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Carla

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Histórias de amor ❤️

O Gambito da Princesa

4.7(584)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#RomancedeFantasia#Royalty&Kings#ForcedProximity#HiddenIdentity#SlowBurn
Troquei uma coroa de mentiras pela proteção de um mercenário letal, apenas para descobrir que a minha maior ameaça não era o assassino no meu encalço, mas sim o homem que me mantinha viva.

A Gaiola Dourada

O Grande Salão do Castelo de Silverwood não era apenas aquecido; era sufocante, um abraço asfixiante de corpos perfumados, veado assado e o odor doce e pesado de mil lírios que enfeitavam cada pilar. Para os trezentos nobres reunidos sob o teto abobadado, o calor era um sinal de exuberância festiva. Para a Princesa Isolde, parecia a respiração de uma besta que já a havia engolido inteira.

Ela estava sentada na plataforma, a espinha rígida contra a madeira entalhada de sua cadeira. Seu vestido, uma obra-prima de seda azul e veludo cotelê encomendada especificamente para aquela noite, parecia menos uma vestimenta e mais um sudário cerimonial. Era pesado, incrustado com pérolas suficientes para alimentar uma aldeia por um ano, e o espartilho por baixo estava apertado a tal ponto que cada respiração era um esforço superficial e calculado.

„Sorria, meu amor", uma voz murmurou ao seu lado. „Eles estão aplaudindo você."

Isolde virou a cabeça lentamente. O Duque Valerian estava sentado à sua direita, ocupando o assento que deveria pertencer a seu pai, o Rei, se não estivesse „indisposto" de luto. Valerian era indiscutivelmente belo. Com suas maçãs do rosto altas, cabelo negro como a corvo que caía em ondas perfeitas, e olhos da cor de obsidiana polida, ele era o herói de toda balada cantada no reino.

Ele estendeu a mão e pegou a dela. Seus dedos eram longos, elegantes e aterrorizantemente fortes. Ao levantar a mão enluvada dela até seus lábios, Isolde teve que lutar contra um ímpeto viscerarl e físico de se encolher. Seu toque não parecia carne; parecia mármore frio, como as estátuas na cripta real.

„Estou sorrindo, meu Duque," ela respondeu, a voz leve e etérea, uma imitação perfeita da garota vazia que ele acreditava que ela fosse. „Estou impressionada com o amor deles."

Os olhos negros de Valerian perfuraram os dela, procurando uma fissura na máscara de porcelana. „Como deveria estar. Você é a joia do Norte, Isolde. E em breve, serei o engaste que a mantém segura."

Segura. A palavra tinha gosto de cinza.

Ela olhou para a multidão. Eles estavam aplaudindo, erguendo taças de ouro em brinde ao casal feliz. Eles viam um conto de fadas: a princesa enlutada, resgatada da tristeza pelo conselheiro mais leal do Rei. Eles não viam a víbora enroscada no trono. Eles não sabiam que o vinho que bebiam fora comprado com moedas desviadas das guarnições do norte. E certamente não sabiam que o homem sentado ao seu lado, representando o papel do noivo devotado, era o mesmo homem que havia envenenado seu irmão, o Príncipe Alaric, há não mais de três luas.

A memória a atingiu com a força de um golpe físico. Alaric, rindo nos jardins, o rosto ruborizado de vida. E depois Alaric, pálido e convulsionando em sua cama, os médicos impotentes, murmurando sobre um „coração estourado." Só Isolde tinha visto o livro-razão que Valerian havia deixado descuidadamente aberto na câmara do conselho semanas antes. Só ela sabia sobre o carregamento de Wolf's Bane.

„Não confie nos sorrisos de Valerian, irmãzinha," Alaric havia sussurrado para ela certa vez, tirando uma folha de seu cabelo. „Ele é a cobra em nosso jardim. Ele espera a geada matar as flores, para que possa herdar a terra."

„Alguma coisa errada, Princesa?" A voz de Valerian caiu uma oitava, a lâmina de aço surgindo sob o veludo. „Você está tremendo."

Isolde forçou sua mão a permanecer imóvel em sua pegada. Ela arregalou os olhos, projetando uma imagem de fragilidade inocente. „É só a emoção, meu senhor. E o calor. Temo que esteja me sentindo um pouco fraca."

Valerian a estudou por mais um momento, então acenou com a cabeça, satisfeito com sua fraqueza. Ele se levantou, puxando-a com ele. A multidão ficou em silêncio.

„Meus senhores! Minhas senhoras!" sua voz ecoou, carismática e imponente. „Minha noiva está tomada pela alegria da noite. Permitam que ela se retire, para que possa descansar para as... festividades... que nos aguardam."

Risos se espalharam pelo salão, vulgares e maliciosos. Isolde fez uma reverência, um movimento que ela havia praticado até se tornar memória muscular.

