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Carla

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Histórias de amor ❤️

Um Pulso Para Dois

4.9(633)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#RomanceMilitar#SecondChance#BodyguardRomance#ForcedProximity
Transformei meu coração em pedra para suportar os horrores desta guerra. Mas bastou um único olhar do homem que me destruiu para eu perceber que minha alma ainda sangrava.

Hora Zero

Eu ainda não sabia, mas o homem que invadiu meu hospital com um soldado moribundo nos braços não viera para trazê-lo de volta à vida. Ele viera para me trazer de volta à minha.

Mas naquele momento, às seis da tarde em um relógio que não significava absolutamente nada neste fuso horário esquecido por Deus, ele era apenas mais um problema. Mais uma complicação em um dia que já estava sangrando pelas bordas.

O ar dentro da tenda médica principal era espesso o suficiente para ser mastigado. Era uma sopa tóxica e sufocante, composta por antisséptico agressivo, o cheiro metálico de sangue fresco, corpos sujos e a poeira fina e granulada que conseguia penetrar em cada vedação que tínhamos. Ela cobria meus dentes; revestia minha garganta. Acima de nós, a única luminária cirúrgica em funcionamento zumbia com a energia irritada e frenética de um inseto aprisionado, oscilando o suficiente para fazer as sombras nos cantos da sala dançarem.

Lá fora, o gerador zumbia — uma vibração baixa, de estremecer os ossos, que eu sentia na sola dos pés mais do que ouvia. Era o batimento cardíaco deste lugar. Se ele parasse, nós parávamos. Se parássemos, pessoas morriam.

"A pressão está caindo na mesa três! Doutora, não consigo fazer a leitura!"

O grito veio de Sam, meu assistente. Ele tinha dezenove anos, acabado de sair de um programa de enfermagem em Ohio, e ainda olhava para feridas abertas com uma mistura de horror e descrença que eu perdera anos atrás. Seu rosto estava brilhando de suor, seus olhos arregalados e brancos por trás dos óculos de proteção.

"Duas ampolas de atropina, aplique agora", ordenei. Minha voz não parecia a minha. Era monótona, despojada de todo pânico, despojada de toda humanidade. Era a voz da máquina em que eu me tornara. "E vá para a mesa quatro, Sam. Ele está com estilhaços no quadrante inferior. Preciso que você estanque. Não olhe para isso, apenas estanque."

Eu não levantei os olhos. Não podia. Minhas mãos, envoltas em camadas duplas de látex, estavam mergulhadas dentro da cavidade torácica aberta de um sargento de trinta anos. Eu estava pinçando manualmente um vaso hemorrágico, meus dedos escorregadios e quentes. Pinçar, limpar, sugar. Pinçar, limpar, sugar. Era um ritmo macabro, uma dança fúnebre que embalava meu cérebro em um transe necessário. Aqui, no sangue e no calor, eu não precisava pensar nas cartas que teria de escrever mais tarde. Eu não precisava pensar na garrafa vazia de uísque debaixo do meu catre. Eu só precisava consertar o encanamento.

Eu era a Dr. Chloe Robinson. Eu era a rainha deste reino de caos controlado. E eu era eficiente.

De repente, as pesadas abas de lona da entrada da tenda foram abertas com tanta violência que o som estalou como um chicote, mais alto que o gerador, mais alto que os gemidos dos moribundos.

Uma parede de calor e a luz cegante do sol da tarde invadiram o interior escuro e amarelado da tenda, trazendo consigo um furacão de poeira.

E ele.

Ele era um gigante. Esse foi meu primeiro pensamento irracional. Ele bloqueava o sol, uma silhueta maciça e escura emoldurada pelo brilho ofuscante lá fora. Ele era largo como um portal, envolto em uma pesada armadura tática que estava incrustada com camadas de lama seca e manchas escuras e úmidas que eu sabia que não eram lama. Ele se movia com uma urgência predatória e aterrorizante, carregando outro homem nos braços com a mesma facilidade com que carregaria uma criança.

"Preciso de um médico! Agora!"

Sua voz não era um grito. Era um comando. Um rugido baixo e rouco que parecia vir do centro da terra. Atravessou o barulho do centro de triagem, silenciando as enfermeiras, silenciando até os pacientes.

Olhei para cima, irritada com a interrupção do meu ritmo. "Coloque-o em uma maca livre e espere sua vez."

"Ele não pode esperar!" O homem me ignorou completamente. Ele não procurou uma maca. Caminhou diretamente em minha direção, em direção ao meu campo estéril, suas botas rangendo no chão coberto de areia.

Sam se moveu para interceptá-lo, parecendo um terrier tentando parar um tanque. "Senhor, você não pode entrar aqui, isto é uma área estéril..."

O homem nem sequer diminuiu o passo. Ele afastou Sam com um braço, um gesto tão casual e, ao mesmo tempo, tão poderoso que Sam tropeçou para trás, batendo em um carrinho de suprimentos. O invasor parou a trinta centímetros da minha mesa. O calor que emanava dele era intenso — o cheiro de suor antigo, pólvora e medo cru e metálico.

Levantei os olhos, olhei para ele de verdade pela primeira vez.

Seu rosto era um mapa da guerra. Manchado com tinta de camuflagem que escorria com o suor, coberto de sujeira, sua mandíbula cerrada em uma linha de granito. Mas foram os olhos dele que me paralisaram. Eram de um azul-elétrico surpreendente, brilhando com um fogo frenético e desesperado que eu reconhecia. Eu vira aquele fogo mil vezes. Era o olhar de um homem barganhando com Deus.

