacola de papel com o queixo enfiado no colarinho contra o vento. A esquina segurava a luz um pouco mais do que o resto do quarteirão, porque o sol chegava até ela pela fresta entre duas casas.

Às seis e quarenta e um um homem cruzou a esquina vindo do sul.

Sacola de lona.

Ela o observou pelo ângulo do braço do sofá. Ele passou pelo portão. O portão não precisava ser fechado. Foi até o canteiro mais próximo do galpão e mergulhou o regador no barril de chuva, ergueu, foi com ele até a parede sul. A árvore fina recebeu uma rega lenta e cuidadosa ao redor da base. Ele ficou um minuto olhando para ela. Pousou o regador. Fez alguma coisa no banco — ela só conseguia ver as costas dele, a linha dos ombros, o leve inclinar da cabeça — e então pegou a sacola de lona e voltou para o portão.

Seguiu para o sul.

Do outro lado da rua, na janela do segundo andar da casa de frente para a esquina, uma cortina se mexeu. A mesma cortina. Ela viu o movimento e deliberadamente não olhou para lá. Terminou o chá.

Fechou a própria cortina.

Na manhã seguinte ela chegou às cinco e quarenta.

Não tinha decidido isso. Não tinha colocado alarme. Os olhos tinham aberto no escuro com aquele tipo de clareza que não pertencia às cinco e vinte, e quando uma pessoa estava acordada às cinco e vinte não havia argumento razoável para ficar na cama.

A luz da cozinha ficou apagada. Ela bebeu água no escuro. Colocou o chapéu e as mangas compridas por hábito, mesmo que o sol não fosse ser um problema por mais uma hora, e cruzou a rua sob uma luz azul e fria.

O jardim estava vazio.

Ela sabia que estaria. Cinco e quarenta eram dez minutos antes do horário dele. Ela confiava nas quatro manhãs. Abriu o trinco do portão ela mesma desta vez — a dobradiça emitiu seu pequeno som satisfeito — e caminhou até o galpão.

As luvas dela estavam onde ela as havia deixado.

As dele, não.

Ainda estavam no banco. Ainda dobradas com a palma de couro encostada na palma de couro. Mas os pulsos apontavam para o outro lado, em direção à porta do galpão em vez da parede sul, e o indicador da luva direita estava pressionado para baixo em vez de dobrado para dentro. Uma coisa pequena. O tipo de coisa pequena que ela teria ignorado se não estivesse prestando atenção. Ela não estava prestando atenção. E ainda assim tinha visto.

Ela as pegou.

O interior do couro estava quente, ou quase. Não suficientemente quente para ter certeza de que não estava imaginando. A palma tinha tomado a forma de uma mão que não era a dela. Onde os dedos dela terminavam, os dele terminavam mais compridos; onde o polegar dela repousava na costura, o dele repousava mais grosso, mais rígido na junta. Dois pequenos calos que ela conseguia sentir através do couro, um na base de cada indicador.

Ela pousou as luvas. Arrumou-as da forma como ele as tinha arrumado na manhã da licença. Pulsos voltados para a parede sul. Dedos dobrados para dentro.

De quem quer que fossem, ele tinha voltado para buscá-las.

Não as tinha levado.

Tinha apenas as pousado de volta.

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