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Beatriz

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Sonhadora ✨

A Promessa do Retrato

4.9(641)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#RomanceSombrio#PossessiveHero#StalkerRomance#SlowBurn#UrbanFantasy
Achei que estava apenas escrevendo a história trágica de um alquimista esquecido, até que sua voz sussurrou das sombras do meu quarto, exigindo que eu me tornasse sua musa eterna.

O Gaveteiro Secreto

O silêncio era a pior parte.

Quando Leo empacotou sua última caixa — repleta de ensaios pós-modernos dos quais ele jurava não conseguir viver sem e o suéter ridículo e piniquento que eu lhe dera de Natal dois anos atrás — ele levou todo o ruído do apartamento com ele. O som de seu cantarolar desafinado no chuveiro, o toque rítmico e agressivo de seu teclado mecânico no quarto vago, até mesmo o jeito irritante como ele limpava a garganta antes de começar um sermão sobre por que o meu gênero era "comercialmente viável, mas intelectualmente vazio."

Tudo se fora. Tudo.

Tudo o que restou foi o zumbido estéril e de baixa frequência da geladeira e a batida frenética e inútil de um coração contra costelas que pareciam apertadas demais.

E o cursor.

Pisca. Pisca. Pisca.

Um pequeno tirano rítmico em uma vasta paisagem ártica de pixels brancos. Eva Thornfield, a sensação literária cujos romances históricos deram vida nova à era da Regência. Era o que a crítica do New York Times dissera sobre o último livro. Uma escritora que compreende a arquitetura do anseio.

No momento, a arquitetura de uma lista de compras parecia fora de alcance, quanto mais a do anseio.

O telefone, descansando com a tela para cima na mesa de centro, vibrou pela terceira vez em dez minutos. Maria. O toque — geralmente uma canção pop alegre — parecia uma sirene de ataque aéreo naquela quietude.

Um polegar hesitou sobre o botão de recusar, mas a culpa — aquela velha e familiar companheira — venceu.

"Oi, Maria." A voz soou enferrujada, sem uso.

"Eva!" O tom de Maria era uma mistura cuidadosamente construída de encorajamento profissional e pânico puro e absoluto. "Eu estava só dando uma passadinha para saber de você! Como está... como a mágica está acontecendo? A editora está perguntando sobre as primeiras cinquenta páginas de novo. Eles estão ficando um pouco nervosos com o prazo do catálogo."

"A mágica está... fermentando," eu menti, os olhos fixos no ventilador de teto que não se movia desde agosto. "Só está... demorando um pouco mais para a infusão."

"Infusão é bom," Maria cantarolou, a tensão audível por trás do otimismo. "Infusão é... sabor. Mas, Eva, querida, precisamos de um rascunho. Precisamos de um título. Precisamos de algo melhor do que 'Untitled Historical Project #4.' Você está três meses atrasada em relação ao prazo inicial. É... ainda é por causa do Leo?"

O nome pairou no ar, pesado e sufocante.

"Não," veio a resposta rápida demais. "Não é o Leo. Leo é... Leo é história antiga."

"Bom. Porque ele era um babaca, Eva. Um babaca acadêmico com problemas de compromisso e sapatos horrorosos. Você está melhor sem ele. Você precisa canalizar isso. Canalize a dor! Transforme-a em... não sei, um Duque sombrio com um segredo obscuro?"

"Estou tentando, Maria."

"Apenas encontre uma nova faísca," disse ela, a voz suavizando. "Vá caminhar. Visite um museu. Saia desse apartamento. Você sabe o que acontece quando se isola. Você entra na sua própria cabeça, e esse é um bairro assustador. Mude de ares."

A linha ficou muda. O apartamento estava limpo — obsessivamente limpo — mas parecia estagnado. O ar era reciclado, denso com o cheiro de café amanhecido e ansiedade.

Mudar de ares.

Parecia um esforço monumental, como tentar mover uma montanha com uma colher de chá. Mas a alternativa — ficar sentada aqui, observando o cursor zombar da página em branco — era uma forma lenta de tortura.

O casaco saiu do cabide — um sobretudo longo de lã que Leo dissera que me fazia parecer uma detetive em um filme noir, um comentário recebido como elogio, mas pretendido como crítica.

A porta se fechou com um estrondo contra o silêncio.

Meus pés me levaram sem destino, longe das ruas polidas e abastadas do bairro e para dentro das artérias mais antigas e rudes da cidade. Cafeterias cheias de rostos iluminados por telas azuis, butiques vendendo um minimalismo superfaturado, o barulho e a pressa dos vivos — tudo isso se transformou em um ruído estático de fundo.

