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Capítulo 2

Madame Aubin estava na porta do pátio quando Layla voltou do escritório. A luz tinha ficado cor de cobre nas bordas.

— Lentilhas hoje à noite, mademoiselle. Com cominho. Estou cozinhando desde as quatro.

— Obrigada, madame.

— O sobrinho do açougueiro passou na cozinha esta tarde para a entrega. Ele viu seu novo general no pátio.

— Viu.

— Ele cruzou do portão até a porta dele sem falar com ninguém, e os oficiais saíram do caminho antes que ele precisasse pedir.

— Talvez seja isso que querem dizer quando falam que ele é quieto.

Madame Aubin entregou a tigela e a segurou por meio segundo depois que as mãos de Layla se fecharam em volta dela, como se quisesse ter certeza de que não seria colocada de volta logo em seguida. O provençal no francês dela suavizava todas as consoantes que ela pronunciava. Era viúva desde o ano da febre e observava Layla agora do mesmo jeito que a observava há três semanas, o que significava sem questionamentos e sem recuo.

— Você vai comer.

— Vou, madame.

Aubin voltou para a cozinha.

No andar de cima, Layla colocou a tigela no baú perto da janela. A tigela ficou onde ela a colocou. O estojo de cobre saiu do bolso interno e foi para a mesa ao lado do tinteiro, onde ia toda noite desde três de julho. Ela o manteve ali durante a hora seguinte, enquanto a última chamada para a oração cruzava o pátio vindo da direção de Atarine e desaparecia. Então prendeu o lenço de novo e saiu pela porta do pátio.

O minarete de Nakib ficava na beirada do bairro mais antigo voltada para o mar, onde a muralha era mameluca e as ruas estreitavam até caber um corpo só. Ela seguiu pelo lado interno da viela. As patrulhas paravam antes de chegar aqui depois de escurecer; as notícias chegavam ao escritório por outras rotas vindas dessas ruas.

Hisham estava na entrada em frente à face sul da mesquita. Estava ali tempo suficiente para ser a segunda coisa que ela viu depois da lanterna na esquina. Os dedos dele bateram no batente duas vezes num ritmo que ela conhecia desde os nove anos — o salão do pai, a parede atrás do braseiro, os meninos que ele ensinava recitando por turnos. A cicatriz branca no lábio superior dele estava um pouco mais clara na luz da lanterna do que durante o dia.

— Você está atrasada.

— Por seis minutos.

— Você está atrasada.

Ela chegou perto da parede ao lado dele e virou para que não pudessem ser vistos como um par da rua. Os ombros deles não estavam bem se tocando. Ela passou o que tinha: os suprimentos pedidos, os suprimentos prometidos, a passagem segura pela trilha do deserto ocidental, a lua nova, três mil cavalos — اِجْتِمَاع ثَلاَثَة آلاَف فَارِس — e o lugar que ela não tinha dado aos oficiais naquela manhã.

Hisham escutou sem se mexer. Os olhos dele passaram por ela uma vez em direção à esquina. Ele repetiu o lugar em voz baixa, do jeito que repetia as lições no salão do pai dela dez anos atrás, para memorizar.

— Você fez bem em não colocar em francês.

— Teria sido lido.

— Foi lido de qualquer jeito. Por Verrier. Por Boncourt.

— O lugar não.

A cabeça dele virou uma fração na direção dela.

— Tem um novo — ela disse.

— Do Cairo.

Ela inclinou a cabeça.

— Como ele é.

Ela considerou. Havia várias respostas verdadeiras, e a maioria delas não servia para um homem passando informação para o leste pela trilha do deserto ocidental.

— Ele é o tipo que escuta as pausas.

Hisham ficou em silêncio por um momento. — O que significa.

— Significa que ainda não sei o que significa.

— Layla.

— É o que tenho.

Ele olhou para ela então, de verdade, pela primeira vez naquela noite. Hisham olhava para as pessoas do jeito que a maioria dos homens conferia a câmara carregada de uma pistola — para confirmar o que havia dentro, não para admirar. Tinha sido aluno do pai dela entre 1790 e 1793. Tinha trinta e quatro anos agora e mãos que não ficaram paradas em nenhum momento desde então.

— Notícias do meu pai.

— Nenhuma ainda. Estamos verificando o delta. Dois estudiosos foram tirados de Damietta na segunda semana de julho. Não descobrimos para onde.

— Damietta.

«Talvez. Talvez não.»

Ela deixou o pensamento do pai numa cela em Damietta pousar entre os dois pelo tempo que a lanterna da esquina levou para tremeluzir uma vez e se firmar. Depois o empurrou para longe da parede.

«Mande notícias assim que souber.»

«Assim que eu souber.»

Ela virou para ir embora. Ele a segurou pela manga — dois dedos apenas, no punho, do jeito de um homem que a conhecia desde os nove anos e não tinha outra forma de dizer o que já havia dito ao bater na verga da porta.

«Tome cuidado com as pausas.»

«Sou a única de nós dois que as escuta, Hisham.»

