Quando o ônibus bufou até o vale, o crepúsculo já se espalhava pelo céu em veios arroxeados.
Mira Hale encostou a testa no vidro frio e observou as montanhas se fecharem ao redor da estrada. Pinheiros amontoavam-se nas encostas em massas escuras e irregulares contra a luz em fraqueja. Nenhuma placa de publicidade por aqui, nenhum neon, nenhum espalhamento de subúrbios, apenas pedra e floresta e um céu que afundava do azul para um violeta pesado.
Quase podia sentir o sinal do celular morrendo no bolso.
— Fim da linha — o motorista gritou por cima do ombro, seu sotaque engrossando o inglês. — Cidade de Vargaria. Última parada antes da fronteira.
Mira soltou o ar, descolou-se do vidro e se levantou. A mochila caiu com peso excessivo quando a arrastou do compartimento. Não era só o laptop e as roupas. O luto tinha peso. As expectativas também.
A voz da editora ainda arranhou o fundo de sua mente. Desaparecimentos. Uma região inteira. Polícia dando de ombros. Vá descobrir por que, Hale. E não volte com folclore.
Ela desceu do ônibus na friagem do entardecer.
A cidade agarrava-se ao fundo do vale como algo que tivesse crescido ali em vez de ter sido construída. Ruas estreitas serpenteavam entre casas de pedra com telhados escuros e íngremes; finas plumas de fumaça subiam das chaminés para o cinza que se adensava. Janelas brilhavam timidamente contra o azul que se aprofundava.
Lá no alto, em um destaque rochoso, algo maior pairava: muros, torres, a sugestão dentada de ameias contra o céu. Não exatamente um castelo, mas próximo o suficiente para arrepiar os pelos de seus braços.
Ela ajustou a mochila mais para cima e respirou fundo. Terra molhada, fumaça de chaminé, resina de pinheiro, e sob tudo isso um doçura selvagem e tênue que não conseguia identificar.
Bem-vinda ao nada, pensou. População: assustada e silenciosa.
O ônibus gemeu e se afastou atrás dela, lanternas traseiras besuntando vermelho pelas pedras molhadas antes de desaparecerem numa curva. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo vento que se enfiava pelas ruas e pelo rugido de água em algum lugar na escuridão.
A praça da cidade era pequena e irregular, calçada com paralelepípedos, as pedras polidas por décadas de botas e clima. Alguns carros estacionavam sob lampiões fracos. Do outro lado da praça ela encontrou o que queria: uma estalagem com uma placa de madeira a pender e luz quente através de vidros grossos.
Lá dentro, o ar envolveu-a, calor e cheiro de ensopado e cerveja e verniz antigo. A conversa mergulhou quando ela entrou, depois retomou mais baixa. Olhos percorreram-na, curiosos, desconfiados, displicentes, e deslizaram para longe.
Atrás do balcão, uma mulher por volta dos cinquenta com uma trança escura longa limpava as mãos e avaliava Mira de cima a baixo.
— Boa noite — disse. Inglês fluente, a cadência local suave por baixo. — Você é a jornalista.
Mira pestanejou.
— Nossa. As notícias viajam rápido.
— Num lugar tão pequeno, tudo viaja rápido. — Ela acenou com a cabeça para uma mesa à janela. — Sente-se. Vou trazer algo quente. Esfria depressa quando o sol vai embora.
Mira não argumentou. Seu estômago era um nó vazio e apertado havia horas. Ela se acomodou na cadeira, colocou a mochila aos pés e tirou um pequeno caderno. Gostava de ter algo físico para escrever. Arquivos digitais desapareciam; papel parecia que duraria um pouco mais.
A mulher voltou com ensopado espesso, um pedaço de pão e um copo de cerveja escura.
— Por conta da casa — disse. — Você está aqui por algo sério. Não é coisa para enfrentar com fome. — Seus lábios se curvaram. — Eu sou Ana.
