TaleSpace

O Mercenário

A oito mil milhas da clareira ensolarada na Costa Rica, Bogotá estava se afogando.

Não era uma tempestade; era um cerco. Uma garoa fria e implacável que caía há três dias seguidos, transformando o ar em uma sopa de vapores de diesel e névoa cinzenta. No distrito de Ciudad Bolívar, a chuva não limpava as coisas; apenas tornava a sujeira mais escorregadia. As ruas eram rios de lama e lixo, refletindo o brilho doentio dos postes de sódio oscilantes.

Ryan Knox não sentia o frio. Ele não sentia o cheiro do lixo apodrecido ou o odor acre de óleo de fritura dos vendedores de rua. Ele era um vácuo na paisagem.

Ele estava parado na sombra mais profunda de um beco estreito, com as costas pressionadas contra o concreto áspero e úmido da parede de um armazém. Estava vestido com trajes escuros e discretos — calças táticas que pareciam calças cargo, uma jaqueta impermeável pesada que ocultava as placas de cerâmica de seu colete balístico. Para um transeunte, ele era apenas mais uma sombra em uma cidade cheia delas.

Mas Knox não estava apenas vagando. Ele estava caçando.

Seu alvo ficava do outro lado da rua: um prédio de três andares de blocos de concreto sem pintura que parecia um dente podre. Estava espremido entre uma loja de pneus que cheirava a borracha queimada e um abatedouro que fora interditado anos atrás, mas que ainda cheirava a cobre e medo.

Tecnicamente, o prédio era uma boate chamada El Paraíso. A música salsa ecoava lá de dentro, com o grave pesado o suficiente para estremecer os dentes de qualquer um que passasse. Para os moradores locais, era um lugar para perder o salário de uma semana em pôquer ilegal. Para as informações de Knox, era um esconderijo para o cartel El Eje — The Axis.

E lá dentro, sentado em um colchão manchado e provavelmente molhando suas calças caras, estava Alastair Finch.

Knox verificou o relógio. 02:14 da manhã.

Finch era o CFO de uma empresa farmacêutica de médio porte em London. Ele havia sido sequestrado na rua quarenta e oito horas atrás. Os sequestradores — bandidos de baixo escalão tentando subir na hierarquia do cartel — queriam dez milhões de libras. Eles achavam que tinham fisgado uma baleia. Não perceberam que estavam nadando em um tanque com tubarões.

Knox observava a entrada. Dois guardas. Ambos jovens. Ambos entediados.

Um estava encostado no batente da porta, fumando um cigarro, a brasa brilhando em laranja vivo na penumbra. O outro andava de um lado para o outro, chutando uma poça, a mão ajustando constantemente a Glock 17 enfiada no cós da calça. Amadores. Estavam com frio, estavam cansados e estavam complacentes.

Eles confiavam na reputação do cartel para mantê-los seguros. Não sabiam que Knox não se importava com reputações. Ele só se importava com o contrato.

Um caminhão de entrega, carregado com barris de cerveja, passou ruidoso pela rua. Ele atingiu um buraco com um estrondo metálico que ecoou como um tiro.

Perfeito.

Knox não correu. Correr atraía o olhar. Ele se moveu com uma graça fluida e aterradora, cruzando o asfalto molhado no exato momento em que os freios a ar do caminhão sibilaram, abafando o som de suas botas.

Ele alcançou o guarda que fumava primeiro.

O homem abriu a boca, talvez para gritar, talvez apenas para tossir. Ele nunca teve a chance. A mão esquerda de Knox disparou, agarrando a garganta do homem, esmagando a laringe antes que um som pudesse escapar. No mesmo movimento, Knox desferiu o punho direito no plexo solar do homem. O guarda desmoronou silenciosamente, seus olhos revirando. Knox o baixou suavemente até o pavimento molhado, como um amante deitando sua parceira.

O segundo guarda se virou. Ele viu Knox — uma forma escura surgindo do chão. Sua mão tateou em busca da arma na cintura.

Tarde demais.

Knox avançou para dentro da guarda do homem. Ele não usou o punho desta vez. Usou o calcanhar da mão, golpeando-o para cima, no nariz. Houve um estalo úmido e nauseante de cartilagem sendo empurrada contra o osso. A cabeça do guarda pendeu para trás e ele amoleceu, seu cérebro desligando pelo choque.

Knox o segurou, arrastou-o para as sombras do portal e o escorou ao lado do amigo.

Trinta segundos. A rua estava vazia novamente. A salsa continuava a pulsar, alheia a tudo.

Knox ajustou as luvas. Ele sacou uma SIG Sauer P226 com silenciador da cintura, verificou a câmara e entrou.

