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Lúcia

Lúcia

Coração e prosa 📖

O Jardim Entre Nós

4.9(602)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#RomanceContemporâneo#SlowBurn#Hurt/Comfort#MedicalRomance#FoundFamily
Procurei a terra para esconder meus pedaços partidos, mas o homem silencioso que divide este jardim comigo está desenterrando uma paixão que eu achava que meu corpo havia esquecido.

Capítulo 1

O portão estava aberto.

Era isso primeiro — não o cheiro de terra molhada, não a luz fria de abril refletindo na grade de arame, não o gemido do F train sob o asfalto a dois quarteirões a leste. O portão. Sem trinco. Pam parou na calçada com a garrafa térmica em uma mão e a licença dobrada na outra e olhou para o vão entre o portão e o poste da mesma forma como olharia para um erro de digitação no manuscrito de outra pessoa.

Dentro do lote, do outro lado da terceira canteira elevada, um homem estava ajoelhado.

Ombros largos numa jaqueta de campo verde-oliva desbotada. M-65, o tipo que o pai dela havia tido e nunca usado. Cabelo preto entremeado de grisalho, cortado rente nas laterais. Mãos enterradas até os pulsos na terra. Ele trabalhava um torrão solto, o gesto pequeno e preciso, da maneira como se trabalha um nó quando se passou a vida inteira desfazendo nós.

Ela empurrou o portão até abrir por completo. A dobradiça era nova. Alguém havia graxado.

— Você está no meu lote — ela disse.

Saiu mais seco do que pretendia. Ela havia ensaiado outra coisa durante o caminho, alguma declaração neutra; o ensaio não sobreviveu ao portão.

Ele não se apressou. Recuou sobre os calcanhares e a olhou da maneira como um médico olha para um prontuário — rápido, completo, terminado antes que ela percebesse ter sido lida. Pele morena aquecida pelo esforço do trabalho curvado. Um pequeno corte de gilete alto na mandíbula. Olhos escuros demais para a luz daquela hora.

— Me mostre — ele disse.

Ela estendeu a licença. Ele não fez nenhum movimento para pegá-la. Ela teve que passar por cima de uma espiral de mangueira de gotejamento, contornar uma fileira de pacotes de sementes dispostos em ordem alfabética sobre um pano de farinha dobrado, para colocar o papel na mão dele. Estava quente do bolso. Ele leu até o fim. Leu duas vezes, o que ela suspeitou não ser necessário.

Plot 14-B. Residente único, com-necessidade-médica. Aprovado.

Ele dobrou o papel de volta nas dobras originais e o estendeu.

— Pam Collins.

— Sim.

— Rafael.

Ele não deu o sobrenome. Ela também guardou o seu.

Ele olhou para a fileira em que havia estado trabalhando — couve, couve que havia passado o inverno do ano anterior, folhas da cor de estanho molhado — e depois para a caixa de ferramentas ao seu lado. A boca fez uma forma que não era bem um sorriso.

— Vou terminar essa fileira — ele disse.

Não era uma pergunta. Também não era uma briga. Havia algo na maneira como ele disse aquilo — a maneira como já havia decidido que tinha direito aos próximos vinte minutos e estava comunicando, não pedindo — que deveria tê-la irritado mais do que irritou.

— Leve o que é seu — ela disse.

Ele pegou a caixa de ferramentas. Pegou a colher de jardinagem e a tesoura de poda e um dos dois pares de luvas grossas empilhadas no banco do galpão. Deixou o outro par onde estava. Deixou a mangueira de gotejamento. Deixou os pacotes de sementes em ordem alfabética.

Ela o observou fazer isso porque queria saber o que ele considerava seu.

Não muito, como se revelou. As ferramentas de um homem, as luvas de um homem, as gaiolas de tomate que ele devia ter guardado em algum lugar durante o inverno e trazido de volta em março, antes mesmo de ela assinar o contrato. Ele deixou a canteira em si, rastejada e lisa. Deixou a couve.

Ela pousou a garrafa térmica e desdobrou a lona que envolvia suas três mudas de lavanda — pequenas, compradas em loja, crescidas demais para o espaço depois de uma semana no depósito — e as carregou até a parede sul. O canto mais distante. Longe dele. Havia uma árvore jovem ali, noventa centímetros de tronco fino e marrom e alguns brotos teimosos, plantada no ano anterior por alguém que havia se importado o suficiente para escorar direito. Ela deixou a questão de quem para depois. A lavanda queria sol e a pele dela não, e ela não havia planejado pensar nessa combinação hoje, mas a frase se construiu sozinha, no fundo da cabeça, na voz que usava para revisar as páginas dos outros.

A lavanda quer o que você não pode ter. Corta.

Ela se agachou. O joelho esquerdo reclamou; ela foi assim mesmo. A colher entrou na terra e a terra subiu no ar, e ela não ia olhar para ele enquanto plantava.

Ele trabalhou. Parou de trabalhar. Uma vez, quando ela assentou a segunda muda no buraco e socou a terra ao redor com o cabo da espátula, a qualidade do silêncio mudou — aquela pequena alteração que acontece quando uma das pessoas nele olha de relance para a outra. Ela manteve os olhos na terceira muda.

Depois de um tempo veio um som pequeno — o estalo metálico de uma tesoura de poda se fechando — e então o deslocamento do peso do corpo dele ao se levantar. Ele passou por ela. Ela não ergueu os olhos.

— Tem um regador atrás do galpãozinho — disse ele. — Tem goteira. Encha pela metade.

— Obrigada.

