Uma semana se evaporou.
O tempo tornou-se um conceito fluido, medido não em horas, mas em contagem de palavras. O apartamento encolheu para o tamanho do escritório, um recipiente hermeticamente fechado flutuando fora das correntes do mundo real. Lá dentro, o ar estava pesado com o cheiro de papel antigo, café e a carga elétrica da criação contínua.
Julian era insaciável.
Ele era uma musa exigente. Ele me acordava às três da manhã com a fala perfeita de um diálogo. Ele zombava da minha escolha de adjetivos durante o café da manhã. Ele era arrogante, brilhante e totalmente avassalador.
— Não — sua voz murmurava, um deslize de veludo contra a nuca enquanto eu digitava. — Não “tristeza”. Melancolia. Tem peso, Eva. A tristeza flutua; a melancolia afunda.
E ele estava certo. Ele sempre estava certo.
O manuscrito crescia em um ritmo aterrorizante. Trinta mil palavras em sete dias. Era o melhor trabalho da minha vida. Era cru, visceral e profunda e desconfortavelmente íntimo.
Mas as tensões começaram a aumentar.
— Precisamos de fatos — eu disse em voz alta para a sala vazia na oitava manhã. A versão romantizada de sua vida estava voando alto, mas a historiadora em mim — a parte que ansiava por estrutura — estava morrendo de fome. O diário de Elara era só emoção; faltavam datas, locais, o esqueleto rígido da realidade para sustentar a história.
— Por quê? — A voz de Julian era preguiçosa, satisfeita, ecoando do retrato onde os olhos de carvão pareciam pesados de satisfação. — Nossa verdade não é o suficiente? Por que turvar a água com os detalhes pedestres de um mundo que nunca me entendeu?
— Porque uma história sem alicerce desmorona — rebati, vestindo um casaco pela primeira vez em dias. O tecido parecia pesado, estranho. — Preciso saber onde você morou. Preciso saber a planta da propriedade. Preciso dos registros públicos.
— Tediante — ele desdenhou. — Você é uma escritora, não uma escrivã.
— Vou ao City Archive.
Uma corrente de ar frio pareceu varrer o quarto, embora as janelas estivessem fechadas. — Não vá. Fique aqui. A luz está perfeita para a cena do jardim.
— Volto em algumas horas.
Sair pela porta pareceu como romper um lacre. O ar do corredor estava viciado, o elevador barulhento. A cidade lá fora era um assalto — brilhante demais, barulhenta demais, real demais.
Mas o City Archive era um santuário de outro tipo. Tinha cheiro de poeira e decadência, um cheiro seco e silencioso que acalmava o zumbido frenético em meu sangue.
O pedido de documentos sobre a Croft Estate foi enviado. Esperei em uma pesada mesa de carvalho, sentindo-me como uma traidora. Julian estava em silêncio na minha cabeça, uma ausência melancólica e pesada. Ele estava emburrado.
— Julian Croft?
A voz era real. Surpreendentemente real.
Um homem estava do outro lado da mesa. Ele tinha mais ou menos a minha idade, vestindo um paletó de tweed amassado que parecia ter sido herdado de um avô. Ele tinha cabelos cor de areia rebeldes e óculos que viviam escorregando por um nariz salpicado de sardas.
Ele era a antítese de Julian. Ele era caloroso, bagunçado e inegavelmente sólido.
— Sou o Mark — disse ele, oferecendo uma mão manchada de tinta. — Sou o arquivista-chefe aqui. Seu pedido... apareceu na minha tela. Não é sempre que recebemos consultas sobre o “Alchemist of the Valley”.
— Estou escrevendo um livro — eu disse, pegando a mão dele. Era quente. Seca. — Um romance.
— Um romance? — Os olhos de Mark brilharam por trás das lentes. — Isso é corajoso. A maioria das pessoas só quer saber dos fantasmas. Ou do escândalo.
— Eu quero a verdade — eu disse. — Acho que ele foi mal compreendido.
Mark sorriu. Foi um sorriso largo, desarmado e torto que enrugou os cantos de seus olhos. — “Mal compreendido” é pouco. O homem era um pária. Um gênio, provavelmente, mas completamente despreparado para a interação humana. Na verdade, eu mesmo andei pesquisando um pouco sobre ele. Um hobby meu. Os excêntricos esquecidos do condado.
— Você pesquisou?
— Posso te mostrar — disse ele, puxando uma cadeira. — Se você não se importar com um pouco de... divagação acadêmica.
Duas horas se derreteram.
