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Ana

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Café e histórias ☕

A Veneziana do Sultão

4.7(213)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
6.8K
#RomanceHistórico#CaptiveRomance#EnemiestoLovers#Royalty&Kings#ForcedProximity
Eles me roubaram o nome e me ofereceram como sacrifício a um sultão implacável. Mas esqueceram de uma verdade aterradora: uma mulher de Veneza já nasce sabendo jogar o jogo dos reis.

A Gaiola Dourada

O ar veneziano era tão doce quanto um beijo roubado, denso com o aroma de castanhas assadas, água salgada e os perfumes caros da aristocracia. Era o auge do Carnaval, e a cidade flutuante era uma explosão de cores e excessos mascarados. Ontem mesmo, eu, Lady Isabella Venier, havia dançado até meus pés doerem, girando pelos salões do Palazzo Ducale sob o olhar vigilante e condescendente da nobreza. Eu havia rido sob as estrelas em um passeio de gôndola para casa, minha máscara pendurada nos dedos, acreditando com a arrogante certeza da juventude que o mundo inteiro estava aos meus pés. Eu tinha dezoito anos, era a filha do diplomata mais estimado da República, e meu futuro parecia tão brilhante e límpido quanto as águas do Grande Canal ao meio-dia.

Eu não sabia — não poderia saber — que meu destino já havia sido decidido a mil milhas de distância, em uma cidade de ouro, poeira e intrigas mortais.

O mundo se despedaçou em um instante. Aconteceu durante uma recepção privada que meu pai estava oferecendo. A música no salão de festas do nosso palazzo, um animado concerto de Vivaldi, parou no meio de uma nota quando as pesadas portas duplas se abriram bruscamente. A corrente de ar apagou as velas mais próximas da entrada, projetando sombras longas e dançantes pelo chão de mármore. Os guardas do Doge marcharam para dentro, suas couraças polidas refletindo a luz do lustre, seus rostos sombrios.

O riso congelou nos lábios dos convidados. Leques se fecharam num estalo. O ar na sala mudou de festivo para aterrorizado em um único batimento cardíaco. Aqueles homens não estavam ali para proteção. Eles estavam ali por causa do meu pai.

Ambassador Venier, o orgulho de Veneza, um homem que havia negociado tratados com reis e papas, foi levado do salão pelos braços, tratado como um criminoso comum pego roubando pão. Corri atrás dele, a seda do meu vestido prendendo-se no chão de mármore, meu coração martelando um ritmo frenético contra minhas costelas.

"Pai! O que está acontecendo?" gritei, passando por uma condessa atordoada.

Ele se virou para mim. Em seus olhos, geralmente tão calmos e calculistas, vi algo que nunca tinha visto antes — um medo primitivo e visceral. Não era medo por si mesmo. Era medo por mim.

"Isabella," sua voz era um sussurro rouco, mal audível sobre os murmúrios da multidão. "Vá para casa. Tranque as portas. Não as abra para ninguém."

Eu não escutei. Não consegui. Enquanto o levavam, fiquei paralisada nos degraus de nossa casa, observando a gôndola desaparecer nos canais escuros e enevoados. Esperei a noite toda no átrio frio, andando de um lado para o outro até que o mármore gastasse meus chinelos, até que o amanhecer gelado trouxesse a pior notícia possível.

Traição.

A palavra pairava no ar como fumaça. Eles o acusaram de conspiração com os austríacos contra o Império Otomano.

"É mentira!" gritei para os escrivães do Senado que chegaram ao meio-dia para catalogar nossos pertences. "Ele serviu à República por trinta anos! Ele é um patriota!"

Mas a verdade não importava mais. A acusação era uma armadilha, armada por seus inimigos no Senado, homens que cobiçavam sua posição e sua influência. E Veneza, sempre pragmática, sempre temerosa por suas rotas comerciais, estava apavorada com a ira do Sultão otomano. Rumores de guerra fervilhavam no Oriente. Para provar sua lealdade e preservar a paz frágil, o Doge teve que fazer um gesto. Um acordo monstruoso e impensável.

Meu pai entrou em meus aposentos ao amanhecer do terceiro dia. Ele estava destruído. Havia envelhecido uma década em três noites. Suas roupas finas estavam amassadas, o rosto por fazer. Ele não estava acorrentado, mas parecia carregar o peso do império em ruínas sobre os ombros.

"Eles pouparão minha vida," disse ele baixinho, evitando meu olhar, encarando em vez disso o afresco no meu teto. "E manterão nosso nome longe da desonra pública. O julgamento será... sigiloso."

"Nós pagaremos!" prometi, segurando sua mão fria. "Qualquer que seja a multa. Venderemos tudo o que temos. O palazzo, as propriedades no continente, as joias da minha mãe..."

