TaleSpace

The Surf & Spine

A porta da frente se abriu com um estrondo que sacudiu os quadros pendurados no corredor, fazendo o vidro chacoalhar.

Ryan entrou como um furacão, com a mão descansando instintivamente no cabo de sua arma de serviço, a postura baixa e alerta. Ele não parecia mais um cunhado preocupado trazendo mantimentos; parecia um soldado fazendo a varredura em um ambiente hostil. Seus olhos percorreram a cozinha em uma fração de segundo, avaliando ameaças, calculando ângulos, procurando por inimigos que não estavam lá.

"Você está bem?", ele exigiu, com a voz ríspida, cortando o eco persistente da porta batendo.

Ele reduziu a distância entre nós em dois passos longos, segurando meus ombros. Seu aperto era forte — forte demais. Seus dedos se cravaram no meu cardigã, pressionando contra o osso. Não era um abraço; era uma contenção. Era uma reivindicação.

"Estou bem, Ryan", eu disse, tentando recuar um pouco, mas ele me segurou firme, ancorando-me no lugar. "Você não precisava arrombar a porta. Eu disse que estava bem."

"Mrs. Hayes disse que ele estava bem aqui na varanda. Exatamente onde eu estava há cinco minutos. Você o viu? Ele tentou entrar?"

"Não. Ninguém tentou entrar. Eu nem vi ninguém."

O olhar dele desceu do meu rosto para as minhas mãos, que ainda agarravam o livro azul atrás das minhas costas. Eu não tinha sido rápida o suficiente. Eu nunca era rápida o suficiente para ele.

"O que é isso?"

"Nada", eu disse, a mentira com gosto de cinzas na minha língua. Meu coração martelava contra a capa do livro. "Apenas... algo que encontrei."

Ele esticou o braço e arrancou o livro das minhas mãos antes que eu pudesse protestar. A perda foi física, como uma queda repentina de temperatura. Ele o ergueu, franzindo a testa enquanto lia o título, o polegar esfregando agressivamente as letras douradas. Ele o virou para inspecionar a parte de trás e depois o abriu, vincando a lombada.

"The Surf & Spine..." Ele leu a inscrição na contracapa em voz alta, o lábio se curvando em desdém. "Aquele livreiro excêntrico. Jonty não sei das quantas. Eu te falei sobre ele, Liv. Ele é problema. Um andarilho. Não se encaixa."

"É só um livro, Ryan."

"É uma abordagem não autorizada", ele corrigiu, aumentando o tom de voz. Ele jogou o livro na bancada de granito. Ele caiu com um baque pesado, deslizando pela superfície até atingir a fruteira. "Pessoas normais não andam sorrateiramente por casas deixando pacotes sem dizer uma palavra. É um comportamento estranho. Obsessivo. Perseguição."

Obsessivo. A ironia era tão densa que quase me sufocou. Olhei para o homem que verificava meus sensores de movimento diariamente e conhecia meu horário de sono melhor do que eu mesma.

Ele marchou até a porta dos fundos, verificando a tranca que eu já havia passado. Depois verificou as janelas, sacudindo as molduras. Então espiou pelas persianas, varrendo as dunas como um predador em busca de território rival.

"Vou pedir para um patrulheiro passar por aqui a cada hora esta noite", anunciou ele, virando-se para mim, com o rosto endurecido em linhas sombrias. "E vou ter uma conversinha com esse tal de Jonty. Puxar a placa dele, se ele tiver um carro. Deixar que ele saiba que assediar a família do Sheriff não é um modelo de negócio inteligente nesta cidade."

"Não faça isso", eu disse, a palavra saindo mais afiada do que eu pretendia.

Ryan parou, inclinando a cabeça. O silêncio se estendeu, tenso como um fio de aço. "Não fazer o quê?"

"Não o assedie. Ele deixou um livro. Ele não invadiu a casa. Por favor, Ryan. Eu não quero uma cena. Não quero todo mundo na cidade comentando como o Sheriff teve que salvar a pobre e indefesa Olivia de um bibliotecário. Estou cansada de ser a tragédia da cidade."

Ele me encarou por um longo momento, o maxilar tenso. Prendi a respiração, esperando pela explosão. Finalmente, ele suspirou — o suspiro longo e sofrido de um homem que carrega o peso do mundo nos ombros, um homem incompreendido em sua benevolência.

"Só estou tentando manter você segura, Liv. Você não tem ideia do tipo de gente que existe por aí. Você vive em uma bolha." Ele se aproximou e afastou uma mecha rebelde de cabelo da minha testa. Sua mão estava quente, calejada e aterrorizantemente gentil. Tive que lutar contra cada instinto do meu corpo para não recuar. "Tudo bem. Não irei lá hoje. Mas se ele voltar, se você vir sequer uma sombra, me ligue imediatamente. Entendeu?"

