Um estalo seco e agudo.
O som perfurou o silêncio opressor da villa como um tiro. Não era a fundação se assentando. Não era o vento. Era o som distinto de metal rompendo uma resistência.
Meu pulso, já martelando por causa do calor e da irritação, disparou em um ritmo frenético e frio.
Eu não estava sozinha.
Recuei da parede de vidro, meus movimentos lentos e deliberados. Meu instinto era congelar, tornar-me invisível, mas meu treinamento falou mais alto. Eu não era uma presa. Eu era uma advogada litigante. Eu não me escondia; eu avaliava as ameaças e as neutralizava.
Meu cérebro de advogada mudou de rumo instantaneamente. A ação civil referente ao ar-condicionado quebrado desapareceu. Em seu lugar, um arquivo criminal se abriu. Invasão de propriedade. Arrombamento. Agressão.
Villa 7. À beira do penhasco. Isolada. Lani a chamara de "santuário." Ela dissera que era "perfeitamente segura."
Mentirosa.
Olhei para o celular, ainda apertado na minha mão. Uma ligação. Eu poderia discar 911... ou qualquer que fosse o equivalente nesse rochedo esquecido por Deus. Eu poderia ligar para a recepção. Segurança.
Mas o que eu diria? “Ouvi um barulho”?
Eu já conseguia ouvir a resposta, transbordando condescendência. “É apenas a selva, Ms. Davies. Um galho caindo. Um coco. Um macaco.” Eles me descartariam como a nova-iorquina histérica e exigente que tinha medo da natureza.
Um som de raspado.
Novamente. Mais alto desta vez. Mais perto. Vinha do deck de madeira, bem perto da porta principal.
Que se dane. Eu não ia esperar no escuro para ver quem — ou o que — passaria por aquela porta.
Meus olhos percorreram o quarto, desesperados por uma arma. Meu laptop? Caro demais, leve demais. O abajur? Estava ligado na tomada.
Meu olhar pousou na mesa de centro. Ali estava uma peça de decoração ridícula e pesada — um golfinho estilizado esculpido em teca sólida e polida. Devia pesar uns dois quilos.
Investi contra ele. A madeira lisa e fria se encaixou desconfortavelmente na minha palma suada, mas parecia sólida. Parecia capaz de causar um belo estrago.
Caminhei furtivamente em direção à porta principal. Não havia olho mágico. Nem trava de corrente. Pelo visto, o "luxo consciente" não levava em conta a necessidade humana básica de manter predadores do lado de fora.
Pressionei as costas contra a parede ao lado do batente da porta, erguendo o golfinho de madeira como um porrete. Respirei fundo. O ar no quarto estava sufocante, cheirando a linho caro e ao meu próprio medo.
Você não é uma vítima, Anna. Você é o tubarão.
Contei até três.
Um. Dois. Três.
Puxei a porta pesada com a mão esquerda e lancei meu corpo na abertura, com a arma erguida, pronta para golpear.
"Afaste-se da..."
O grito morreu na minha garganta. Tropecei, quase caindo sobre os próprios pés no esforço de frear meu ímpeto.
Havia um homem agachado no deck de madeira, bem na minha frente.
Ele estava agachado rente à parede do bangalô, de costas para mim. Vestia a camisa simples de linho bege dos funcionários do resort, com as mangas dobradas, revelando antebraços musculosos e definidos, cobertos de areia. Uma caixa de ferramentas aberta estava no deck ao lado dele, cheia de utensílios que pareciam sérios demais para um faz-tudo de hotel.
Ele não se assustou. Não pulou. Nem sequer se virou.
Ele apenas... congelou.
Ele permaneceu perfeitamente imóvel, como um predador que fora avistado, mas sabia que não corria perigo.
"O que diabos você está fazendo aqui?", disparei. Minha voz tremia com uma mistura de adrenalina e fúria, mas eu a forcei a sair do peito, fazendo-a soar gutural. Ameaçadora.
Ele virou a cabeça. Lentamente. Preguiçosamente.
E o ar abandonou meus pulmões.
Eu esperava um jardineiro assustado. Talvez um mensageiro aterrorizado que tivesse ido à villa errada.
Eu não esperava por isso.
He era alto — mesmo agachado, seus ombros eram largos, preenchendo o espaço. Enquanto ele se virava, a luz agonizante do pôr do sol cortava seu rosto. Ele era profundamente bronzeado, com maçãs do rosto esculpidas e uma barba por fazer escura que parecia rude demais, desleixada demais para a estética polida e estéril de The Lost Horizon. Ele parecia ter sido esculpido na própria rocha vulcânica da ilha e deixado sob a tempestade.
Mas eram os olhos dele.
Eles tinham a cor do oceano profundo logo após o recife — um azul-esverdeado escuro e inteligente. E estavam me observando com surpresa nenhuma. Não havia medo. Nenhuma deferência educada. Nenhum pedido de desculpas por invadir uma villa de cinco mil dólares por noite.
Apenas uma avaliação calma e gélida.
Ele olhou para o golfinho de madeira erguido na minha mão. Então seu olhar subiu para o meu rosto, desceu para os meus pés descalços e voltou para os meus olhos.
A sombra de um sorriso sarcástico tocou o canto de sua boca.
"Posso ajudar?", perguntei, minha voz subindo um tom. Apertei o golfinho até meus nós dos dedos ficarem brancos.
Ele não se levantou. Mudou o peso do corpo, apoiando um cotovelo no joelho. "Bungalow seven. Anna Davies. Correto?"