Ele deu uma risada amarga e oca e finalmente olhou para mim. Seus olhos estavam vermelhos e cheios de lágrimas. "Não é dinheiro que eles querem, minha filha. Sultan Bayezid não exige ouro. Ele se senta sobre uma montanha dele. Ele exige um penhor de paz. Um símbolo da devoção de Veneza que ele possa segurar em suas mãos. Algo precioso."

Ele fez uma pausa, e cada palavra que se seguiu foi uma adaga em brasa, retorcendo-se em meu coração.

"Eles estão enviando você para ele, Isabella. Como um... presente."

O mundo girou em seu eixo. O quarto rodopiou. Um presente. Eu, a filha de uma das casas mais nobres de Veneza, educada em latim e grego, criada para governar um lar, estava sendo enviada para um harém. Para uma gaiola dourada, para agradar um déspota estrangeiro cuja língua eu não falava, cujo deus eu não adorava. Eu seria uma coisa. Um brinquedo. Uma escrava.

"Não," sussurrei, recuando dele como se ele tivesse me batido. "Não pode ser. Você não vai deixar. Você é Ambassador Venier! Você tem amigos, aliados..."

"Eu não tenho escolha!" sua voz quebrou, subindo para um grito de desespero. Ele agarrou meus ombros, seus dedos cravando-se dolorosamente na seda do meu robe. "Ou é você, ou minha cabeça em uma estaca e nossa família amaldiçoada, nosso nome apagado do Livro de Ouro! Ouça-me, Isabella. Você é minha filha. Você é uma Venier. Você é inteligente. É mais forte do que pensa. Use sua mente, não seu coração. Seu coração a matará lá. Mas sua mente... sua mente pode salvá-la."

Ele me puxou para um abraço esmagador, suas lágrimas molhando meu cabelo. "Sobreviva. Sobreviva, e um dia... um dia, você voltará."

Foi a última vez que o vi.

Duas semanas depois, eu estava no convés de um navio mercante, o San Marco, que me levava para longe de tudo o que eu já conhecera. Veneza afundou na névoa da manhã, o Campanário sendo a última coisa a desaparecer, tornando-se o fantasma de uma memória. Eu não era mais Isabella Venier. Eu era um penhor de paz, um tributo enviado ao coração de um império inimigo.

A viagem foi um inferno. Uma tempestade rugiu por três dias, sacudindo o navio como o brinquedo de uma criança, mas o terror real estava dentro de mim. Fiquei trancada em uma cabine apertada, vigiada dia e noite. Fui tratada como uma fera rara sendo levada ao mercado — valiosa, mas não humana. O capitão, um marinheiro otomano grosseiro com uma cicatriz na bochecha, não ousava me tocar — eu era "propriedade do Sultão", selada pelo próprio decreto do Doge — mas seus olhos me devoravam cada vez que ele trazia minhas refeições.

Parei de chorar no terceiro dia. Lágrimas eram um luxo que eu não podia mais me dar. Elas desidratavam o corpo e embotavam a mente. O medo deu lugar a um vazio frio e vibrante. Meu pai dissera para sobreviver. Mas como alguém poderia sobreviver quando despojado de tudo o que o tornava vivo? Passei os dias praticando as poucas palavras de turco que conhecia, lembrando-me dos mapas no escritório do meu pai, tentando transformar meu terror em estratégia.

Quando as cúpulas e minaretes de Istanbul surgiram no horizonte, brilhando em rosa e dourado ao nascer do sol, o capitão entrou em minha cabine. Sua voz era áspera, quase zombeteira.

"Chegamos, signora."

Ele me conduziu ao convés. O sol era ofuscante, e o aroma denso e picante de uma cidade estrangeira atingiu meu nariz — carvão, carne assada, sal marinho e especiarias que eu não sabia nomear. Era vasta, esta Istanbul, estendendo-se por dois continentes, pulsando com vida e ruído, uma fera de cidade comparada à renda delicada de Veneza.

E então o capitão apontou para a margem, para uma colina que dominava tudo, uma ponta de terra cortando o mar onde as águas se encontravam.

"Ali," disse ele, um tom de reverência em sua voz. "Palácio Topkapi."

Segui seu dedo, e meu sangue gelou. Não era apenas um palácio. Era uma fortaleza. Magnífica, inexpugnável, cercada por muros altos e coroada com torres que pareciam perfurar o céu. Pairava sobre a cidade como uma ave de rapina, silenciosa e vigilante. Era uma cidade dentro de uma cidade, um mundo de segredos do qual ninguém retornava inalterado.

Minha prisão.