"Entendi."

"Tranque a fechadura depois que eu sair. E coloque a cadeira sob a maçaneta."

"Eu vou colocar."

Quando seu carro finalmente se afastou pela estrada de cascalho, as lanternas traseiras vermelhas desaparecendo no crepúsculo, eu não tranquei a fechadura imediatamente. Fiquei parada no centro da minha cozinha, tremendo.

Caminhei até o balcão e peguei o livro. Alisei a capa onde ela havia batido na pedra.

Ryan chamou aquilo de estranho. Chamou de ameaça.

Eu o abri e senti o cheiro das páginas. Tinha cheiro de possibilidade. Tinha cheiro de convite.

A noite foi longa. O vento uivava nos beirais da casa, sacudindo as janelas como um espírito inquieto. A cada hora, eu via o clarão dos faróis no meu teto enquanto uma viatura passava — a promessa de Ryan mantida, vigiando-me mesmo enquanto eu dormia.

Só que eu não dormi.

Sentei-me no banco da janela, enrolada em um cobertor, lendo. As palavras no livro fluíam como água, despretensiosas e profundas. Era uma história sobre uma mulher que aprendeu a velejar depois de perder tudo. Não era apenas uma história; era um mapa.

Pela manhã, a casa parecia menor. As paredes pareciam ter se aproximado durante a noite, o teto mais baixo. O silêncio, que costumava ser meu cobertor pesado, agora parecia uma mortalha.

Fiquei no corredor, encarando meu reflexo no espelho antigo. Pele pálida, olheiras profundas sob olhos que costumavam ser brilhantes, um suéter bege folgado engolindo meu corpo. Eu parecia um fantasma assombrando a própria vida.

A Arte de Respirar Novamente.

Enfiei o livro na minha velha bolsa de lona, enterrando-o sob uma garrafa de água e minha carteira. Meu coração martelava um ritmo frenético contra minhas costelas — tum-tum-tum — avisando-me para parar. Fique dentro, ele dizia. Dentro é seguro. Fora é o caos. Fora é onde Mark morreu.

Peguei minhas chaves antes que pudesse mudar de ideia.

Sair da varanda pareceu como saltar de um penhasco. A luz do sol matinal era agressiva, brilhante demais, expondo tudo. O vento estava barulhento, despojando-me da quietude a que eu estava acostumada. Mas, quando meus pés tocaram o asfalto da estrada que levava à cidade, o mundo não acabou. O céu não desabou.

Eu caminhei.

Era um quilômetro e meio até a cidade. Minhas pernas pareciam fracas no início, desacostumadas a qualquer coisa que não fosse a distância entre o quarto e a cozinha. Mas, a cada passo, o ritmo assumia o controle.

Mantive a cabeça baixa, evitando contato visual com as poucas pessoas por quem passei na Main Street. Senti os olhares deles de qualquer maneira — pesados, pegajosos de piedade e reconhecimento. "Lá vai a viúva", eles pensavam. "Veja como ela está magra." "Ela nunca mais foi a mesma." "Ela tem permissão para sair sem o Sheriff?"

Caminhei mais rápido, apertando a bolsa contra o corpo.

The Surf & Spine Bookstore ficava na extremidade da Main Street, onde o asfalto dava lugar à areia e à vegetação costeira. Era um edifício vitoriano castigado pelo tempo que parecia ter brotado da paisagem, em vez de ter sido construído sobre ela. A hera reivindicava metade da fachada, e a tinta estava descascando de um jeito que parecia charmoso, em vez de negligenciado. A placa era de madeira pintada à mão, balançando suavemente com a brisa.

Hesitei à porta. Meu reflexo no vidro parecia aterrorizado — um cervo pego pelos faróis. Volte. Ryan nunca saberá. Você pode estar em casa em vinte minutos.

Empurrei a porta.

Um sino tocou — não um sinal sonoro eletrônico, mas um sino de latão real, límpido e ressonante.

O ar lá dentro mudou instantaneamente. A atmosfera estéril e ansiosa da rua desapareceu, substituída pelo aroma rico e reconfortante de papel antigo, cera de abelha e café forte. Mas, por baixo de tudo, havia o toque nítido e limpo do oceano.

A loja era um labirinto de estantes imensas que chegavam ao teto, criando nichos aconchegantes e caminhos sinuosos. Estava silencioso, mas não era o silêncio morto da minha casa. Era um silêncio confortável, do tipo que vibra com histórias em potencial.

"Já vou atender", uma voz chamou do fundo.

Caminhei mais para o interior da loja, passando os dedos pelas lombadas dos livros. A parede do fundo não era uma parede; era um enorme conjunto de portas francesas, escancaradas. Além delas, havia um deque de madeira e, depois, as dunas e o mar revolto. A loja não bloqueava o oceano como a minha casa fazia; ela o abraçava.

