Aquele foi o dia em que aprendi que o desespero tem um preço. O meu valia exatamente o mesmo que uma assinatura no rodapé do contract dele.
Tudo começou horas antes, no silêncio sufocante da sala do meu orientador, um cômodo que cheirava a poeira e esperanças mortas. Cinco anos da minha vida terminaram com um único gesto. Ele empurrou minha tese de volta com a ponta dos dedos, como se tocasse em algo impuro.
— Acabou, Sophia — suspirou o Professor Davies, limpando os óculos. Seus olhos velhos me olhavam com piedade, o que era muito pior do que raiva. — Não posso aprovar isso. É... um texto natimorto. Não há uma única centelha de vida nele. Cinco anos, e tudo o que você escreveu foi uma análise seca das ideias de outras pessoas. Onde está você?
Engoli o nó na garganta. — Professor, eu posso reescrever... eu posso...
— Você não tem tempo — ele me interrompeu. — O conselho se reúne em três semanas. Você será expulsa. Sinto muito.
O pânico me atingiu em uma onda gelada. Expulsão. Não era apenas fracasso. Significava perder minha bolsa, ficar inadimplente com meus empréstimos estudantis e um retorno vergonhoso para a cidadezinha cinzenta da qual eu havia lutado tão desesperadamente para escapar.
— Não... tem que haver um jeito — sussurrei, agarrando-me ao último fio de esperança.
O Professor Davies ficou em silêncio, tamborilando os dedos na mesa. — Sempre há um jeito. Só tenho medo de que você não goste dele. — Ele olhou pela janela, como se hesitasse até em pronunciar o nome. — Temos uma estrela visitante no Art department agora. Jared Thorpe.
O nome soou como um estrondo de trovão. Jared Thorpe. O gênio. O provocador. O artista e crítico cujas exposições atraíam milhões e cujos artigos iniciavam escândalos. Ele era conhecido por sua habilidade de construir uma carreira — ou destruir uma — com uma única palavra.
— Ele é... ele é um artista — gaguejei. — Estou escrevendo sobre pós-modernismo...
— Ele é aquilo sobre o que você está tentando escrever — Davies voltou a olhar para mim. — Paixão. Obsessão. A simbiose entre criador e Muse. Ele é o único que pode salvar este trabalho. Mas Thorpe... ele é um homem difícil, Sophia. Ele não aceita alunos. Ele aceita... material. E os métodos dele... digamos que são pouco convencionais.
Ele me dera apenas um nome, mas sua voz carregava uma mistura de medo e admiração, daquela forma como se fala de um desastre natural.
Uma hora depois, eu estava do lado de fora do seu estúdio. Ele ficava na ala mais nova e toda de vidro da university e parecia mais a entrada da cobertura de um bilionário do que a sala de um Professor. Uma porta de vidro preto fosco. Sem placa com nome. Minha mão pairou sobre a campainha, com apenas uma pergunta martelando em minha cabeça: o que eu estava disposta a fazer para evitar perder tudo?
Finalmente a pressionei.
Ele mesmo abriu a porta. O Professor Jared Thorpe, em pessoa, parecia ainda mais impressionante do que nas capas de revista: alto, vestindo uma camiseta preta simples suja de tinta, com olhos escuros e penetrantes que pareciam me escanear e analisar por completo. Ele silenciosamente gesticulou para que eu entrasse.
O Jared's studio era vasto, cheio de luz, com janelas panorâmicas que se estendiam por toda a parede. Cheirava a solvente, café e algo mais — uma colônia masculina profunda.
— Davies disse que você tem problemas — a voz dele era baixa e constante, sem o menor traço de simpatia. Ele pegou minha infeliz tese, folheou-a casualmente, e um sorriso cínico tocou seus lábios. — "The Symbiosis of Creator and Muse in Postmodernism". Audacioso. Especialmente para alguém que escreve sobre paixão como se estivesse lendo o manual de instruções de um micro-ondas.
Cada uma de suas palavras foi um golpe direto.
— Embora... haja algo em você — ele de repente me circulou, estudando-me como um predador à sua presa. Congelei, incapaz de me mover. — Um fogo. Você está com raiva, e isso é real. É a única coisa real que vejo em você agora.
Ele parou na minha frente, perto demais.
— Posso salvar seu trabalho — ele finalmente disse. — Vou transformá-lo em uma sensação. Mas em troca... você se tornará minha Muse. Imersão total. Sem mentiras, sem esquivas.
Bufei, tentando esconder minha perplexidade sob uma máscara de sarcasmo. — O quê, posar nua para você? Isso é tão século passado, Professor.
O Professor Thorpe ignorou minha audácia. Ele caminhou até sua mesa, tirou uma única folha de uma luxuosa pasta de couro e a colocou diante de mim. Não parecia um documento jurídico completo, mais como um ultimato.
— Este não é o contract inteiro — a voz dele tornou-se mais suave, mais íntima. — Esta é a condição principal. Se você não a aceitar, ler o resto é inútil.
Inclinei-me sobre a folha. No centro, em uma fonte elegante, estava impressa uma única frase.
"Rule #1: For the duration of this contract, the Muse shall abstain from any romantic or sexual contact with anyone other than the Inspirer."