Eventualmente, a cidade mudou. O tempo parecia ter se esgarçado nas bordas por aqui. Prédios de tijolos, escurecidos pela fuligem e pela idade, substituíram as torres de vidro. Lojas empoeiradas e entulhadas substituíram as vitrines elegantes.

E ali estava o mercado.

Não uma feira de produtores com geleias artesanais, mas um verdadeiro mercado de pulgas, transbordando de uma praça de paralelepípedos como uma caixa de joias entornada. Um cemitério de histórias esquecidas. Mesas transbordavam com prata manchada, livros de bolso com orelhas e lombadas quebradas, bonecas de porcelana lascadas com olhos vagos e fixos, e caixas de fotografias em preto e branco de pessoas mortas há muito tempo e amadas por ninguém.

Perfeição.

Poeira, ferrugem e papel velho encheram meus pulmões. Esse era o processo, geralmente. Tocar o passado. Ouvir os sussurros da história nos escombros de vidas vividas. Um medalhão de prata, esfregado com o polegar para limpar a mancha. O colarinho de veludo de um casaco de ópera roído por traças.

Nada. Nenhuma faísca. Nenhum sussurro. Apenas coisas velhas e tristes.

Recuar parecia a única opção. Voltar para a segurança do apartamento vazio.

Mas então, uma forma nas sombras chamou minha atenção.

Escondida ao fundo de uma barraca mantida por um homem tão desgastado quanto suas mercadorias, enterrada sob uma pilha de tapetes orientais empoeirados e uma gaiola quebrada, ela esperava.

Não era rebuscada. Nem dourada. Uma escrivaninha de escritor. Uma peça sólida e pesada feita de Mahogany desk que parecia absorver a luz em vez de refleti-la.

O tapete foi empurrado para o lado.

Madeira cicatrizada. Esse foi o primeiro detalhe. Não era intocada. A superfície era um mapa de empenho — manchas de tinta entranhadas profundamente nos veios, arranhões leves de pontas de caneta, um sulco profundo onde uma mão pesada talvez tivesse pressionado com muita força em frustração ou paixão.

Uma escrivaninha que fora usada. Uma escrivaninha que vivera.

As pontas dos dedos traçaram o tampo de correr. Liso, frio ao toque.

"Bela peça," o dono da barraca resmungou, surgindo ao meu lado. O cheiro de tabaco e chuva estava impregnado nele. "Meados do século XIX. Fabricação inglesa, eu diria. Pesada como uma lápide, no entanto. Consegui em um leilão de espólio no norte. Ninguém quis carregar."

"Ela abre?" Minha voz soou pequena ao ar livre.

"Deveria."

Minhas mãos agarraram o puxador. Resistência, então um baque seco e satisfatório que soou como um tiro em uma biblioteca.

O interior revelou uma rede de escaninhos e gavetas pequenas, exalando um perfume de papel velho, lustra-móveis de limão e algo penetrante — tinta seca, ou talvez ozônio.

O banquinho precário à frente dela oferecia um assento. Minhas mãos descansaram sobre a superfície de escrita. E, pela primeira vez em três meses, a ansiedade pulsante no peito silenciou.

Uma sensação de acerto se instalou. Como sentar na cabine de uma máquina projetada para viajar.

"Quanto custa?"

O preço era surpreendentemente baixo. Pesada, ele lembrou. Um fardo para mover.

"Eu fico com ela. E pagarei extra pela entrega. Hoje mesmo."

Duas horas depois, a escrivaninha estava no centro do escritório, dominando o ambiente. Ela fazia a cadeira de escritório moderna e ergonômica e as estantes brancas e lisas parecerem frágeis e temporárias. Um monólito escuro, exigindo atenção.

A limpeza se tornou um ritual. Pano macio e óleo removeram a sujeira do mercado, a poeira do leilão. Os puxadores de latão brilhavam opacos sob a luz da tarde.

Gavetas deslizaram para abrir. Vazias, exceto por tufos de poeira e alguns clipes de papel enferrujados.

Uma pontada de decepção me atingiu. O que eu esperava? Um manuscrito esquecido? Um mapa para um tesouro enterrado? Era apenas um móvel. Bonito, sim, mas vazio.

"Apenas uma escrivaninha," o sussurro ecoou na sala vazia. "Apenas uma escrivaninha, Eva."

O pano moveu-se para os painéis laterais, seguindo o entalhe intrincado da moldura ao longo das pernas. A madeira aqueceu sob o atrito. O tecido prendeu em algo — uma pequena imperfeição no entalhe.

