„Tire isso", Gareth ordenou.
Ele não olhou para o rosto dela. Seus olhos estavam fixos no veludo arruinado e encharcado de seu vestido, que no momento formava uma poça de água suja sobre as tábuas do assoalho.
Isolde paralisou, os braços envolvendo-se com mais força. O arrepio que a percorreu não tinha nada a ver com o ar frio da noite. „O que disse?"
„O vestido", ele disse, a voz plana e impaciente, como um homem discutindo o clima. „É azul. É seda. Está coberto de pérolas. Você poderia muito bem estar usando uma placa que diz 'Sou a Princesa desaparecida'. Queime-o, enterre-o ou coma-o, não me importa, mas tire isso."
Ele chutou um baú de madeira velho e surrado no canto do quarto. „Há roupas ali dentro. Coloque-as."
Isolde o encarou, indignação lutando contra o medo. „Você espera que eu... que eu me despija? Aqui? Na sua frente?"
Gareth deixou escapar um suspiro curto e áspero. Virou as costas para ela, caminhando até a mesa pequena e instável onde uma vela solitária queimava. Puxou um pano do cinto e começou a limpar metodicamente a água do fosso de sua adaga.
„Eu não estou olhando, Alteza", ele disse para a parede. „E francamente, já vi refugiados molhados e trêmulos suficientes na vida para que a novidade tenha passado. Seja rápida. Se você morrer de frio, eu não recebo."
Queimando de humilhação, Isolde foi até o baú. As dobradiças gemeram quando ela o abriu. De dentro, o cheiro de cânfora e lã velha subiu. Não havia sedas ali. Nenhuma linho tecido de linho tão fino que parecia água. Havia uma saia de lã grossa e cinzenta, uma túnica sem forma que já fora branca, mas agora tinha a cor de aveia, e um par de botas de couro gasto, porém resistentes.
Eram roupas de camponesa. Roupas de ninguém.
Seus dedos tremeram enquanto ela lutava com os laços de seu vestido. Os nós encharcados eram teimosos, resistindo a ela. Ela teve que quebrar uma unha para soltar o corpete. Quando o veludo pesado e molhado finalmente deslizou de seus ombros e caiu no chão com um baque úmido, ela sentiu uma leveza estranha e aterrorizante.
Aquele vestido tinha sido sua armadura. Era o símbolo de sua posição, de sua história, de sua proteção. Sem ele, em pé com sua camisola fina e encharcada naquele quarto gelado, ela se sentiu totalmente exposta. Ela não estava apenas tirando roupas; estava despijando sua identidade.
Ela vestiu a saia de lã áspera. Era arranhada contra sua pele, pesada e rígida. A túnica era grande demais, engolindo sua silhueta. As botas eram um número maior, mas estavam secas.
Ela as amarrou, as mãos trêmulas. Quando ficou de pé, capturou seu reflexo no vidro escurecido da janela. Um fantasma cinzento e sem forma olhava de volta para ela. A Princesa Isolde de Silverwood havia desaparecido. Em seu lugar havia apenas... uma garota. Uma garota em um quarto sujo com um homem perigoso.
„Terminei", ela sussurrou.
Gareth se virou. Seus olhos percorreram-na, críticos e frios. Ele assentiu, uma vez.
„Melhor. Você parece uma lavadeira que caiu em tempos difíceis. Perfeito."
Ele caminhou até a pilha de veludo molhado no chão. Sacou sua adaga e, com golpes eficientes e brutais, cortou as pérolas do corpete, enfiando-as em uma bolsa em seu cinto. Então enrolou o vestido em uma bola apertada e gotejante e o enfiou fundo no fundo do baú, cobrindo-o com um cobertor roído por traças.
„Ficamos com as pérolas", ele disse. „Podemos trocá-las depois. O vestido fica aqui para apodrecer."
Isolde o observou, um relâmpago repentino de raiva cortando seu medo. „É isso que sou para você? Um disfarce a ser gerenciado? Um pagamento?"
Gareth parou. Ele a olhou, sua expressão ilegível. „Sim."
„Eu exijo respeito", ela disse, a voz trêmula, mas ganhando força. Ela se ergueu em toda a sua altura, tentando convocar a autoridade que costumava vir tão naturalmente. „Eu sou sua empregadora. Eu sou a futura Rainha deste reino. Eu não sou um saco de grão para ser arrastado pela lama e ridicularizado."
„Você não é uma rainha", ele a interrompeu, a voz baixando para um rosnado baixo e perigoso. Ele se aproximou, invadindo seu espaço até que ela precisou esticar o pescoço para olhá-lo nos olhos. „Não aqui. Neste quarto, nesta cidade, você é uma presa. Você é um passivo. Respeito se conquista, Isolde. E até agora, você não fez nada além de tremer e reclamar."
O uso de seu nome, despojado de qualquer título, pareceu um tapa.
„Eu o contratei," ela sibilou.
„E eu estou fazendo o trabalho," ele revidou. „O trabalho é mantê-la viva. Não fazer agrado ao seu ego."
Ele alcançou atrás das costas e puxou uma segunda adaga do cinto. Era menor que a dele, mas não menos perversa. O aço era escuro, não reflexivo, o cabo envolto em couro áspero.
Ele agarrou a mão dela, ignorando seu estremecimento, e bateu o punho da arma contra sua palma. Ele encurvou seus dedos ao redor dele, seu aperto machucando.
„Quer respeito?" ele rosnou. „Aprenda a usar isto."