Ela voltou pelo caminho mais longo pelo bairro até o seu pátio.

Não tinha havido conselho de oficiais no tempo em que Layla trabalhara no staff. Havia um agora porque a carta do enviado mencionava três mil cavaleiros, e três mil cavaleiros significavam uma movimentação pelo sul, e uma movimentação pelo sul era uma questão de onde o destacamento guardaria sua pólvora.

Ela leu a tradução em voz alta à longa mesa do salão do primeiro andar. O French saiu uniforme. O ritmo se manteve. Os oficiais ao redor da mesa — Verrier na cabeceira oposta, dois capitães cujos nomes ainda não lhe tinham sido dados, um lieutenant of dragoons com areia ainda nas botas da guarda daquela manhã, Boncourt na ponta mais próxima da porta — acompanhavam em suas próprias cópias.

O general estava na cabeceira. Não estava no salão quando ela entrou; tinha chegado depois dela, tomado a cadeira sem comentário, e lia desde o momento em que ela começara.

Ele lia com as duas palmas abertas, pousadas de cada lado da página.

Era alto na cadeira como havia sido alto atrás da mesa de Verrier no dia anterior, e mais magro do que o casaco sugeria, e o grisalho nas têmporas era apenas um tom — um homem que aparentava a própria idade e não havia providenciado o contrário. O azul-escuro do casaco captava a manhã pelas venezianas e o dourado na gola a devolvia. Seu rosto era do tipo que permanecia quieto quando estava sendo observado.

Ele observava a mão dela sobre a página — não o rosto. A mão. Da forma como se lê o lugar onde a pena do tradutor tocou, para saber em que palavra o tradutor se encontra. Ela havia visto o pai ler as mãos dos alunos assim no antigo salão, antes de o salão ser fechado.

A atenção de um leitor é uma coisa particular. Não pertence a um homem olhando para uma mulher; não pertence a um comandante olhando para um subordinado; não pertence a nenhuma das formas como o staff até então a havia olhado. Ela terminou a linha sobre o ajuntamento — e a linha sobre o ajuntamento passou por ele sem que sua cópia se erguesse, como uma linha passa por um homem que já a ouviu. Boncourt, duas cadeiras abaixo com a cópia erguida um pouco alto demais, sentiu o resto antes dela. Seus dedos foram até a pequena cruz de prata na garganta e voltaram à página. Seus ombros se ajustaram meio centímetro — o ajuste de um homem que está sendo medido contra algo para o qual não lhe foi dada a medida.

Os oficiais fizeram suas perguntas e Verrier as respondeu. O general ficou em silêncio. Dobrou sua cópia ao meio pelo vinco já existente e a deixou repousar sob a mão esquerda.

Quando o conselho se encerrou, ele saiu primeiro.

Ela recolheu seus rascunhos e foi até sua mesa junto à janela do segundo andar e trabalhou o dia inteiro.

Na hora antes do pôr do sol, o Sergeant Dubois veio pelo corredor. Tinha vinte e oito anos e era provençal — ela conseguia ouvir o sul em suas vogais — e a faixa bronzeada no colarinho aberto formava um triângulo que ela havia visto nos jardineiros da casa do pai. Ele lhe sorriu, o que não era como o staff geralmente se dirigia a ela, e estendeu uma pasta de tecido limpa.

«Mademoiselle. Seus rascunhos do dia, se fizer favor. Para o registro.»

«Para o registro.»

«O general gosta de tudo arquivado. Originais ao escrivão. Sua letra no arquivo. A letra dele no cofre.»

Ele disse aquilo do jeito que um homem explica as regras de sua casa a um convidado que deve permanecer um convidado. Sem grosseria. Ela colocou as folhas finalizadas dentro da pasta de tecido e observou a pasta descer o corredor na mão dele.

Para o arquivo. Através do escrivão. De volta para ele.

Ela havia colocado seu trabalho naquela pasta todos os dias durante três semanas.

Madame Aubin estava esperando na porta do pátio quando ela chegou em casa. Não entregou uma tigela. Segurava um quadrado dobrado de papel entre dois dedos — o tipo de dobra que um homem fazia quando tinha apenas o lenço dobrado uma vez no bolso para dobrá-lo por dentro. Colocou na palma de Layla e fechou os dedos dela em volta dele como se fechasse a mão de uma criança em volta de uma moeda.

— Do menino do pão esta tarde.

— Obrigada, madame.

— Coma esta noite, mademoiselle.

— Vou comer.

Lá em cima, perto da janela, Layla desdobrou o papel. Três linhas na letra miúda de Hisham.

Amanhã haverá notícias. Um dos nossos foi capturado no porto. Você vai traduzi-lo.

Ela deixou o papel esticado sobre a mesa. O minarete de Atarine chamou para a oração da noite através da veneziana aberta atrás dela.

Um dos deles. Capturado no porto. Para ser traduzido por ela, diante do general que observava a mão sobre a página.

Ela dobrou o papel duas vezes e o colocou debaixo do tinteiro.