Um homem surgiu de uma sala lateral, carregando uma pilha de livros de bolso. Ele parou quando me viu.

Ele era alto, mais alto que Ryan, mas sem aquela massa volumosa e imponente. Era magro, com o porte de um nadador ou corredor. Usava uma camiseta cinza desbotada e jeans que já tinham visto dias melhores, desfiados nas bainhas. Seu cabelo era escuro e desalinhado pelo vento, comprido demais para ser considerado "respeitável" naquela cidade. Havia uma quietude nele que parecia desconcertante após a energia constante e cinética de Ryan.

"Você o encontrou", disse ele. Não era uma pergunta. Era uma afirmação.

Ele colocou os livros sobre uma mesa e encostou-se no balcão. De perto, vi uma cicatriz fina e irregular cortando sua sobrancelha esquerda. Não o fazia parecer perigoso; fazia-o parecer alguém que tinha uma história. Como se ele também tivesse sobrevivido a algo.

Apertei a alça da minha bolsa até meus dedos doerem. "Você deixou um pacote na minha varanda."

"Deixei."

"Meu cunhado... o Sheriff... ele acha que você é um perseguidor. Ele queria puxar a sua placa."

Um canto da boca dele se elevou. Não era um sorriso de deboche, apenas divertido. "Já fui chamado de coisas piores. Geralmente 'excêntrico' ou 'recluso'. Perseguidor é nova. Vou adicionar ao currículo."

"Por quê?", perguntei, a questão saindo sem fôlego. "Por que eu? Eu nem te conheço. Não falo com um estranho há dois anos."

Ele olhou para mim então — olhou de verdade. Seus olhos eram cinzentos, da cor de vidro do mar, e não me esquadrinhavam em busca de ameaças ou danos. Eles não me olhavam com aquele pesar de "viúva". Eles apenas viam.

"Eu lia a sua coluna", disse ele calmamente. "No Gazette. Antes."

Fiquei rígida, minhas defesas subindo. "Isso foi há muito tempo. Outra vida."

"Você escrevia sobre o mar. Escrevia sobre como a maré leva as coisas, mas também as traz de volta." Ele fez uma pausa, seu olhar desviando para as portas abertas atrás dele. "Eu vi você sentada na varanda ontem. Parecia alguém esperando a maré trazer algo de volta, mas com medo de molhar os pés. Achei que talvez uma história ajudasse a passar o tempo."

Minha garganta apertou. Ele não estava com pena de mim. Ele estava me desafiando.

"Eu não leio muito mais", disse eu, defensivamente. "E com certeza não escrevo. As palavras sumiram."

"É uma pena", disse ele simplesmente. Ele não insistiu. Não ofereceu clichês sobre como "o tempo cura" ou "você só precisa tentar". "Bem, o livro é seu. Guarde, leia, queime. O que você precisar."

"Eu..." Eu não sabia o que dizer. Ryan teria me dito o que fazer. Ryan teria lidado com essa interação, filtrado-a para mim. Mas Ryan não estava aqui. Eu estava fora do mapa.

"Sou Jonty", disse ele, oferecendo a mão por cima do balcão.

Olhei para a mão dele. Grande, calejada, com uma mancha de tinta no polegar. Uma mão de quem trabalha.

"Olivia", sussurrei.

Apertei a mão dele. Seu aperto era firme e seco, e um calor subiu pelo meu braço, assustador em sua intensidade. Não foi apenas um aperto de mãos; pareceu uma âncora sendo lançada para um navio à deriva.

"Eu sei quem você é, Olivia", disse ele suavemente, soltando minha mão, mas mantendo o olhar. "Todo mundo sabe quem você é. Mas acho que ninguém sabe como você está."

O sino acima da porta tocou novamente, quebrando o feitiço. Um casal de turistas entrou, conversando alto sobre protetor solar.

Dei um passo para trás, subitamente sobrecarregada pelo barulho, pela conexão, pela pura realidade de tudo aquilo. "Eu preciso ir."

"Volte", disse ele. Não era uma ordem. Não era uma exigência. Era um convite. "O café é decente. E a vista é melhor ainda."

Virei-me e fugi, apertando a bolsa contra o peito.

Caminhei para casa com a cabeça erguida, lutando contra o vento. Meu coração ainda estava acelerado, mas não de medo. Senti um estranho frisson ilícito formigando sob minha pele. Eu havia desobedecido a Ryan. Havia saído da minha gaiola.

E, pela primeira vez em dois anos, eu conhecera alguém que não olhou para mim e viu uma tragédia. Ele apenas viu uma mulher que precisava de um livro.

Eu não tranquei a fechadura quando cheguei em casa.

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