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Capítulo 2

Por alguns segundos depois que Leonal se afastou, Mira não conseguiu respirar.

A noite pressionava fria e fina ao seu redor, e sua pele ainda ardia onde a mão dele havia fechado sobre a dela. O choque percorreu-a como uma réplica. Sua palma formigava como se a impressão do toque dele tivesse ido mais fundo que a pele.

Ela tentou se steadear, mas a praça parecia inclinada.

Leonal estava a alguns passos de distância agora, ombros tensos sob o casaco. Mantinha a mão direita um pouco atrás de si, meio escondida. Sua respiração vinha em rajadas rasas e controladas, como se forçasse cada uma entre os dentes.

Quando falou, sua voz era baixa e forçada, próxima de algo não inteiramente humano. „Você não deveria estar do lado de fora à noite. Especialmente não sozinha."

„Eu não estava planejando um passeio", disse Mira, mais fina do que gostaria. Colocou força nisso. „Só queria chegar ao meu quarto."

Ela engoliu em seco. Corajosa ou imprudente, não sabia dizer, mas sua mente já corria para organizar o que acabara de ver.

„O que foi aquilo?" ela exigiu. „Quando eu te toquei. O que aconteceu?"

O maxilar dele contraiu. Seu olhar saltou para a mão dela e se desviou.

„Você não deveria ter me tocado", ele disse. „E eu não deveria ter reagido."

„Isso não é uma resposta."

„É a única que você vai ter agora."

Ela soltou uma respiração trêmula e deu um passo mais perto, apesar dos sinos de alarme em sua cabeça. „Eu vi sua mão, Leonal. Vi suas unhas mudarem." Ela gesticulou em direção à mão escondida. „Fisiologia normal não faz isso."

Os olhos dele estalaram para os dela, âmbar afiado sob a luz da lâmpada. Ele deu um passo para dentro, e o ar pareceu apertar, morno contra o vento cortante.

„Escute-me, Mira Hale." O jeito como ele disse seu nome desceu por sua espinha; soou menos como um nome do que como uma reivindicação. „Este vale não funciona pelas regras que você conhece. Existem coisas antigas aqui. Leis antigas. E eu não sou exceção a elas."

Ele lançou um olhar para a massa escura da floresta além das últimas casas, as árvores uma parede negra contra as estrelas.

„Existem forças que despertam quando o sol se põe", ele disse. „Forças que você ainda não entende."

„Como seus forest rulers?"

Algo cruzou seu rosto, raiva ou respeito cauteloso ou algo mais antigo. „Não fale deles de ânimo leve."

Ela cruzou os braços, mais defesa do que desafio. „Estou tentando aprender as regras locais para não quebrá-las. É o que eu faço. Eu encontro fatos."

„Você não precisa entender. Não esta noite. Esta noite você precisa sobreviver."

„Sou jornalista. Entender é o trabalho."

„E o meu trabalho", ele disparou, entrando em seu espaço, „é manter você respirando."

Aquilo a atingiu mais forte do que ela esperava. O vento deslizou pela praça, pinho e pedra fria, e sob isso algo dele, ozônio e almíscar. Pela primeira vez desde que chegara ela se sentiu verdadeiramente exposta. Não apenas ao clima. A ele.

Ele pareceu sentir que tinha se aproximado demais, e sua postura relaxou, embora a tensão de arame não o abandonasse.

„Você precisa ficar dentro de casa", ele disse, mais baixo. „Todas as noites. Até eu te dizer o contrário. Você entende?"

„Não", disse Mira honestamente. „Não entendo nada disso. Mas tudo bem."

Ele deu um passo à frente novamente. Ela recuou até a espinha encontrar a porta da pensão. Ele parou a centímetros de distância. Mesmo através da jaqueta ela podia sentir seu calor, antinatural, quase febril.

„Você já viu demais", ele disse, sua voz roçando sua pele. „Mais do que deveria."

„Então me diga por quê", ela sussurrou.

Os olhos deles se travaram, e por um momento a máscara caiu completamente. Ela viu a guerra em seu rosto, medo contra uma fome terrível e devoradora.

