A palavra "fã" pairava no ar viciado e recirculado do escritório de Noah, tão deslocada e afiada quanto o fragmento de vidro encontrado na língua da vítima.
Noah não falou por um longo e pesado segundo. Ele apenas encarou a Dr. Olivia Carmichael, tentando processar a audácia pura da afirmação dela. A raiva que fervilhava em suas entranhas desde o beco não explodiu; em vez disso, transformou-se em algo mais frio, mais duro. Uma diversão sombria.
Ele riu.
Foi um som curto e agudo, desprovido de qualquer humor, como um latido em uma sala vazia.
"Um fã?" Noah entrou totalmente no escritório, deixando a porta se fechar com um clique atrás dele. Ele caminhou em direção a ela, usando deliberadamente sua altura e porte físico para intimidar. "Você veio lá da sua universidade, sentou na minha cadeira, olhou para alguns JPEGs em um tablet e decidiu que o assassino que replicou perfeitamente um M.O. de vinte anos atrás é um 'fã'?"
Ele parou a poucos centímetros dela, invadindo seu espaço pessoal. A maioria dos civis teria recuado ou dado um passo para trás. Olivia não se mexeu. O queixo dela se ergueu ligeiramente, seus olhos cor de mel acompanhando-o com uma calma irritante.
"Eu não decidi, Detetive," disse ela. "As evidências decidiram."
"As evidências?" Noah desdenhou, gesticulando violentamente para o quadro de cortiça atrás dela — seu santuário para os mortos. "Eu convivo com essas evidências há vinte anos! Conheço cada respiração que o Shard deu. Sei a resistência à tração da corda que ele usou. Conheço a composição química do solo nos becos onde ele os desovou. E você entra aqui, cheirando a sabonete caro e teoria, e me diz que estou errado?"
Ele apontou um dedo para ela, sua voz caindo para um rosnado perigoso. "Isso aqui não é uma sala de aula, doutora. Não há notas aqui. Apenas corpos."
"Estou ciente disso," disse Olivia. Sua voz não vacilou, mas seus olhos endureceram. "E se você quiser parar de aumentar essa pilha de corpos, precisa parar de olhar para o passado e olhar para o que está bem na sua frente."
Para sua total descrença, ela lhe deu as costas. Caminhou direto para o quadro dele. Foi uma violação de território tão flagrante que Noah ficou tenso, pronto para removê-la fisicamente do escritório.
"Você está com raiva," observou ela, de costas para ele. "Você se sente possessivo em relação a este caso porque ele o define. Acha que minha presença é um insulto à sua experiência."
"Afaste-se do quadro," Noah alertou.
"Mas sua experiência é exatamente o que o está cegando," ela continuou, ignorando-o. Ela estendeu a mão, seus dedos delgados pairando sobre uma foto granulada da cena do crime de 2003 — Alicia Martin. "Você está procurando por semelhanças para validar seu medo de que ele tenha retornado. Eu estou procurando por anomalias."
Ela tocou na foto de Alicia Martin, depois deslizou a tela do tablet para exibir a foto que o Capitão tinha enviado a ela — a morte recente desta noite.
"Ponto um: o vidro," disse Olivia, mudando o tom para um nível profissional. "O 'Crimson Shard' original usava vidro de segurança de nível industrial. Era denteado, irregular, geralmente obtido em canteiros de obras ou janelas de carros quebradas. Era oportunista. Era bruto."
Ela apontou para o tablet. "Isso? Isso é cristal da Boêmia. Cristal de chumbo. Olhe o índice de refração, mesmo com esta iluminação. É caro. Foi cortado especificamente para este propósito. As bordas são afiadas, mas a forma é deliberada. Isso não é raiva, Detetive. Isso é vaidade. Ele não está apenas deixando uma marca; ele está organizando uma exposição."
Noah ficou em silêncio. Ele tinha notado que o vidro parecia mais limpo no beco, mas tinha descartado o fato. Ele tem refinado sua técnica, Noah pensara. Mas a explicação de Olivia atingiu um ponto sensível. Vaidade.
