Cinquenta milhões.
O número não apenas ocupava minha mente; reverberava, quicando nas paredes do meu crânio como uma bala em ricochete. Era um peso opressivo, sufocante, que parecia alterar a própria gravidade dentro da cabine do meu Porsche.
Acelerei pelas artérias escorregadias e encharcadas pela chuva da cidade, seguindo para o centro. Os limpadores cortavam o ar de um lado para o outro, travando uma batalha perdida contra um dilúvio que parecia bíblico. Oito milhões de dólares — o caso Romer — era uma terça-feira qualquer. Era um cálculo, um erro de planilha, um homem ganancioso cometendo um erro desajeitado. Mas cinquenta milhões? Isso era uma liga totalmente diferente. Esse era o tipo de dinheiro que não apenas destruía vidas; as encerrava. Era o tipo de dinheiro pelo qual as pessoas matavam, traíam seu próprio sangue e desapareciam no éter. Era o tipo de quantia que distorcia a realidade ao seu redor.
Manobrei pelo trânsito noturno com precisão agressiva, canalizando minha adrenalina na direção. A cidade lá fora era um borrão de neon manchado e cinza concreto, uma aquarela deixada na tempestade. Eu mal a via. Tudo o que eu conseguia ver era aquele número.
Entrei com um chiado de pneus na minha vaga reservada na garagem subterrânea da Aegis Tower, os pneus protestando contra o concreto polido. O silêncio que se seguiu quando desliguei o motor foi súbito e estridente. Tomei um momento, segurando o volante de couro, me centrando. Conferi meu reflexo no retrovisor — olhos afiados, batom perfeito, armadura no lugar.
A Aegis Tower era um monólito de vidro e aço que perfurava o horizonte de Manhattan, um testemunho de que havia mais dinheiro em proteger riqueza do que em criá-la. O escritório de Huxley ficava no 54º andar. Era um cubo de vidro que olhava de cima para o resto do mundo, um Olimpo moderno de onde Zeus arremessava raios feitos de negativas de sinistros e litígios.
Entrei no elevador privativo, passando meu cartão de acesso de alto nível. As portas se fecharam com um sibilo, me selando em uma cápsula que cheirava a ozônio e aço polido. A subida foi suave, rápida e estourava os ouvidos. A cada andar que passávamos, eu sentia a sujeira da delegacia e o suor desesperado de Romer caindo para trás, substituídos pelo frio estéril e climatizado da guerra corporativa de alto risco.
Huxley era o tipo de homem que acreditava que, se você olhasse para um problema por tempo suficiente, com intensidade suficiente e com desprezo suficiente, ele piscaria primeiro. Eu era a arma que ele enviava para fazer o olhar quando não podia se dar ao trabalho de deixar sua torre.
Entrei em seu escritório sem bater. Ele não esperava, nem exigia. Tínhamos ultrapassado as formalidades há três anos e duzentos milhões de dólares.
O escritório era cavernoso, uma extensão minimalista de madeira escura e vidro do piso ao teto. A única luz vinha da cidade lá embaixo, projetando sombras longas e distorcidas pela sala. Huxley estava em pé diante da janela panorâmica, as mãos entrelaçadas atrás das costas, uma silhueta contra a tempestade. Ele não estava admirando a vista. Estava avaliando-a, procurando rachaduras na armadura da cidade.
„Você estava acima do limite", disse ele, com a voz seca como pergaminho antigo, sem se virar. Provavelmente tinha um rastreador no meu carro. Ou talvez apenas me conhecesse tão bem assim.
„Eu sempre acelero quando você manda 'agora'", respondi, minha voz ecoando ligeiramente na vasta sala. Caminhei em direção à sua mesa, os saltos das minhas botas afundando no carvão fofo da carpete. „E presumo que não me chamou aqui para discutir leis de trânsito."
„Não", disse ele, finalmente se virando. Huxley era um homem magro, impecavelmente vestido, com feições que pareciam esculpidas em sílex. Seus olhos eram cinzas, frios, e tinham visto balanços patrimoniais demais para acreditar na bondade inerente da humanidade. „Chamei você aqui por causa disso."
Sobre a superfície polida de madeira preta de sua mesa, onde costumava haver uma ordem aterrorizante e militante, agora havia uma única peça controlada de caos. Um único arquivo. Um grosso. Encadernado em couro preto, não as pastas manila padrão usadas para o tipo Romer. Parecia caro. Parecia ominoso.