„Porque eu não esperava isso", ele disse em voz baixa. „E isso torna tudo mais perigoso."

Um arrepio percorreu-a que não tinha nada a ver com o frio.

„O que acontece agora?"

„Agora", ele disse, suave mas firme, „você entra, tranca sua porta, e não abre até o sol tocar estas pedras."

Ele estendeu a chave que ela havia deixado cair, segurando-a pela própria borda do latão, cuidadoso para não tocá-la novamente. Mesmo assim, quando ela a pegou, o ar entre seus dedos crepitou. Os ombros dele tensaram como se a proximidade doesse.

„Esta é a última fronteira que você testa esta noite", ele murmurou, as palavras engrossando em direção a um rosnado. „Você me entende?"

A palavra fronteiras pesou densa. Ele não estava falando dos limites da cidade.

Ela assentiu, incapaz de falar, e deslizou a chave na fechadura. Antes que pudesse girá-la, a voz dele a alcançou novamente, baixa e quase relutante.

„Seja lá o que a trouxe aqui", ele disse, e hesitou, „existem razões mais profundas que você ainda não descobriu."

„Então estou em perigo?" ela perguntou, a mão na porta.

Os olhos dele brilharam fracamente, brilhantes demais para um homem humano. „Estou dizendo que este vale não tolera forasteiros sem propósito. E seu propósito ainda está oculto de você."

Ele parecia querer dizer mais. Em vez disso, recuou para as sombras, cortando a conexão.

„Boa noite, Mira."

„Boa noite", ela sussurrou.

Ele entrou na SUV. Os faróis permaneceram apagados, e ela o observou dirigir-se com precisão perfeita, como se a escuridão o guiasse em vez de cegá-lo.

Quando o motor esmoreceu e o silêncio retornou, Mira fechou a porta, atirou a tranca, e afundou no chão. Suas pernas tremiam.

„Que diabos", ela respirou.

Sua palma ainda ardia.

O quarto cheirava a madeira velha e poeira, o vento chacoalhando o vidro. Ela conferiu a tranca novamente, depois arrastou uma cadeira pesada e a encostou sob a maçaneta.

Só então ela se sentou na cama e abriu seu caderno. Suas mãos tremiam, dentando a letra.

Anotações, Dia 1:

A cidade está apavorada. Locais se recusam a falar sobre os desaparecimentos.

„Forest rulers" mencionados múltiplas vezes. Superstição? Ou código para uma gangue local?

Prefeito Leonal Dravien: única figura de autoridade encontrada. Perigoso. Imprevisível.

Fenômeno: reação física ao toque. Descarga estática? Alucinação?

Observação: as mãos dele. Eu vi garras. Eu sei o que vi.

Ela encarou a última linha. Eu sei o que vi.

Na cidade ela teria descartado como um truque de luz. Aqui, com as montanhas contra a janela e o ar cheirando a ozônio, a lógica parecia um escudo fino.

„Você não tem ideia do que acabou de despertar."

Ela sublinhou a citação duas vezes, com força suficiente para rasgar o papel.

Um som a fez congelar.

Não um galho. Não o vento. Movimento pesado e deliberado do lado de fora de sua janela.

Mira apagou a lâmpada, mergulhando o quarto na escuridão, e rastejou até o vidro. Prendeu a respiração e olhou através da fresta nas cortinas.

A praça estava vazia. Mas muito além da cidade, fundo na garganta do vale, um som ergueu-se. Um uivo baixo e arrastado.

Não era um cachorro. Não era um lobo, pelo menos não como qualquer lobo de documentário de natureza. Mais profundo. Ressoava em seu peito, um som de poder solitário.

Seu coração martelou. Ela encarou a linha das árvores e teve certeza, por um instante, de que viu uma sombra se destacar da escuridão e deslizar entre os pinheiros. Era massiva. E estava observando.

O sono não veio fácil. Toda vez que fechava os olhos ela via âmbar queimando na noite, prometendo respostas que ela não tinha certeza de que poderia sobreviver.

It's just getting good…

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