TaleSpace

Capítulo 2. Uma Questão de Confiança

Minha respiração falhou. As palavras na página não pareciam apenas impressas; pareciam marcadas a ferro.

— Inspirador? — Minha voz tremeu.

"Inspirador... Que palavra arrogante e bizarra", minha mente disparou. "Não 'Artista', não 'Criador'. Inspirador. Como se ele não fosse extrair inspiração de mim, mas sim criá-la em mim, como um químico criando uma reação em um tubo de ensaio. A palavra exalava frieza e controle absoluto".

— Isso é... isso é loucura — consegui dizer, recuando um passo. — Você não pode... Isso é antiético. Vai contra todas as regras da universidade.

— Eu sou as regras, Miss Hayes — o olhar dele se tornou gélido. — Pelo menos, neste estúdio. Não sou apenas um artista; sou um arquiteto de sentimentos. Exijo material puro. Não posso permitir que minha musa "contamine" suas emoções com casos triviais e externos. Exijo sua concentração total, cem por cento. Física e emocional.

Ele caminhou até a janela e observou o campus. — Davies lhe disse que eu era pouco convencional. Este é o preço da genialidade. Da sua e da minha. Sua tese se tornará uma obra-prima porque você finalmente escreverá sobre o que vivencia, não sobre o que lê.

Fiquei em silêncio, pesando freneticamente minhas opções. Cinco anos de trabalho contra... o quê? Vender-me para uma escravidão intelectual? Ou seria esta a minha única chance?

— Isso não significa que nos tornaremos amantes, Sophia — disse ele, como se lesse meus pensamentos. — Significa que, se nos tornarmos, fará parte do processo. Assim como tudo o mais. Esta regra é sobre exclusividade. Sobre controlar as variáveis. Como acadêmica, você deveria entender isso.

Ele se sentou novamente à mesa. — Você tem até amanhã de manhã. Nove horas em ponto. Se você aparecer, assinaremos o restante. Se não... boa sorte com o conselho.

Fui dispensada.

Não dormi a noite toda. Caminhei de um lado para o outro no meu minúsculo apartamento alugado, relendo a tinta vermelha nas margens da minha tese. Pesquisei Jared Thorpe no Google. "Gênio", "provocador", "escândalo", "vendas multimilionárias". E, em meio a tudo isso, um link pequeno e enterrado. Uma postagem em um blog da universidade de dois anos atrás, intitulada: "Para onde foi Elena Ross?"

Elena Ross. Uma brilhante estudante de pós-graduação, a protegida anterior de Jared Thorpe. Ela havia ganhado uma bolsa prestigiada por um artigo que ele supervisionou. E então... ela simplesmente desapareceu. O artigo mencionava um "período sabático criativo" e "problemas de saúde".

Um calafrio percorreu minha espinha.

Às 8h59, eu estava diante da porta do estúdio dele. Minhas mãos tremiam, mas minha mente estava decidida. Eu havia feito minha escolha.

Toquei a campainha.

Ele abriu imediatamente, vestido com um terno perfeitamente sob medida, como se não tivesse dormido nada. Não parecia surpreso.

— Eu aceito — minha voz saiu mais firme do que eu esperava.

Jared Thorpe assentiu, deixando-me entrar. Uma pasta grossa — o contrato — já estava sobre sua mesa.

— Bom — disse ele. — Mas antes de assinarmos qualquer coisa, há algo que você precisa ver. Você é uma garota inteligente. Você me pesquisou. Encontrou a Elena?

Meu coração disparou. Assenti em silêncio.

— Imaginei.

Ele me conduziu até o outro lado do estúdio, em direção a uma tela enorme coberta por um pano branco simples.

— Elena foi minha musa anterior — disse ele. — Ela era incrivelmente talentosa. Mas ela... quebrou.

Com um movimento brusco, ele puxou o pano da tela.

Perdi o fôlego. Era o retrato de uma mulher — inquestionavelmente Elena. Incrivelmente bela. E completamente louca. Ela estava retratada gritando, mas seu grito era silencioso, preso dentro da tela. Era a obra de arte mais brilhante e a mais aterrorizante que eu já vira.

— Ela está em uma clínica psiquiátrica particular na Suíça agora — disse Jared calmamente. Sua voz era monótona, declarando um fato. — É importante que você entenda todos os riscos, Sophia. Este contrato não é um jogo.

Ele esperava que eu ficasse aterrorizada. Esperava que eu fugisse, como qualquer estudante sensata faria após ver a prova do perigo com o qual estava se comprometendo.

Mas, ao olhar para aquele retrato, não vi apenas a loucura. Vi a genialidade. Vi a própria "vida" que faltava tão desesperadamente na minha tese. Vi o poder que Jared Thorpe conseguira extrair de Elena, mesmo a um custo tão terrível.

Uma determinação fria e ressonante me preencheu. Eu não era Elena. Eu não iria quebrar.

Afastei-me lentamente do retrato e olhei diretamente em seus olhos, encontrando seu olhar pesado e avaliador.

— Eu entendo os riscos — disse com firmeza. — Onde está o resto do contrato?

Jared Thorpe me encarou por um longo segundo, e pensei ter visto algo brilhar na profundeza de seus olhos escuros. Algo como... respeito.

— Na minha mesa — ele assentiu e me conduziu de volta.

O capítulo 2 está pronto

Insira seu email para continuar lendo

4.9 de 5.700+ leitores
Já tem uma conta? Entrar