„Cinquenta milhões, Nerys." Ele caminhou até a mesa, seus movimentos precisos e econômicos. „O maior sinistro único na história da Aegis Global. E chegou à nossa mesa há três horas."
Gesticulou para o arquivo com um aceno afiado. „Você vai ficar com o caso Mercer."
Peguei o arquivo. Parecia pesado, denso de papel e segredos. Pesava tanto quanto uma lápide. Soltei a fivela e o abri.
A primeira coisa que vi foi uma fotografia de alta resolução. Era uma cena de crime, iluminada pela luz dura das lâmpadas forenses. Uma fita amarela viva cruzava o enquadramento. Paredes carbonizadas emolduravam o assunto, mas o foco estava no centro. Era o que restava de uma pintura.
Parecia menos vandalismo e mais uma execução. A tela tinha sido cortada repetidamente, rasgos violentos e furiosos que dilaceravam a imagem. A tinta borbulhava e descascava, evidência de ácido lançado com intenção vicious. A moldura dourada ornamentada estava estilhaçada e chamuscada.
„The Weeping Muse“, disse Huxley, a voz baixa, observando minha reação. „A obra-prima de Elias Vane, um recluso do pós-guerra obscuro. Ele destruiu a maior parte de sua obra antes de morrer, mas esta... esta era a sobrevivente. A obra-prima. Era a pedra angular da reputação da Mercer Gallery. Única. Insubstituível.“
„Segurada?“, perguntei, os olhos examinando os danos.
„Por cinquenta milhões de dólares. Apólice iniciada há seis meses.“
„Seis meses“, repeti, olhando para cima. „O tempo é tudo, não é? Quem é o beneficiário?“
„Jericho Mercer.“ Huxley contornou a mesa e se acomodou em sua enorme cadeira, semelhante a um trono, unindo as pontas dos dedos. „Ele herdou a galeria da mãe, Elara Mercer. Você conhece o nome?“
„Eu leio os jornais, Huxley. Elara Mercer. Socialite, patrona das artes, a literal rainha da cena artística de New York. Ela podia fazer ou desfazer um artista com uma sobrancelha erguida.“
„Essa mesmo“, Huxley assentiu. „Ela morreu há seis meses. Uma overdose. Analgésicos de prescrição e álcool.“
Virei uma página do arquivo, olhando para uma cópia de uma certidão de óbito. „Oficialmente classificado como acidente, vejo.“
„Oficialmente“, disse Huxley, a palavra pairando no ar. „Mas observe a data. A apólice de seguro sobre a ‚Muse‘ foi finalizada duas semanas antes dela morrer. Jericho herdou a galeria, a pintura e a apólice.“
Seis meses atrás. O timing era estreito demais. Eu não acreditava em coincidências. No meu ramo, uma coincidência era apenas uma pista que você ainda não decifrara.
„Qual é a versão de Jericho sobre a pintura?“, perguntei.
„Que é uma tragédia“, Huxley bufou, um som de puro desprezo. „Ele alega que estava sozinho em casa, em seu penthouse. O guarda de segurança noturno fez uma ronda à meia-noite, tudo estava seguro. Às 2h20, o alarme silencioso de incêndio disparou. Quando os bombeiros arrombaram as portas, a ‚Muse‘ estava destruída. O incêndio em si foi contido — parece que foi posto principalmente para encobrir os danos à pintura.“
„Álibi?“
„‚Home alone‘ não é álibi, Nerys. É um convite para cavar fundo.“
Virei as páginas, passando pelos relatórios policiais — que pareciam suspeitosamente escassos — e cheguei aos demonstrativos financeiros. E lá estava. A verdade fria e dura mascarada atrás do glamour do mundo da arte. Os números sangravam tinta vermelha.
„Ele está à beira da falência, Huxley“, observei, passando o dedo pela coluna de dívidas.
„Pior“, Huxley corrigiu, inclinando-se para a frente. „Ele está falido; só não declarou ainda. A morte de Elara ativou uma cláusula em uma dúzia de empréstimos privados. Acontece que a galeria dela não era financiada por vendas de ingressos e gravuras. Era mantida à tona por certos... credores não tradicionais. Juros altos, prazos curtos. Jericho não herdou uma mina de ouro, Nerys; ele herdou um buraco negro de dívidas. Pelas estimativas da nossa equipe de analistas, ele estava a três semanas de uma execução hipotecária total. Teria perdido o prédio, a arte, o penthouse. Tudo. A ruína batia à sua porta.“
Senti o clique frio e familiar no meu estômago. Era o som dos pinos de uma fechadura caindo no lugar. Era a narrativa tomando forma.