— Mira. Embora eu imagino que soubesse disso.
Os olhos de Ana foram até o caderno.
— Não foi difícil adivinhar quem você é.
Mira tomou uma colherada. Mais pesado do que estava acostumada, mas bom. Aquietava.
— Então — disse depois de algumas garfadas —, já que todo mundo sabe quem eu sou, talvez você possa me dizer por que estão todos me olhando como se eu tivesse chegado carregando uma praga.
Ana olhou ao redor da sala. Mira acompanhou e viu vários fregueses muito deliberadamente não olhando para elas. Um homem encarava sua cerveja.
— Não recebemos muitos forasteiros ultimamente — disse Ana. — Não desde que tudo isso começou.
— Tudo isso. Você quer dizer os desaparecimentos.
A mão de Ana paralisou no pano.
— Não usamos essa palavra.
— Qual palavra vocês usam?
Por um momento Mira achou que ela não fosse responder. Então ela se inclinou para mais perto e baixou a voz.
— Dizem que a floresta começou a cobrar o que lhe é devido. As pessoas saem depois do escuro, e as sombras as engolem. Sem corpo. Sem rastro. Apenas silêncio.

Um leve arrepio desceu pela nuca de Mira. — Muito poético — disse ela, de forma leve, disfarçando. — E o que você acha?
O rosto de Ana não mudou. — Acho que esta não é uma história para turistas. Não é bom para os negócios quando o mundo acredita que sua casa é amaldiçoada.
Mira bateu sua caneta. — Eu não sou turista.
— Você é pior. É alguém que quer fazer perguntas.
— Esse é o meu trabalho.
— E o meu é manter as pessoas ao meu redor vivas — disse Ana. — Nem sempre isso funciona junto.
Mira a estudou. Nenhum drama no rosto da mulher, nenhum apetite por superstição. Apenas exaustão, e sob ela algo como medo.
— Olha — disse Mira, mais suave. — Off the record. Você realmente acredita que a floresta está comendo pessoas?
O olhar de Ana vagou até a janela, onde o céu tinha virado índigo e as montanhas eram uma linha preta.
— Na cidade — disse ela —, o escuro é apenas a ausência de luz. Aqui o escuro tem dentes.
Pois é. Nada assustador nisso.
— E a explicação real? — Mira insistiu. — Sequestros? Tráfico? Alguém movendo pessoas através da fronteira por essas montanhas?
Um músculo moveu-se no maxilar de Ana. — Nós não falamos sobre isso. Perdemos gente demais. Sem respostas demais.
— Mas vocês falam — disse Mira suavemente. — Apenas não comigo. Ainda não.
Ana encontrou seus olhos, e desta vez não havia suavidade alguma. — Acho que você deveria fazer seu trabalho rápido e ir embora. Este vale não é gentil com quem fica tempo demais.
Antes que Mira pudesse responder, a porta se abriu atrás dela. Ar frio varreu o ambiente e as conversas morreram novamente. Ela se virou pela metade, captou a impressão de alguém alto na entrada, mas o homem passou sem um olhar, e Ana já estava recolhendo a tigela vazia.
— Seu quarto está pronto — disse Ana. — Guesthouse no fim da praça. A chave está na porta. Volte de manhã se quiser café. Ou respostas.
— Você serve os dois?
— Às vezes. Mas nem sempre para quem sai andando depois do escuro.
Quando Mira saiu de volta à praça, a noite tinha chegado. As montanhas eram formas negras recortadas num céu violeta, uma fatia fina de lua baixa sobre os telhados, os postes lutando contra o escuro em círculos fracos de amarelo.
A porta da estalagem clicou fechada atrás dela. O silêncio era mais denso agora, o ar mais frio. Ela ajustou a alça e apertou a jaqueta.
Mira começou a atravessar a praça em direção ao guesthouse, um edifício estreito de dois andares na extremidade oposta, perto de onde as casas davam lugar ao declive e às primeiras árvores. Suas botas rangeram sobre as pedras.