Isolde olhou para a arma. Era pesada. Fria. Parecia estranha em sua mão, um objeto de violência que não tinha lugar em seu mundo.
„Eu... Eu não sei como," ela gaguejou.
„Aprenda," ele disse asperamente. „Porque se alguém entrar por aquela porta e eu estiver ocupado matando os dois primeiros, o terceiro virá atrás de você. Você ataca o pescoço. Ou sob as costelas, para cima, em direção ao coração. Não hesite. Não feche os olhos. Se você hesitar, você morre. E se você morrer, eu não recebo pagamento."
„Isso é tudo que importa?" ela gritou, lágrimas de frustração queimando seus olhos. „Ouro?"
„É a única coisa que é real," ele disse. „Honra é uma mentira. Títulos são uma mentira. Aço e ouro. Esse é o mundo."
Ele soltou a mão dela e recuou. „Agora. Mostre-me. Levante a adaga. Não deixe seu pulso ficar mole."
Isolde apertou a adaga. Ela o odiou naquele momento. Ela odiava seu cinismo, sua brutalidade, sua completa rejeição de tudo em que ela acreditava. Mas ela ergueu a faca. Ela alargou sua postura, imitando o que tinha visto os guardas fazerem no pátio de treinamento.
„Mais alto," ele corrigiu, batendo em seu cotovelo. „E pare de tremer."
Ela o encarou, seu medo se transformando em um foco quente e ardente. Ela ia mostrar a ele. Ela não era inútil. Ela não era—
Thump.
O som veio de baixo. Era pesado e abafado, vibrando através dos assoalhos.
Gareth congelou instantaneamente. Sua cabeça estalou em direção à porta, todo seu comportamento mudando de valentão para predador. Ele ergueu uma mão pedindo silêncio.
Thump. Thump. Thump.
Botas pesadas nos degraus de madeira do lado de fora. Não era o passo vacilante e desigual de um bêbado. Eram rítmicos. Medidos. Propósitos.
„Botas," Gareth sussurrou, a cor drenando de seu rosto. „City Watch. Eles estão revistando o prédio."
Pânico, frio e cortante, apagou a raiva de Isolde. „O que fazemos?"
„Silêncio," ele sibilou. Ele se moveu até a vela e a apagou com dedos molhados, mergulhando o quarto na escuridão. A única luz agora vinha das fatias de luar cortando através das frestas das venezianas.
Os passos ficaram mais altos. Eles alcançaram o patamar do lado de fora. Houve uma pausa, então um punho pesado bateu na porta do quarto ao lado do deles.
„Abram! City Watch!"
Um protesto abafado do vizinho, o som de uma porta sendo chutada, e o estrondo de móveis.
„Eles estão revistando cada quarto," Gareth sussurrou. Ele olhou ao redor do pequeno espaço. Não havia para onde ir. A janela dava para o beco, mas eles estavam no segundo andar, e pular faria barulho. A cama era baixa demais para se esconder embaixo.
Seus olhos pousaram no canto. Um pequeno e estreito nicho onde a chaminé se projetava, coberto por uma cortina esfarrapada e manchada de gordura. Um armário de armazenamento, mal largo o suficiente para uma vassoura.
„Ali," ele apontou.
„É muito pequeno," ela sussurrou.
„Entre."
Ele agarrou seu braço e a empurrou em direção ao canto. Ele afastou a cortina e a empurrou para o recinto escuro e empoeirado. Cheirava a cebolas velhas e podridão seca. Ele entrou atrás dela, puxando a cortina fechada.
Não era apenas pequeno; era sufocante. Para caber, Gareth teve que pressionar o corpo contra o dela, prendendo-a contra o tijolo áspero da chaminé. Ela podia sentir cada linha dura de sua armadura, o calor do corpo dele irradiando através de sua túnica fina. O braço dele envolveu sua cintura para firmá-los, a outra mão pousada sobre o punho de sua espada.
Ele se inclinou, a boca a centímetros de sua orelha. „Não faça. Um som.", ele sussurrou. „Se você gritar, estamos mortos."
Ela assentiu, a bochecha roçando a barba por fazer de seu maxilar. Seu coração batia tão alto que tinha certeza de que os guardas lá fora podiam ouvir. Tum-tum, tum-tum.
As botas pesadas se moveram novamente. Pararam logo atrás da porta deles.
A maçaneta chacoalhou. Travada.
„Esta está trancada,", uma voz rouca resmungou do corredor.
„Arrombe,", outra voz ordenou. „O Duke disse para revirar tudo."
Isolde prendeu a respiração, um suspiro mínimo. A mão de Gareth selou instantaneamente sua boca, abafando o som. Ele pressionou a cabeça dela contra seu peito. Ela podia sentir a tensão nele, uma mola enrolada pronta para estourar. Ele não estava apenas se escondendo; estava esperando. Se aquela porta se abrisse... se olhassem atrás da cortina... haveria sangue.
Bum!
A porta do quarto estremeceu sob um impacto pesado. Poeira desceu sobre eles do teto do armário.
Bum!
A madeira estilhaçou.
Isolde apertou os olhos, segurando a adaga que ele lhe dera com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Ela rezou para deuses em que não acreditava há anos. Por favor. Não assim.
A porta cedeu com um estrondo. Passos pesados marcharam para dentro do quarto.
„Livre!", uma voz gritou. „Verifiquem a cama! Verifiquem o baú!"
Isolde sentiu a mão de Gareth apertá-la ainda mais. Eles estavam dentro.