„Motivo“, declarei, fechando a seção financeira. „Um pagamento de cinquenta milhões de dólares resolve todos os seus problemas. Limpa a dívida, salva a galeria e deixa uma bela almofada.“
„E oportunidade“, acrescentou Huxley. Esticou a mão e folheou até o final do arquivo, apontando para o relatório forense de segurança. „O sistema de alarme. É de grau militar. Top de linha. Não foi burlado. Não foi hackeado. Foi desarmado por dentro dez minutos antes de o incêndio ser posto.“
Olhei para o registro. „Usando um código?“
„Usando o código-mestre“, Huxley confirmou, seus olhos cinzas travando nos meus. „Um código que, segundo a empresa de segurança, foi emitido para apenas duas pessoas.“
„Deixe-me adivinhar“, disse eu. „Jericho Mercer.“
„E a mãe dele, morta“, Huxley concluiu.
Fechei o arquivo. O couro parecia fresco sob minha mão. A imagem era clara como o dia. Era quase decepcionante em sua simplicidade.
„Ele entra, usa seu código, rasga a pintura, joga ácido sobre ela, ateia um pequeno fogo para cobrir seus rastros e sai. Embolsa cinquenta milhões, paga os tubarões e sai limpo como o filho enlutado“, resumi.
„Exatamente“, disse Huxley. „Encaixa. Todas as peças.“
„Encaixa demais“, retruquei, franzindo a testa. „É perfeito. Perfeito demais. Um homem inteligente o suficiente para dirigir uma galeria é bobo o suficiente para usar seu próprio código?“
„O desespero deixa as pessoas estúpidas, Nerys. O pânico as torna descuidadas.“
„Você não parece convencido“, observei. Huxley não era um homem que hesitava, ainda assim havia uma nota de cautela em sua postura.
„Estou convencido de que ele está envolvido“, resmungou Huxley, levantando-se e caminhando de volta para a janela. „Mas há um problema. Os Mercers não são Marcus Romer. Não são uns fraudadores de segunda do distrito de armazéns. Isto é alta sociedade. Os Mercers são praticamente realeza nesta cidade. Têm amigos no gabinete do prefeito. Têm advogados que devoram pessoas como nós no café da manhã e nos cobram pela indigestão. Não quero um escândalo, Nerys. Não preciso que a Aegis seja arrastada pelo New York Times por perseguir um órfão enlutado por causa do legado de sua mãe.“
„Então o que você quer?“ Levantei-me, segurando o arquivo.
Huxley virou-se da janela, sua silhueta recortada contra a tempestade. „Quero que você vá até aquela galeria. Quero que você olhe nos olhos dele. Quero que você encontre a mentira — a mentira específica, inegável, que desenrole toda essa farsa. E quero que você esmiúce a história dele em pedaços tão pequenos e irrefutáveis que os advogados dele nos implorem para deixar que retirem a reivindicação em silêncio. Sem confusão, sem imprensa, sem processo. Apenas uma derrota silenciosa e humilhante.“
„Você quer que eu o intimide“, disse eu.
„Quero que você faça o que faz de melhor. Seja a empresária, Nerys. Encontre o corpo, prove que está morto e o enterre. Feche esse caso. Rápido.“
Assenti, guardando o arquivo pesado sob o braço. Parecia carregar uma arma carregada. „Entendi.“
Virei-me e caminhei pela vasta extensão do escritório, o tapete felpudo silenciando meus passos. Eu estava alcançando a maçaneta pesada da porta quando Huxley falou novamente.
„E Nerys?“
Parei e olhei para trás. Ele me observava, sua expressão ilegível nas sombras.
„Tenha cuidado com este.“
„Por quê?“ perguntei. „Porque ele é rico?“
„Porque todos que o conheceram dizem a mesma coisa“, disse Huxley. „Ele é encantador.“
Sorri. Foi uma expressão fria e afiada, um reflexo que eu havia aperfeiçoado ao longo de anos lidando com mentirosos, trapaceiros e ladrões. Foi um sorriso que não alcançou meus olhos.
„Encantador“, disse, puxando a porta e saindo para o corredor corporativo elegante. „Encantador é apenas uma mentira de terno melhor.“