À sua esquerda uma porta bateu. Um homem riu alto demais. Outra voz sussurrou algo local, e a risada cessou.
— Ei, garota da cidade.
Ela olhou para cima.
Dois homens saíram de uma rua lateral, instáveis, o cheiro de álcool barato no vento. Um usava o colarinho levantado; o outro tinha o brilho sem foco de quem bebeu demais.
— Você não deveria estar na rua — disse o primeiro. — Esta noite não.
— Estou bem — disse Mira, num tom nivelado. — Só indo para o meu quarto.
— Os forest rulers gostam dos que dizem isso — o segundo arrastou as palavras. — Dos que acham que vão ficar bem.
— Os forest rulers — Mira repetiu. — Você quer dizer a história local para dormir?
Ambos os homens fizeram um gesto rápido que ela não conhecia, metade cruz, metade proteção contra o mal.
— Deixe-a. A voz de Ana estalou através da praça. Ela estava na porta da estalagem, ainda de avental, olhos duros. — Ou querem que o prefect ouça que estão assediando hóspedes?
Os homens murmuraram e recuaram. Um cuspiu nas pedras. O outro deu a Mira um olhar que ela não conseguiu ler, pena talvez, ou arrependimento. — Fique dentro de casa — disse ele baixo, quase um pedido de desculpas, e seguiu seu amigo de onde tinham vindo.
Mira relaxou os ombros. Mais nervosa que o normal, ela admitiu. O ar da montanha já está te afetando.
A porta do guesthouse estava onde Ana tinha dito. Uma pequena chave de latão estava na fechadura, sua cabeça com o formato do perfil de um lobo. Ela soltou uma risada. — Sutil.
Ela tinha a chave entre os dedos quando o rosnado grave de um motor ecoou pela praça.
Virou-se. Um SUV negro, elegante e caro demais para aquele lugar, tinha estacionado onde o ônibus estivera. Seus faróis se apagaram, deixando-o escuro e silencioso no meio das pedras.
A porta do motorista abriu-se.
O homem que desceu parecia deslocar o ar ao seu redor, como se o mundo tivesse que abrir espaço. Alto, as linhas longas de seu casaco sobre ombros largos e uma estrutura esguia. Cabelos pretos um pouco compridos tocavam sua gola e captavam um leve brilho azul sob a luz dos postes.
Ele parou por um momento, absorvendo a praça como se contasse cada sombra. Então olhou para ela.
Foi como ser pega sob um holofote. Não aquele olhar rápido de quem avalia uma mulher sozinha em um lugar estranho, mas algo mais lento. Como se a estivesse pesando.
Seus dedos apertaram a chave.
Ele veio em sua direção, sem pressa, seus passos silenciosos sobre a pedra. Sob um postes, a luz iluminou seu rosto. Bonito não era bem a palavra; suas feições eram mais duras que isso, mais angulares, maçãs do rosto marcantes, nariz reto, um maxilar de linha limpa e firme. Foram os olhos que lhe travaram a respiração. Escuros à primeira vista, mas quando ele se aproximou e a luz deslizou sobre ele, ela percebeu algo mais por baixo, âmbar, profundo e fundente, como seiva retida no gelo.
— Sra. Hale — disse ele.
Sua voz carregava facilmente através do espaço, baixa e suave, com o suficiente da aspereza local nela.
Sua boca ficou seca. — Sou eu. Você deve ser—
— Leonal Dravien. Prefeito regional.
Ele parou a uma distância suficiente para ser educado. Ainda assim parecia perto demais.

— Você chegou mais tarde do que o esperado — disse ele.
— As montanhas — disse ela, porque seu cérebro pegou o caminho mais fácil. — Elas ficam bem no meio do caminho.
Por um segundo o canto de sua boca se ergueu, um sorriso que quase aflorou e pensou melhor.
— Elas tendem a ficar onde estão.
— Eu percebi.