"Ponto dois: os nós," Olivia moveu a mão para uma foto dos pulsos amarrados de James Frye. "Seus nós de vinte anos atrás eram funcionais. Brutais. Eram amarrados apertados o suficiente para cortar a circulação imediatamente. Eram desajeitados porque foram amarrados em uma vítima que lutava."
Ela se virou para olhá-lo por cima do ombro. "Os nós na vítima desta noite são simétricos. As pontas estão escondidas. São decorativos, Detetive. São amarrados para serem fotografados, não apenas para imobilizar. São teatrais."
A mandíbula de Noah se apertou até seus dentes doerem. Teatro. Ele usara exatamente essa palavra no beco. Parece ensaiado. Ele odiava o fato de ela estar dizendo isso em voz alta.
"E, finalmente," disse Olivia, virando-se totalmente para encará-lo, "Ponto três. O erro que prova tudo."
Ela caminhou até a mesa dele, pegou um marcador vermelho e o ergueu. "Posso?"
"Não toque no meu—"
Ela não esperou. Virou-se para o quadro branco ao lado do quadro de cortiça e desenhou uma linha rápida e denteada.
"O Crimson Shard original era canhoto," afirmou ela. "Todos os golpes fatais — o ângulo de entrada, a profundidade, a direção do corte — vinham da esquerda. Estava em seus relatórios originais. Era uma das poucas coisas concretas que você sabia sobre ele."
"Eu conheço meus próprios relatórios," Noah retrucou.
"O assassino desta noite," disse Olivia, baixando a voz, enfatizando cada palavra, "é destro."
"Você não tem como saber isso por uma foto."
"Eu sei," ela rebateu instantaneamente. "Porque ele tentou imitar um golpe de canhoto. Olhe o padrão de hematomas no pescoço. A incisão começa alta na esquerda, mas o rastro... o rastro é estranho. A biomecânica está errada. É uma pessoa destra torcendo o corpo, forçando o ângulo para corresponder à lenda do Shard. É uma falsificação, Detetive. Uma falsificação de alta qualidade, mas ainda assim uma falsificação."
Ela tampou o marcador com um clique seco e o jogou sobre a mesa dele.
"Ele não é o monstro que você está caçando. Ele é um aluno. Ele estudou o trabalho do Shard, obcecou-se por ele e agora está tentando recriá-lo. Mas ele é caprichoso demais. Perfeito demais. Ele está 'aperfeiçoando' o design."
Ela o olhou diretamente nos olhos. "Ele é um fã do The Original, Detetive. E está gritando desesperadamente por sua atenção."
O silêncio inundou o escritório. Era um silêncio pesado, sufocante.
Noah a encarou. Ele queria discutir. Queria destruir a teoria dela, expulsá-la e voltar a caçar seu fantasma. Mas não conseguia.
Porque ela estava certa.
Cada ponto que ela levantou era um bisturi cortando vinte anos de tecido cicatricial. O vidro. Os nós. O ângulo estranho do corte. Ele sentira isso em suas entranhas — é perfeito demais — mas não tivera o distanciamento necessário para dar um nome a isso.
Ela teve.
Aquela mulher, que parecia pertencer a uma biblioteca, acabara de entrar em sua delegacia e dissecar o trabalho de sua vida em dez minutos.
A raiva não o abandonou, mas mudou. Não era mais apenas direcionada a ela. Era direcionada à situação. À realidade de que seu pesadelo havia sofrido uma mutação para algo novo.
Noah afundou pesadamente em sua cadeira. As molas gemeram sob seu peso. Ele esfregou o rosto com as duas mãos, sentindo de repente cada hora dos vinte anos em que esteve lutando contra isso.
"Certo," disse ele, com a voz rouca. Ele baixou as mãos e olhou para ela. "Digamos que você esteja certa. Digamos que tenhamos um imitador. Um 'fã'. E agora?"
"Agora?" Olivia encostou-se na mesa dele, cruzando os braços. Pela primeira vez, a intensidade em seus olhos suavizou apenas uma fração, revelando exaustão. "Agora você para de caçar um fantasma. Para de procurar por um homem de sessenta anos escondido nas sombras. Você começa a construir um perfil para este assassino. Narcisista. Perfeccionista. Provavelmente mais jovem. Alguém que se sente ignorado e está usando o legado do Shard para exigir reconhecimento."