Sua voz era um estrondo baixo, um barítono que parecia vibrar pelo ar úmido e se instalar em meus ossos. Era uma voz acostumada a dar ordens, não a recebê-las.
O fato de ele saber meu nome me desequilibrou. "Sim. E você é..."
"Você acabou de fazer o check-in." Não era uma pergunta. Era uma afirmação de um fato.
Meu medo começou a coalhar e se transformar novamente em irritação. Quem ele pensava que era? "Escute, eu não sei quem você é ou por que está à espreita do lado de fora da minha porta, mas meu ar-condicionado está quebrado e você está fazendo barulho no meu terraço privativo. Eu exijo..."
"Eu sei que não está funcionando," ele interrompeu.
Ele não gritou. Ele não aumentou o tom de voz. Apenas falou por cima de mim com uma certeza calma e absoluta.
Pisquei. "O quê?"
"Estou no plantão de monitoramento," disse ele, ainda sem se mexer. Falava como se estivesse explicando aritmética simples para uma criança lenta. "Cinco minutos atrás, toda a sua villa — energia, dados, controle climático — ficou completamente offline."
Isso me desarmou. Abaixei o golfinho de madeira uma fração de centímetro.
Eu tinha vindo até a porta pronta para uma briga. Tinha um discurso preparado. Tinha uma ação judicial por responsabilidade civil esboçada na minha cabeça. Mas ele tinha puxado o meu tapete. Ele já sabia.
Meu cérebro de advogada se apressou em reorganizar os fatos. Fato um: o ar-condicionado pifou. Fato dois: este homem já está aqui, antes mesmo de eu apertar 'ligar'. Isso implica um monitoramento sofisticado. Fato três: ele não age como um funcionário. Os funcionários são treinados para serem invisíveis, servis. Eles se desculpam. Eles fazem reverências. Este homem estava me olhando como se eu fosse o inconveniente.
"Offline?", repeti lentamente, testando a palavra. "Não está 'offline'. Está quebrado. O painel está morto."
"Eu sei," disse ele novamente.
"Então... conserte," exigi, recuperando um pouco de terreno. "É por isso que você está aqui, não é? Para consertar?"
Só então ele se moveu.
Ele se levantou.
Dei um passo involuntário para trás.
Ele se desdobrou como um guindaste de construção. Era alto — bem mais de um metro e oitenta — e se agigantou sobre mim, bloqueando a luz que se esvaía. A camisa de linho bege ficava esticada em seu peito. De perto, ele cheirava a ozônio, sal e algo penetrante, como óleo de motor.
"Esse não é o meu trabalho," disse ele, olhando para mim de cima.
Fiquei boquiaberta. A audácia pura era de tirar o fôlego. "Perdão? Você está parado aí com uma caixa de ferramentas, me dizendo que a energia acabou, e agora me diz que não é seu trabalho consertar?"
"Não sou técnico," disse ele secamente. "Estou no monitoramento. Meu trabalho é descobrir por que tudo apagou. O reparo é um departamento separado."
Ele me deu as costas, ignorando-me completamente. Virou-se para a parede do bangalô. Perto de onde estivera agachado, havia um painel discreto, pintado para se misturar perfeitamente ao revestimento de teca. Eu nem o tinha notado antes.
Ele selecionou uma ferramenta fina e chata de sua caixa, inseriu-a em uma fresta quase invisível e abriu o painel.
Senti meu rosto corar. O calor do quarto estava escapando para o deck, ou talvez fosse apenas o calor da minha própria raiva.
"Escute aqui, 'Monitoramento'," comecei, pisando no deck, abandonando a segurança pelo confronto. "Eu tive um voo muito longo. Estou pagando mais por esta... esta gaiola dourada do que a maioria das pessoas ganha em um ano. E não me importo com as distinções entre os seus departamentos."
Aproximei-me, invadindo seu espaço pessoal. "Se você não ligar o ar-condicionado agora mesmo, vou ligar para o Mr. Song e farei com que você seja demitido. Você me entendeu?"
Ele me ignorou. Estava apontando uma pequena lanterna para o painel aberto, estudando com intensidade o emaranhado de fios coloridos lá dentro.
Minha paciência se esgotou. Ela se quebrou com um estalo audível em minha mente.
"Você está me ouvindo?", exigi, estendendo a mão como se fosse agarrar seu ombro, mas mudando de ideia.
Ele nem sequer virou a cabeça. Apenas disse duas palavras. Duas palavras que instantaneamente transformaram minha raiva em gelo.
"Ligue para ele."
Congelei. "O quê?"
Ele tirou um pequeno multímetro do bolso e o encostou em um contato. "Mr. Song. Ligue para ele."
Ele finalmente se virou para me olhar. Seu rosto estava sombrio, as linhas ao redor de sua boca, tensas. O divertimento havia sumido.
"Diga a ele que temos um 'Incident 141' de novo," disse ele. Sua voz era baixa, séria. "And tell him to bring the master key for the main junction box."
Incident 141?
As palavras pairaram no ar entre nós. Não era um pedido. Era uma ordem. E era um código.
Aquele homem não era um jardineiro. Não era um funcionário da manutenção. Você não dava ordens ao General Manager se fosse um funcionário.
Ele se voltou para o painel, fechando-o com um clique definitivo.
"O painel interno está bem," disse ele, mais para si mesmo do que para mim. "O problema é mais profundo. Preciso ver a caixa de junção principal."
Ele me olhou novamente e, pela primeira vez, vi algo além de arrogância em seus olhos. Vi tensão.
"Faça a ligação, Ms. Davies," disse ele. "Agora."