„Boa noite, meu Duque," ela sussurrou.

„Durma bem, Isolde," ele disse, aproximando-se. Sua respiração roçou sua orelha. „Dobrei a guarda em seu corredor. Para sua proteção, claro. Não queremos que nada aconteça a você antes do casamento."

Era uma ameaça, clara e simples. Eu a possuo. Não há escapatória.

Isolde voltou-se e caminhou para longe, com a cabeça erguida, o pesado cauda do vestido sussurrando sobre o piso de pedra como uma serpente a segui-la.

A caminhada até seus aposentos pareceu uma eternidade. O castelo, geralmente seu lar, transformara-se num labirinto de inimigos. Cada guarda que ela cruzava vestia o libré do Rei, mas ela sabia que agora respondiam a Valerian. Observavam-na com olhos demasiado audaciosos, demasiadamente avaliadores.

Quando finalmente chegou às pesadas portas de carvalho de sua suíte, dispensou suas damas de companhia.

„Mas, Vossa Alteza", a mais velha protestou, „quem vai soltar seu vestido? Quem vai escovar seu cabelo?"

„Desejo ficar sozinha", disse Isolde, injetando uma nota de lamento petulante na voz. „Desejo rezar pelo espírito de meu irmão. Deixem-me."

A menção ao Príncipe morto as silenciou. Curvaram-se e se retiraram.

Isolde entrou e atirou a pesada tranca de ferro. Só então permitiu que a máscara caísse. O sorriso vazio desapareceu, substituído por uma expressão de determinação sombria e desesperada. Encostou-se à porta, ofegando em busca de ar, as mãos arranhando o colar de pérolas até o fecho estalar. Arrancou as joias do pescoço e as atirou sobre a penteadeira. Elas tilintaram alto, uma reprovação aguda ao silêncio.

Dirigiu-se à alta janela arqueada e abriu as persianas.

Lá fora, a noite estava revolta. Uma tempestade se formava sobre os picos recortados ao norte, o vento uivando ao redor das torres de pedra de Silverwood. A chuva açoitava o parapeito, fria e cortante. Era perfeito. O ruído da tempestade abafaria os sons de uma luta.

Se ele viesse.

Isolde percorreu o quarto de um lado a outro, o coração martelando um ritmo frenético contra as costelas. Correra um risco que a aterrorizava até a alma. Através de uma criada de cozinha em quem confiava — a única serva com quem ousara falar — enviara uma mensagem e uma pesada bolsa de ouro ao taverna mais imunda da cidade baixa. As instruções haviam sido vagas, o local específico, e o alvo infame.

Gareth. The Broken Sword.

Nunca o encontrara. Conhecia apenas os sussurros. Que era um cavaleiro desonrado. Que era um mercenário que mataria a própria mãe pelo preço certo. Que era um monstro.

Preciso de um monstro, disse a si mesma, as mãos trêmulas enquanto servia um cálice de água. Para lutar contra um demônio como Valerian, preciso de um monstro.

Verificou a ampulheta sobre a lareira. A areia estava se esgotando. A meia-noite se aproximava.

E se ele não viesse? E se tivesse pegado o ouro e rido? Ou pior, e se tivesse ido direto a Valerian para vendê-la? Se o Duque atravessasse aquela porta em vez do mercenário, sua vida estaria efetivamente acabada.

Uma rajada súbita de vento apagou as velas nos porta-tochas das paredes, mergulhando o quarto na penumbra, iluminado apenas pelas brasas moribundas da lareira e pelos relâmpagos lá fora.

Isolde paralisou. O vento mudara. Já não soprava para dentro. O ar no quarto parecia... ocupado.

Virou-se lentamente para a varanda.

Uma sombra destacou-se do arco de pedra. Era enorme, preenchendo a abertura, bloqueando a tempestade. Um homem entrou em seu quarto. Movia-se com uma graça silenciosa e predatória que contradizia seu tamanho. Estava encharcado até os ossos, com água gotejando de um pesado manto de couro surrado.

Um relâmpago iluminou-o por um instante. Isolde reprimiu um suspiro.

Ele era aterrorizante. Alto, de ombros largos, armado até os dentes. Uma espada longa estava presa às suas costas, e um punhal descansava em seu quadril. Mas era o rosto que manteve seu olhar. Um rosto duro, todo ângulos afiados e barba por fazer, marcado por uma fina e irregular cicatriz branca que cortava a sobrancelha esquerda e desaparecia em sua linha de cabelo. Seus olhos eram frios, cínicos e desprovidos de qualquer reverência.

„Você está atrasado", disse Isolde. Sua voz tremeu, arruinando o tom de comando que pretendia.

O homem aproximou-se, trazendo consigo o cheiro de chuva, ozônio e couro velho. Olhou ao redor do quarto opulento, o lábio encolhendo-se num sorriso de escárnio.

„Os guardas estavam mais atentos do que me foi dito", ele disse. Sua voz era um rosnado grave e áspero, como pedras se esfregando. „Seu 'Duque' a mantém numa coleira curta, Princesa."

„Paguei por um serviço, não pelo seu comentário," ela retrucou, recuando até as pernas baterem na beira da cama.

Gareth parou no centro do quarto, a água de sua capa formando uma poça no caro tapete. Ele a olhou — realmente a olhou — notando os cabelos desgrenhados, o rosto pálido e o vestido pesado e restritivo.

„Você me pagou por um sequestro," ele corrigiu. „Mas olhando para você, parece que já fez metade do trabalho de se aterrorizar sozinha."

„Eu não estou aterrorizada," ela mentiu.

„Você está tremendo tanto que consigo ouvir suas joias chacoalhando," ele apontou secamente. Ele desabotoou sua capa e a deixou cair no chão com um baque pesado e molhado. Por baixo, usava cota de malha desgastada e couro escuro. Parecia uma arma que tinha visto uso demais.

„Está pronta?" ele perguntou. „Uma vez que comecemos isso, não há volta. No momento em que o alarme soar, você não é mais uma princesa. É bagagem."

„Estou ciente das apostas," Isolde disse, erguendo o queixo. „E não sou bagagem. Sou eu quem vai salvar este reino."

Ele riu, um latido curto e áspero, desprovido de humor. „Certo. Salve o reino. Só tente não tropeçar no próprio vestido enquanto faz isso."

Ele avançou na direção dela, e a realidade do que ela tinha pedido desabou sobre ela. Ela tinha contratado um homem estranho e perigoso para a maltratar, para a arrastar para a noite.

„Espere," ela disse, a respiração presa na garganta.

Ele parou, a mão pairando perto de seu punhal. „Pés frios, Alteza? Se eu sair por aquela porta sozinho, fico com o ouro."

„Não," ela sussurrou. Ela estendeu a mão e agarrou um pesado jarro de prata da mesa. Suas mãos tremiam, mas sua pegada era firme. „Precisa parecer real. Valerian... ele é desconfiado. Se não houver luta, ele saberá que fui por vontade própria. Ele me caçará como traidora, não como vítima."

Gareth ergueu uma sobrancelha, um lampejo de interesse surgindo em seus olhos mortos. „Você quer que eu a maltrate?"

„Quero que você faça uma bagunça," ela disse.

Ela arremessou o jarro de prata contra um espelho na parede. Ele se estilhaçou com um estrondo ensurdecedor, cacos de vidro chovendo sobre o chão.

Gareth esboçou um sorriso. Era uma expressão perigosa e afiada. „Finalmente. Uma língua que eu falo."

Ele sacou seu punhal e, em um movimento fluido, rasgou as caras tapeçarias penduradas ao lado da cama. Então chutou a pesada mesa de carvalho, enviando livros e velas pelos ares. O barulho foi tremendo.

„Grite," ele ordenou, avançando na direção dela novamente.

Isolde respirou fundo, pensando na mão fria de Valerian, nos olhos mortos de Alaric, na jaula que tinha se fechado ao seu redor por meses. Não precisava atuara. O terror e a raiva eram reais.

Ela gritou. Foi um som penetrante e arrepiante que ecoou nas paredes de pedra, um som de pura desesperação.

„Bom," Gareth grunhiu. Ele agarrou seu braço. Sua pegada não foi gentil; era dura como ferro, machucando sua pele através da seda. Ele a girou, pressionando a parte plana e fria de sua lâmina contra o pescoço dela, caso alguém entrasse antes que eles fossem embora. „Agora, a janela."

„Abram em nome do Rei!"

O grito veio do corredor, acompanhado pelas batidas pesadas de punhos blindados na porta. A guarda dobrada de Valerian. Eram mais rápidos do que ela tinha esperado.

„Acabou o tempo," Gareth rosnou.

Ele a arrastou em direção à varanda. Isolde tropeçou, seu vestido pesado enroscando em suas pernas, mas ele não diminuiu a velocidade. Praticamente a jogou sobre o parapeito de pedra.

„Pule!"

„Você está louco?" ela gritou, olhando para a queda vertiginosa na escuridão.

A porta de seus aposentos se estilhaçou com um estrondo enorme. Através das portas da varanda atingidas pela chuva, Isolde viu o quarto se encher de luz enquanto guardas invadiam, espadas desembainhadas.

„Ali!" um deles gritou, apontando para a varanda. „Ele tem ela!"

Gareth não esperou sua permissão. Ele guardou o punhal na bainha, agarrou-a pela cintura com um braço massivo e subiu no parapeito.

„Prenda a respiração, Princesa," ele sussurrou ao seu ouvido.

E então, enquanto os guardas avançavam pela varanda, Gareth se impulsionou da pedra, lançando ambos na noite rugidora e vazia.