O movimento parou. Um dedo traçou o local.

Não era um arranhão. Era uma fresta.

Uma linha vertical minúscula, quase invisível, na coluna decorativa do lado direito. Tão bem escondida entre os canelados da madeira que permaneceria invisível a menos que fosse limpa centímetro por centímetro.

O coração deu um pulinho estranho e inesperado. Um enigma.

A pressão na madeira ao lado da fresta não resultou em nada. Uma unha tentou forçar a abertura. Sólido.

Meus olhos se aproximaram. Uma pequena roseta, um desenho floral, estava logo acima da fresta. Idêntica às outras, mas o polimento ao redor dela estava levemente gasto. Tocada com mais frequência que as demais.

Um polegar pressionou o centro da roseta.

Um clique mecânico suave ecoou das entranhas da escrivaninha.

Prendi a respiração. O painel de madeira foi empurrado para o lado.

Ele deslizou. Suavemente, silenciosamente, revelando uma cavidade que não deveria estar ali. Uma gaveta secreta, estreita e profunda, escondida no espaço morto atrás da estrutura principal.

Um calafrio percorreu minha espinha, eriçado e frio. Era isso. O sussurro.

Meus dedos alcançaram a escuridão do compartimento, roçando em algo macio. Veludo.

O objeto foi retirado. Um pequeno embrulho, envolto em veludo azul-noite em decomposição e amarrado com uma fita desbotada e desfiada.

Ele repousou sobre a escrivaninha. Minhas mãos tremiam. Aquilo parecia proibido. Uma intrusão. Elétrico.

A fita foi desatada, caindo flácida e frágil. O veludo se desenrolou.

Lá dentro jaziam dois itens.

Primeiro, um livro. Um pequeno diário, encadernado em couro preto rachado. Sem título na lombada, sem nome gravado na capa. Inchado pela umidade, com páginas onduladas e rígidas.

Ele permaneceu fechado. O segundo objeto atraiu meu olhar.

Um pedaço de papel encorpado, de cor creme, dobrado ao meio. Papel artístico grosso e texturizado. Amarelado nas bordas, manchado pelo tempo.

Ele se abriu.

O ar deixou meus pulmões em um ímpeto.

Um Charcoal portrait. Um esboço inacabado feito a carvão.

Um homem.

Capturado em um perfil de três quartos, a cabeça virada como se tivesse acabado de olhar para cima para encontrar o olhar do artista. Traços ousados e confiantes, linhas escuras cortando o papel creme.

Marcante. Não era bonito daquela forma fácil e simétrica dos modelos de capa. Uma beleza perigosa, de traços afiados. Maçãs do rosto altas e aristocraticamente angulares. Um maxilar forte e obstinado, sombreado pela textura áspera de uma barba de um dia. Cabelo escuro, uma tempestade caótica de borrões de carvão varridos para trás de uma testa alta.

Mas os olhos.

O artista dedicara mais tempo aos olhos. Renderizados com detalhes requintados e assombrosos. Escuros, emoldurados por cílios pesados, ostentando uma expressão que atingia com a força física de um golpe.

Não era felicidade. Nem paz.

Solidão intensa, ardente e profunda. Inteligência feroz misturada a uma tristeza tão profunda que parecia irradiar do papel. Aprisionado. Uma tempestade contida em tinta e papel, esperando para romper.

E ele estava olhando para fora.

O silêncio do apartamento desapareceu. O prazo desapareceu. Leo, o cursor, o medo — tudo sumiu.

Havia apenas ele.

Uma sensação estranha e impossível apertou meu peito. Um estremecimento. Não apenas curiosidade. Não apenas a escritora reconhecendo um bom personagem.

Reconhecimento.

Aquele maxilar era conhecido. Aquele sulco entre as sobrancelhas. O peso daquela tristeza.

Insano. Impossível. Um desenho. Um fantasma de cento e cinquenta anos atrás.

Mas, enquanto um dedo trêmulo traçava a linha da boca feita em carvão, um solavanco de eletricidade percorreu minha pele.

"Quem é você?" O sussurro tremeu na sala silenciosa.

Os olhos encararam de volta, silenciosos, exigentes e vibrantes, chocantemente vivos.

E em algum lugar, nas camadas enterradas e silenciosas da mente, o primeiro tremor de uma resposta se formou. Um nome, surgindo da poeira e do silêncio. Um nome não inventado, mas lembrado.

Minha mão alcançou o diário.