O silêncio se estendeu, não totalmente confortável, não totalmente hostil.
— Você veio por causa das pessoas desaparecidas — disse ele. Não era uma pergunta.
— Sim. Sou do Chronicle. Presumo que alguém da administração local tenha lhe informado.
Um músculo em sua bochecha se moveu, um humor que veio e se foi. — Neste vale, Sra. Hale, as notícias viajam sem ajuda. Mas você deveria ter contatado meu escritório antes de chegar.
— Se eu tivesse, você poderia ter decidido ficar muito ocupado.
Seu olhar se aguçou. Ela se perguntou se tinha ido longe demais. Então ele inclinou a cabeça. — Você não está errada. Mas agora você está aqui. E uma vez aqui, este vale é de minha responsabilidade.
— Isso soa ameaçador.
— É prático. — Sua atenção desviou-se dela, em direção à escuridão que se adensava onde a floresta começava. — Este não é um lugar que perdoa descuidos.
— Todos continuam dizendo isso. Geralmente logo antes de mencionar a floresta e seus dentes.
Seus olhos voltaram para ela. — Eles têm conversado.
— Não deveriam?
— Pelo seu bem, eu a aconselharia a ouvir. E depois a ignorar mais ou menos metade do que ouvir.
— Qual metade?
Seus olhos brilharam. — Essa é a metade que você decide por si mesma.
Ela tinha dado um passo em sua direção sem querer. A chave bateu contra o batente da porta em sua mão.
— Eu não me assusto facilmente, Sr. Dravien.
— Não estou tentando assustá-la. — Sua voz baixou, mais suave e mais perigosa por isso. — Estou tentando descobrir quanta curiosidade você tem e quanto é imprudência.
— Cinquenta e cinquenta — disse ela, sustentando seu olhar.
— Nada surpreendente — murmurou ele.
Uma rajada desceu das montanhas, mordendo através de sua jaqueta, e sua respiração formou uma neblina entre eles. Ele observou a nuvem branca dela, e algo em seu olhar mudou novamente.
— Posso? — perguntou ele.
Levou um instante para perceber que ele se referia à chave.
— Claro — disse ela, e a estendeu.
Ele alcançou-a. Sua mão fechou-se sobre a dela.
O mundo se estreitou para um único ponto.
Um choque subiu-lhe pelo braço e detonou no peito. Seus joelhos quase cederam. Por um segundo a praça, as montanhas, a noite, tudo desapareceu, e só restou a pele dele contra a dela, o calor áspero de sua palma, o ferro em seus dedos, e a sensação de algo encaixando-se no lugar, lá no fundo. Algo antigo.
Ela ofegou, o som alto no silêncio.
Os olhos de Leonal se arregalaram. O escuro neles se foi, queimado até um âmbar límpido e incandescente, desumano. Seus dedos se apertaram com força suficiente para deixar marcas roxas.
— Mira — disse ele. Não uma pergunta. Um reconhecimento.
Sua mão livre voou e segurou o pulso dele. A pulsação dele martelava contra suas pontas dos dedos, rápida demais, forte demais, um coração de animal selvagem enjaulado em carne.
O que é isso. O que está acontecendo.
Ela olhou para as mãos unidas e paralisou.
As unhas dele já não eram unhas. Enquanto ela observava, elas se alongaram, escureceram e se curvaram em pontas negras; a pele sobre os nós dos dedos reteceu, tendões saltando como se algo dentro dele lutasse para emergir.
Leonal puxou uma respiração brusca, como um homem recuando de uma beira, e arrancou a mão da dela com um rosnado, fechando-a com força ao lado do corpo.
Não rápido o suficiente.
— Você não deveria ter me tocado — disse ele com voz rouca, a suavidade desfeita, um rosnado grave sob as palavras.
Ele encontrou seus olhos, e o âmbar neles ardia, e não era apenas raiva. Era fome.
— Você não tem ideia — disse ele — do que acabou de despertar.