Ele foi até o portão. Pelo canto do olho ela viu quando ele trocou os sapatos. As botas saíram e foram para uma sacola de lona. Os tênis médicos brancos saíram, foram calçados. As botas foram para a bolsa junto com as luvas, a espátula e a tesoura. Ele fechou o zíper.

A dobradiça do portão soltou o pequeno suspiro satisfeito de metal lubrificado há pouco.

Ele foi embora.

Ela terminou a terceira lavanda. As mangas da camisa estavam escuras até os cotovelos. Em algum lugar bem acima das brownstones, um estorninho estava ensaiando o som de um alarme de carro. O tijolo cor de caqui do prédio da esquina recebia a luz fria e a aquecia. O sol cruzava a cumeeira num ângulo que significava 8h47, mais ou menos.

Ela se levantou. O joelho aguentou. A terra que ela havia mexido estava mais escura do que a terra ao redor — era o único sinal de que ela estivera ali.

Ela deixou a rega de lado. O regador estava atrás do galpãozinho, e o galpãozinho era onde ele tinha ido primeiro; ela não tinha nenhuma intenção de seguir o rastro dele.

Era uma coisa pequena. Ela anotou dentro de si assim mesmo.

Pam foi para casa.

O apartamento dela ficava no segundo andar de uma brownstone a meio quarteirão dali, a que tinha a magnólia que ainda não tinha florescido e uma campainha pintada tantas vezes que travava. Ela entrou. Lavou as mãos duas vezes, da mesma forma que as lavava desde agosto — do jeito que se lavam as mãos quando não se tem mais certeza absoluta de que elas são suas. Colocou a garrafa térmica na pia. Tirou o vidro branco pequeno e o laranja pequeno do parapeito da janela, onde os havia posto na terceira manhã ali para não poder fingir que esquecia.

Hydroxychloroquine, duzentos miligramas. Prednisone, cinco.

Ela os tomou com água da torneira, de pé à janela da cozinha. A janela dava para um poço de ar. Não havia nada para olhar. Era esse, em certo sentido, o atrativo.

No apartamento em Manhattan — o apartamento do Daniel, no fim das contas, embora ela tivesse morado lá cinco anos e pagado metade — ela tomava esses mesmos comprimidos de pé diante de uma janela que olhava para o oeste, além do rio, fingindo que eram vitaminas. Havia uma história, perto do fim, sobre ser uma pessoa reservada. Havia uma diferença entre uma pessoa reservada e uma pessoa que havia se tornado, ao longo de oito meses, uma estranha para as pessoas que costumavam conhecê-la. Ela não tinha se permitido, até agora, encarar essa diferença de frente.

Ela enxaguou o copo.

Depois foi para a sala de estar, que ainda era em grande parte caixas, e abriu a marcada com LIVROS / ESCRIVANINHA em caneta marcador — sua própria letra do fim de semana da mudança — e passou por duas camadas de livros de bolso até encontrar o caderno.

Era preto. Capa flexível. Os cantos haviam sido arredondados por algo que não era o desgaste — pressão, muito tempo numa gaveta. Ela vinha se dizendo, desde a mudança, que não tinha certeza do que havia nele. Era uma mentira pequena. Ela sabia exatamente o que havia nele. Tinha simplesmente decidido baixar a tampa sobre a questão de quando olharia.

Ela o abriu.

A própria letra, com seis anos de idade, em tinta azul que havia escurecido levemente nas bordas. Ela pulou as palavras em si. Leu a forma delas — regular, inclinada para a direita, as curvas dos d's um pouco mais fechadas do que os seus d's atuais — a letra aperta quando a pessoa está prestando atenção em outra coisa que não a página.

Ela fechou o caderno.

Ela o guardou na gaveta de cima da escrivaninha que ainda não tinha cadeira e disse, com a voz de quem pousa algo sem admitir que está pousando: Lista pra depois.

A gaveta deslizou até fechar. O trilho precisava de sabão.

Era o suficiente para hoje com as caixas.

Ela fez um sanduíche. Não terminou. Bebeu água. Leu três páginas de um romance que pretendia ler desde novembro e não conseguia, ao fim da terceira página, ter dito a ninguém o que estava na primeira.

No começo da noite, com a luz escorregando lateral e dourada sobre o tijolo do outro lado da rua, ela foi até a janela da sala e olhou para a esquina lá embaixo.

O jardim ficava dois andares abaixo e do outro lado. Daqui dava pra ver só um ângulo — a parede sul, o galpãozinho, o terceiro canteiro elevado. A alfazema era uma mancha de cinza-esverdeado junto à parede, nem um passo mais perto de florir do que estivera uma hora antes. Um homem passou na calçada com um jornal dobrado. Um cachorro, com coleira, puxava o dono em direção ao meio-fio.

Rafael não estava em nenhum ponto do ângulo que ela conseguia ver. Ele tinha um plantão em algum lugar; ela não sabia onde, não sabia que horas, não sabia os nomes das pessoas para quem ele tiraria a luva e colocaria de volta ao longo das próximas doze horas. Ele também não sabia nada sobre ela. Não sabia o que ela tinha tomado na janela da cozinha quarenta minutos atrás. Não sabia dos oito meses.

A mão dela sobre o parapeito da janela cheirava levemente a alfazema.

Ele não sabe, ela pensou. Ninguém neste quarteirão sabe.

E pela primeira vez em oito meses, aquilo se aproximou de algo que uma pessoa poderia chamar de liberdade.

A luz desceu mais um degrau nos tijolos. Do outro lado da rua, na janela do segundo andar da casa voltada para a esquina, uma cortina se moveu — uma vez, muito levemente, do jeito que as cortinas se movem quando alguém estava parado atrás delas e acaba de decidir recuar.

Pam fechou a própria cortina.