Olhei para o que ele estava segurando.

O soldado em seus braços era um garoto. Não devia ter mais de dezenove anos. Sua pele tinha a cor de pergaminho antigo, cerosa e translúcida. Mas foi a perna dele que me chamou a atenção. Ou o que restava dela. Abaixo do quadril, o membro era uma ruína de carne dilacerada e osso estraçalhado. Um torniquete aplicado às pressas estava encharcado, sangue escuro pingando ritmadamente no meu chão limpo.

"Eu disse, coloque-o no chão", repeti, minha voz caindo para uma temperatura gélida e perigosa. "Ali."

"Você tem que salvá-lo", disse ele. Ele falou comigo não como uma médica, mas como uma subordinada. Estava declarando um fato. "Dê um jeito nele."

Permiti-me exatamente três segundos para uma avaliação profissional. Pupilas fixas e dilatadas. Sem elevação visível do tórax. A quantidade de sangue apenas no uniforme do Captain sugeria que o garoto havia perdido metade do seu volume. Ele estava em choque hemorrágico terminal. Era um cadáver que ainda não tinha esfriado.

"Não há nada a ser feito aqui", eu disse. As palavras eram automáticas. Eram o roteiro. "Ele perdeu sangue demais. Os sinais vitais são inexistentes. Acabou."

Voltei-me para o meu paciente na mesa. O sargento com o ferimento no peito. Ele estava em estado crítico, a pressão oscilando, mas tinha um coração forte. Ele tinha uma chance. Na aritmética brutal da triagem, ele era um 'Red Tag'. O garoto nos braços do Captain era um 'Black Tag'. Expectativa de óbito.

"O que você disse?" O rosnado foi baixo, vibrando com descrença.

Senti os dedos dele se fecharem em volta do meu bíceps.

O contato foi chocante. Seu aperto era como um torno de aço, abrasador através do fino algodão azul do meu uniforme cirúrgico. Por um breve segundo, o mundo inteiro se estreitou naquele único ponto de pressão. A surpresa, quente e aguda, atravessou a dormência praticada que eu usava como uma segunda pele.

Ninguém me tocava na minha tenda. Ninguém ousava. Eu era a linha entre a vida e a morte. Eu era intocável.

"Solte meu braço, Captain", eu disse. Eu não gritei. Falei com a autoridade silenciosa e letal de uma cirurgã que segura um bisturi. "Agora."

"Não até você ajudá-lo", ele disparou. Ele se inclinou, invadindo meu espaço pessoal, o rosto a centímetros do meu. Eu conseguia ver os pontos individuais de dourado em seus olhos azuis, as pupilas dilatadas de um homem sob o efeito da adrenalina.

"Eu não posso ajudá-lo", enunciei cada palavra com precisão fria, sustentando o olhar dele sem vacilar. "Olhe para ele, Captain. Olhe de verdade. Ele se foi. O que eu posso fazer é salvar o homem nesta mesa. E a garota com estilhaços no abdômen ali. E os outros três esperando por esta vaga. Eles têm uma chance. Ele não."

Puxei meu braço, mas o aperto dele não vacilou. Apertou mais.

"Isso se chama triagem", sibilei. "É a única lei nesta sala. Sugiro que aprenda o que significa."

Vi um músculo saltar em sua mandíbula. Ele estava travando uma guerra em duas frentes: uma contra o inimigo que fizera aquilo com seu homem, e outra contra a realidade fria e dura que eu estava empurrando goela abaixo dele.

"O nome dele é Private Miller", disse ele. Sua voz falhou, apenas uma fratura no aço, mas foi o suficiente para deixar a agonia transparecer. "Ele tem dezenove anos. Ele tem uma esposa, doutora. Uma esposa grávida."

Meu coração — esse órgão traidor e estúpido que eu tentava tanto ignorar — deu um solavanco doloroso no peito. Por um segundo, os sons da tenda desapareceram. Uma esposa. Um bebê. Fechei os olhos com força, afastando a imagem de uma jovem em casa, esperando por uma carta que destruiria sua vida.

Abri os olhos novamente. Eu os tranquei. Coloquei-os na caixa com todos os outros.

"Muitos deles têm esposas, Captain", disse eu suavemente, brutalmente. "Muitos deles têm filhos. Meu trabalho não é confortá-los. Meu trabalho é garantir que pelo menos alguns deles consigam voltar para casa. Agora, tire as mãos de mim, ou farei com que a segurança o remova."

Ele me encarou. Parecia que queria me estrangular. Parecia que queria implorar. O conflito rugia por trás de seus olhos, uma tempestade de dever e desespero. Ele olhou para o garoto em seus braços, depois para o paciente em minha mesa, depois para Sam, que nos observava com o terror estampado no rosto.

Lentamente, dolorosamente, ele soltou meu braço. A marca de seus dedos queimava na minha pele.

"Você..." ele começou, a voz carregada de desprezo. "Sua fria..."

Foi exatamente naquele momento, naquele silêncio esticado até o limite, que um som irrompeu atrás dele.

Não foi uma bomba. Não foi um tiro. Foi pior.

"Doutora!" Sam gritou. Ele não estava olhando para nós. Estava apontando para o monitor conectado ao meu paciente. O sargento. Aquele com o ferimento no peito. Aquele que tinha uma chance.

Eu me virei.

A linha vermelha na tela, que até instantes atrás era um ritmo fraco, mas constante, falhou. Oscilou uma vez, desesperada e denteada, e então... estabilizou.

Uma linha verde e reta.

E então veio o som. O tom longo, agudo e contínuo que é a trilha sonora universal do fracasso.

Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeep.