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A Linha na Areia

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. A casa estava em silêncio, mas, pela primeira vez em dois anos, o silêncio não parecia pesado. Parecia... expectante. Como um palco antes das cortinas se abrirem.

Fiquei deitada na cama, ouvindo o ritmo distante do quebrar das ondas. Geralmente, eu puxava o edredom sobre a cabeça para abafar o som, apavorada com o lembrete do poder da água. Hoje, eu escutei. Inspire. Expire. O oceano estava respirando e, por um momento terrível e maravilhoso, senti como se estivesse respirando com ele.

Não esperei pela terça-feira. Não esperei pela permissão de Ryan, nem pelo horário dele, nem por sua ligação de rotina.

Levantei-me e fui até a cozinha. Preparei o café da manhã — mingau de aveia de verdade com canela e pêssegos frescos, fatiando a fruta que Ryan havia trazido para mim. Não comi mecanicamente. Comi devagar, sentindo a doçura, a textura, observando as partículas de poeira dançarem na luz da manhã. Parecia uma pequena rebelião. Nutrindo um corpo que eu pretendia usar.

Em vez do meu laptop, que repousava sobre a mesa como uma lápide cinzenta, peguei um caderno espiral gasto e uma caneta barata na gaveta de bagunças. Enfiei-os na minha bolsa de lona junto com uma garrafa de água.

Depois, olhei para o meu celular. Ele estava sobre o balcão, preto e reluzente. Um dispositivo de rastreamento. Uma coleira.

Deixei-o lá.

A ideia de deixá-lo para trás fez minhas palmas suarem, mas a ideia do nome de Ryan piscando na tela enquanto eu tentava me encontrar fez meu estômago revirar.

Tranquei a porta — hábitos eram difíceis de quebrar — e desci os degraus dos fundos.

Meu caminho particular até a praia estava coberto por grama de duna e aveia marinha, com a areia transbordando pelas ripas de madeira. Eu não caminhava por ali desde o acidente. Cada passo era uma negociação com o medo. Meu coração batia forte nos meus ouvidos, um rufar frenético. É apenas areia, eu disse a mim mesma. É apenas água. É apenas a borda do mundo.

Quando meus pés descalços finalmente tocaram a areia fria e compacta, um solavanco percorreu meu corpo. Algo que me aterrou. Real. Elétrico.

Não fui para a praia pública principal, onde os turistas se reuniam com seus guarda-sóis e rádios. Caminhei para o norte, em direção a uma enseada isolada, protegida por altos penhascos de calcário. Era um lugar onde Mark e eu costumávamos ir, mas a lembrança não doeu tanto hoje. Parecia... distante. Como olhar para uma fotografia antiga através de um vidro fumê. A dor estava lá, mas não estava sangrando.

Encontrei um lugar perto de um grande pedaço de madeira flutuante, branqueado pelo sol como os ossos de um leviatã. Sentei-me, enterrando os dedos dos pés na areia, sentindo os grãos se moverem e se assentarem. Abri meu caderno em uma página nova, em branco.

O papel branco era ofuscante sob o sol. Mas, ao contrário da tela branca e zombeteira do meu laptop, isso parecia convidativo. Imperfeito. Destampei minha caneta.

A água não é uma inimiga, escrevi. A tinta falhou, depois fluiu. É apenas água.

Não era poesia. Não era uma obra-prima. Mas era a verdade.

Respirei fundo, enchendo os pulmões com o ar salgado, sentindo o gosto da maresia, e olhei para o horizonte.

E então eu o vi.

Ele era uma silhueta contra o sol nascente, uma forma escura deslizando sobre a superfície da água azul-aço. Jonty.

Ele estava longe, esperando por uma série. Estava sentado sobre a prancha, subindo e descendo com o balanço do mar, completamente à vontade no elemento que mais me aterrorizava. Havia uma paciência em sua postura, uma reverência. Ele não estava lutando contra o oceano; estava esperando que ele falasse.

Então, o oceano cresceu. Uma onda começou a se formar, uma parede de água ganhando força, levantando-o. Jonty remou, braçadas suaves e poderosas que cortavam o espelho d'água. Ele ficou de pé em um movimento fluido, encontrando seu equilíbrio instantaneamente.

Assisti, hipnotizada. Ele não lutava contra a onda; ele dançava com ela. Ele traçava uma linha em sua face, a espuma voando como diamantes, movendo-se com uma graça que parecia impossível para alguém tão alto. Ele não estava conquistando a natureza; ele era parte dela.

Ele a surfou até o fim, descendo no raso pouco antes de a onda se transformar em espuma. Sacudiu o cabelo molhado, gotas de água voando em arco, e olhou para os penhascos.

Ele me viu instantaneamente.

Congelei, com a caneta pairando sobre o papel. Parte de mim queria se esconder atrás da madeira flutuante. Correr de volta para a segurança da casa. Mas não me mexi. Mantive minha posição.

Ele sorriu — um sorriso largo e desarmado que transformou seu rosto de estoico em juvenil — e começou a caminhar pela praia em minha direção, arrastando a prancha pelo leash. Ele usava uma roupa de mergulho preta abaixada até a cintura, expondo ombros largos e um peito brilhando com a água do mar.

"Bom dia", ele gritou, a voz rouca pelo sal e pelo esforço. "Matando o trabalho na mesa de escrita?"

Senti um rubor aquecer minhas bochechas, mas não desviei o olhar. "Algo do tipo. Eu precisava de... uma mudança de cenário. As paredes estavam se fechando demais."

Ele soltou a prancha na areia e sentou-se a alguns metros de distância, dando-me espaço, mas perto o suficiente para que eu pudesse sentir o cheiro do oceano em sua pele.

"Bom lugar para isso", disse ele, olhando para a água, o peito subindo e descendo ritmicamente. "A arrebentação aqui é limpa de manhã. Silenciosa. Sem turistas."

"Eu vi você lá fora", eu disse, gesticulando com a caneta. "Você faz parecer fácil."

Ele riu, um som grave que vibrou no ar entre nós. "Não se trata de ser fácil. Trata-se de confiança. Você tem que confiar que a água vai te sustentar, mesmo quando parece que quer te esmagar. Você tem que se entregar a ela."

Olhei para o meu caderno, traçando as linhas azuis. "Não ando muito boa em confiar ultimamente. Ou em me entregar."

"Confiança é um músculo, Olivia", disse ele suavemente, com o olhar intenso. "Ela atrofia se você não a usa. Assim como as pernas após uma longa doença. Você só precisa começar com pesos leves."

"Como ler um livro?", perguntei, encontrando seus olhos cinzentos.

"Como caminhar até a praia", rebateu ele, com um brilho de aprovação no olhar. "Como sentar na areia sem sair correndo. Como conversar com um estranho."

Caímos em um silêncio confortável. Não era um silêncio vazio; estava cheio do som das ondas e do grito das gaivotas. Pela primeira vez em anos, não senti necessidade de preencher o silêncio com desculpas ou explicações. Com Ryan, o silêncio era um vácuo que sugava o ar da sala, um teste no qual eu estava falhando. Com Jonty, o silêncio era apenas... paz.

Comecei a escrever novamente, apenas frases aleatórias, descrições da luz na água, a curva da madeira flutuante, a maneira como o cabelo de Jonty secava ao vento. Jonty observava o mar, ocasionalmente apontando um pelicano mergulhando ou uma mudança no vento, ensinando-me a linguagem da costa sem dar sermão.

"Sabe", disse ele depois de um tempo, "você deveria tentar algum dia. Só molhar os pés. O frio te desperta. Lembra que você está viva."

"Talvez um dia", eu disse, surpreendendo a mim mesma. "Não hoje."

"Não hoje", ele concordou prontamente. "Mas talvez amanhã."

Parecia uma promessa. Uma de verdade, não um fardo. Uma possibilidade.

Eu estava prestes a perguntar sobre a inscrição no livro, sobre o que ele quis dizer com "consertar o mundo real", quando o som de um motor cortou a paz.

Não era o zumbido distante do tráfego da rodovia. Era o rosnado distinto e agressivo de um motor pesado forçando a passagem pela estrada de acesso de areia — uma estrada destinada apenas a veículos de emergência.

Meu estômago afundou. A caneta escorregou dos meus dedos para a areia.

Um Ford Explorer cinza com uma barra de luzes no teto surgiu na duna. Não parou no estacionamento; avançou direto pela areia, os pneus abrindo sulcos profundos na praia intocada. Parecia um tanque invadindo um parquinho.

Parou a cinquenta metros de distância. O motor foi desligado, mas o silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

A porta se abriu. Ryan desceu.

Ele não estava usando seus óculos escuros. Seu rosto estava exposto, tenso com uma fúria tão fria que parecia baixar a temperatura na praia. Ele ficou parado ali por um momento, um monólito escuro contra o céu brilhante da manhã, encarando-nos. Encarando a mim, sentada na areia com meu caderno, despenteada e descalça. Encarando Jonty, seminu e relaxado ao meu lado.

Ele bateu a porta do carro. O som ecoou como um tiro.

Jonty ficou tenso. Ele não se levantou, mas sua postura mudou instantaneamente de relaxada para alerta. Seus músculos se retesaram. "Fique aqui", ele murmurou para mim, a voz baixa.

"Não", sussurrei, o pânico arranhando minha garganta. "Não diga nada. Por favor. Ele é... ele é protetor."

Ryan marchou pela areia. Ele se movia com o propósito aterrorizante de um homem que acredita estar certo, um homem que acredita estar limpando uma bagunça. Parou a três metros de distância, sua sombra projetando-se longa e escura sobre nós, bloqueando o sol.

Ele não olhou para Jonty. Olhou apenas para mim. Seus olhos eram estilhaços de gelo azul, penetrantes e possessivos.

"Olivia."

Sua voz era enganosamente calma, mas por baixo havia um tremor de raiva que eu nunca tinha ouvido antes. Não era preocupação. Não era proteção. Era posse.

Levantei-me apressadamente, apertando o caderno contra o peito como um escudo. Minhas pernas pareciam fracas, tremendo. "Ryan, eu só estava—"

"Entre no carro."

O comando saiu como um estalo de chicote.

"O quê?" Pisquei, atordoada pela humilhação pública, pela audácia pura.

"Eu disse, entre no carro. Agora. Você não está segura aqui."

Jonty levantou-se lentamente, revelando sua altura até ficar ao nível dos olhos de Ryan. Ele era uns dois centímetros mais alto, mais magro, mas irradiava um tipo diferente de força. "Ela não está sob prisão, Sheriff. Você não pode dar ordens a ela como se fosse uma suspeita. Ela é uma mulher adulta."

A cabeça de Ryan virou-se bruscamente para Jonty. O olhar que ele lhe deu foi de puro ódio, sem filtros. Um olhar reservado para um combatente inimigo.

"Fique fora disso", rosnou Ryan, sua mão contraindo-se perto do cinto, perto do distintivo. "Isso é assunto de família. Você não sabe com quem está lidando."

"Acho que tenho uma ideia muito boa", disse Jonty, a voz firme, inabalável. Ele deu meio passo à frente, colocando-se ligeiramente entre mim e Ryan. Um escudo.

Ryan aproximou-se, invadindo o espaço de Jonty, peito a peito. "Fique longe dela. Não vou avisar de novo. Você é um cachorro vira-lata nesta cidade, e eu sou a carrocinha."

Ele voltou-se para mim, estendendo a mão. "Liv. O carro. Vou levar você para casa. Não é seguro aqui. Você não o conhece."

Olhei para a mão dele — a mão que trouxera mantimentos para mim ontem, a mão que segurara a minha no funeral de Mark. Agora, parecia uma garra. Olhei para Jonty, mantendo-se firme, uma barreira silenciosa.

"Olivia!", latiu Ryan, sua paciência se esgotando. Ele deu um passo em minha direção, estendendo a mão para o meu braço, seus dedos se fechando como garras.

Continua...

O autor está dedicando todo o seu coração aos capítulos restantes, a versão completa estará disponível em breve! Nós o notificaremos por e-mail quando este romance for concluído! ❤️

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