"Ótimo," Noah resmungou. "Um millennial com uma faca e um complexo de herói."
Ele estava prestes a dizer mais, a perguntar como ela sabia sobre os nós sem ver o corpo de perto, quando o telefone em sua mesa tocou.
Não foi um toque normal. No silêncio espesso da sala, o trinado estridente e mecânico soou como um tiro.
Ambos estremeceram.
Noah encarou o telefone. Era sua linha direta. Apenas o Capitão e o despachante a tinham.
Ele pegou o receptor, seus olhos nunca deixando o rosto de Olivia.
"Kade."
Ele ouviu.
Seu rosto, já sombrio, endureceu como pedra. Os músculos de sua mandíbula se retesaram. O debate acadêmico, a teoria, a tensão na sala — tudo evaporou, substituído pelo gosto frio e metálico da adrenalina.
"É ele?" Noah perguntou, com a voz baixa e perigosa.
Olivia se empertigou, seu corpo ficando rígido. Ela o observava, lendo as microexpressões em seu rosto — o estreitar dos olhos, o dilatar das narinas.
Noah ouviu por mais cinco segundos. "Onde?"
Ele pegou uma caneta e rabiscou um endereço em um bloco de notas. "Estou indo."
Ele bateu o telefone no gancho. Levantou-se tão abruptamente que sua cadeira rolou para trás e bateu na parede com um estrondo. Ele pegou seu sobretudo no gancho.
"Você," ele apontou um dedo para Olivia, sua voz não deixando margem para discussão. "Fique aqui. Não se mexa. Não toque nos meus arquivos. Vou pedir para uma viatura levá-la para casa em uma hora."
Ele já estava se movendo em direção à porta, sua mente já na estrada, no sangue, na nova cena.
"Não."
A palavra foi suave, mas o parou no ato.
Noah virou-se lentamente, a mão na maçaneta. "Como disse?"
Olivia estava vestindo seu casaco. Ela o abotoou com mãos firmes, seu rosto marcado por linhas de determinação que correspondiam às dele.
"Eu disse 'não'," repetiu ela. "Você acabou de confirmar que é ele. The Fan. Você está indo para uma nova cena de crime."
"Eu estou," Noah rosnou. "Você não. Você é uma consultora civil. Você faz a papelada. Eu faço o trabalho de campo."
"Você está errado, Detetive," disse ela, dando um passo em direção a ele. "Cinco minutos atrás, o Capitão me trouxe para o caso. Isso torna este o nosso caso. E você acabou de admitir que eu entendo este assassino melhor do que você."
"Eu não admiti nada," ele mentiu.
"Não precisou. Estava na sua cara." Ela parou a trinta centímetros dele. "Ele está intensificando, não está? É por isso que você está correndo. Se ele está atacando novamente tão cedo, ele está maníaco. Está quebrando o padrão. Eu preciso ver isso. Preciso ver a divergência."
"É uma cena de assassinato, não uma excursão escolar!" Noah gritou, perdendo a paciência. "É sangue, cheiro e morte. Não é uma foto em um tablet."
"Eu sei o que é," ela rebateu, sua voz aumentando para se igualar à dele. "E eu sou a única arma que você tem contra ele agora. Ou você quer ir lá sozinho e perder as pistas novamente?"
Foi um golpe baixo. Um acerto direto em seu ego. Mas funcionou.
Noah a encarou, o peito arfando. Ele queria sacudi-la. Queria protegê-la. Queria dizer para ela voltar para sua universidade segura e deixar os monstros para ele.
Mas olhou para o quadro atrás dela — os vinte anos de fracasso.
Ele praguejou baixinho, uma série de palavrões que fariam um marinheiro corar.
"Isso aqui não é um campus universitário," ele sibilou, abrindo a porta. "Você fica dois passos atrás de mim. Não toca em nada. Não fala com os fardados. E se entrar no meu caminho, eu vou algemá-la ao carro."
Ele não esperou pela resposta dela. Passou pela porta e marchou para a delegacia.
Olivia terminou de abotoar o casaco. Ela respirou fundo, preparando-se, e o seguiu calmamente para o caos.