Foi fácil. Esse foi o choque. Conversar com Mark era como vestir um suéter confortável e gasto. Não havia intensidade, nem exigência de perfeição, nem peso psíquico pressionando meu crânio. Ele era engraçado. Era apaixonado por história. Ele me mostrou mapas de levantamento da Croft Manor, apontando onde ficavam os laboratórios, onde os jardins haviam ultrapassado os muros.
Ele era fatos. Ele era o meu chão.
— Sabe — disse ele, olhando para o relógio na parede. — Meu turno acabou de terminar. E estou morrendo de fome. Tem um lugar ali na esquina que faz um café terrível, mas doces incríveis. Gostaria de continuar essa... divagação?
Ele vai entediar você, a voz de Julian sussurrou. Era fraca, um chiado estático no fundo da minha mente. Ele é comum. Ele cheira a poeira e mediocridade.
Olhei para Mark. Para seu rosto esperançoso e aberto.
— Eu adoraria — respondi.
O café estava barulhento, um tilintar de xícaras e conversas. Sentamos perto da janela. Mark pediu um muffin de mirtilo e o devorou com um entusiasmo cativante.
— Então — disse ele, limpando uma migalha do queixo. — Uma escritora. Isso deve ser... intenso. Viver dentro da própria cabeça o tempo todo.
— Pode ser — admiti, envolvendo a caneca quente com as mãos. — Ultimamente... mais do que o normal.
— Bem, você está se saindo muito bem — disse ele. — Digo... só de ouvir você falar sobre ele. Você tem essa... paixão. É raro. A maioria das pessoas vem procurando limites de propriedades ou genealogia. Você está procurando uma alma. É... incrível.
Ele se inclinou para frente, sua expressão mudando do interesse acadêmico para algo mais suave. Algo pessoal.
— Estou muito feliz por você ter vindo hoje, Eva.
O elogio foi simples. Honesto. Não exigia nada. Não exigia que eu fosse uma rainha ou um receptáculo. Apenas pedia que eu fosse Eva.
Um sorriso surgiu em meus lábios. Um de verdade. Pela primeira vez em uma semana, o nó de tensão em meu peito se afrouxou. Talvez Maria estivesse certa. Talvez eu precisasse mesmo agitar as coisas. Talvez o mundo real não fosse tão ruim assim.
— Eu também estou feliz — eu disse.
— Você está falando sério?
A voz na minha cabeça não sussurrou desta vez. Não murmurou.
Ela cortou.
Foi como água gelada escorrendo pela espinha. O barulho do café não a abafou; a aguçou. A voz de Julian estava subitamente cristalina, vibrando com um desprezo frio e afiado como uma navalha.
— Você está sorrindo para... ele?
Meu sorriso vacilou.
Mark não percebeu. Ele se inclinou um pouco mais perto, sua mão descansando na mesa perto da minha. — Na verdade, encontrei outra coisa nos arquivos antigos. Uma carta. Eu acho...
Ele não conseguiu terminar.
— Ele não é digno de você.
O comando atingiu minha mente com a força de um golpe físico. Não era um pensamento. Era um grito, um rugido de ciúme possessivo e aterrorizante. O volume era excruciante.
Eu me encolhi violentamente, arquejando enquanto minha mão dava um solavanco, derrubando a caneca de café. O líquido escuro e quente espirrou pela mesa, pingando na manga de Mark.
— Eva? — Mark deu um pulo, pegando guardanapos. — Você está bem? Você... você ficou pálida.
Eu não conseguia ouvi-lo. Os sons do café — a conversa, a máquina de café expresso — foram abafados pelo silêncio ensurdecedor e estridente da voz na minha cabeça.
Olhei para Mark, mas não vi sua preocupação. Vi os olhos de carvão do retrato, sobrepostos ao rosto dele, queimando com uma fúria que parou meu coração.
— Ele é um verme — Julian sibilou, sua voz envolvendo minha garganta como uma mão fria. — Um verme pequeno, tediante e patético. Como você ousa? Como ousa dar a ele o tempo que pertence a mim?
Minha respiração vinha em arquejos curtos e aterrorizados. Este não era meu museu. Este não era meu herói romântico.
Era algo diferente.
— Eu... eu tenho que ir — gaguejei, afastando-me da mesa, minha cadeira rangendo contra o chão.
— Eva, espere — Mark disse, estendendo a mão.
— Não toque em mim! — O grito rasgou minha garganta antes que eu pudesse contê-lo.
Mark congelou, com a mão no ar, o rosto uma máscara de choque e mágoa.
Eu me virei e corri. Fugi do café, tropeçando na rua fria, correndo da gentileza de um homem real, correndo de volta para a escuridão, de volta para a prisão do meu apartamento, de volta para o monstro que estava esperando para me reivindicar.