O cheiro o atingiu instantaneamente — um coquetel de cerveja choca, colônia barata e agressividade masculina concentrada. O salão principal era uma névoa de fumaça de cigarro. Uma dúzia de homens estava amontoada em torno de mesas de cartas, gritando por cima da música. Um barman limpava um copo com um pano sujo.

Knox coldreou sua arma. Uma arma na mão ali causaria pânico, um tiroteio. Ele precisava de precisão cirúrgica, não de um massacre. Ele precisava ser um fantasma.

Ele se moveu pela multidão. Caminhava com propósito, ombros erguidos, olhos escaneando, mas nunca travando contato. Ele projetava uma aura de pertencimento, de autoridade. Eu deveria estar aqui. Você não quer me perguntar o porquê.

Os homens saíam do seu caminho sem saber o motivo. Era instintivo — a presa sentindo um predador e dando-lhe passagem livre.

Ele chegou aos fundos da boate. Uma porta de metal, enferrujada nas bordas, levava às salas privativas. Um segurança enorme estava sentado em um banquinho, com uma espingarda sobre as coxas maciças. Ele assistia a um jogo de futebol em uma pequena TV portátil.

Knox não diminuiu o passo. Ao se aproximar, ele enfiou a mão no bolso e puxou um rolo grosso de dólares americanos — a língua universal de Bogotá.

Ele lançou o rolo. Ele caiu com um baque pesado no colo do segurança.

O grandalhão olhou para baixo, surpreso. Olhou para o dinheiro. Depois olhou para Knox.

Knox levou um dedo aos lábios. Seus olhos eram lascas de gelo frias e mortas. Pegue e viva, diziam seus olhos. Ou morra bem aqui.

O segurança olhou para o dinheiro novamente. Era mais do que ele ganhava em um ano. Ele pegou o rolo lentamente, deslizou-o para o bolso e voltou sua atenção para o jogo de futebol.

Knox abriu a porta e passou por ela.

O corredor no andar de cima era mais silencioso. As paredes estavam descascando, manchadas pela umidade. Knox contou as portas. Uma. Duas. Três.

Quarto 304.

Ele parou. Podia ouvir vozes lá dentro.

"Por favor... minha esposa... ela não tem acesso às contas..."

Era Finch. Sua voz era aguda, fina, à beira de quebrar.

"Cale a boca, gringo", rosnou uma voz mais grave. "Você fala demais. Talvez eu corte um dedo para mandar para ela, hein? Daí ela encontra o acesso."

Knox respirou fundo. Ele se concentrou. O mundo se reduziu à maçaneta da porta, à fechadura e à geometria da sala adiante.

Ele não arrombou a porta com um chute. Isso era coisa de filme. Ele usou uma pequena ferramenta especializada para abrir a fechadura de tambor barata. Levou quatro segundos.

Click.

Knox girou a maçaneta e empurrou a porta. Entrou baixo e rápido.

O quarto era uma caixa esquálida. Uma única lâmpada nua pendia do teto. Alastair Finch estava amarrado a uma cadeira de madeira no centro, o rosto machucado, o terno arruinado.

De pé sobre ele estava o executor — um homem magro e tenso, com tatuagens subindo pelo pescoço. Ele segurava uma faca de caça serrilhada, brincando com a ponta contra a orelha de Finch. Uma pistola estava sobre a mesa, fora do alcance.

O executor girou ao som da porta. Seus olhos se arregalaram. Ele avançou em direção à pistola.

Knox não atirou. Ele encurtou a distância em dois passos.

A mão do executor tocou a arma. Ele começou a erguê-la.

A mão esquerda de Knox prendeu o ferrolho da pistola e a mão do executor, forçando o cano para baixo. Com a mão direita, Knox enterrou uma faca — uma karambit de lâmina curva — no bíceps do homem, rompendo o músculo que controlava o braço.

O executor gritou, deixando a arma cair.

Knox não parou. Ele girou o homem, chutando a parte de trás de seu joelho para derrubá-lo, e envolveu o pescoço dele com o braço em um mata-leão. Ele apertou. O grito foi interrompido. O homem se debateu por três segundos e depois amoleceu.

Knox manteve o estrangulamento por mais cinco segundos para garantir a inconsciência, depois deixou o corpo deslizar para o chão.

O silêncio retornou ao quarto, quebrado apenas pela respiração pesada e em pânico de Alastair Finch.

Finch encarava Knox com olhos arregalados e aterrorizados. "Meu Deus... Oh, meu Deus... Você o matou?"

"Ele está dormindo", disse Knox, com a voz plana. Ele embainhou a faca e caminhou até Finch. "A menos que você continue fazendo barulho. Daí eu posso deixá-lo acordar."

Ele cortou as braçadeiras de nylon que prendiam os pulsos de Finch. Finch pendeu para a frente, esfregando a pele esfolada, soluçando de alívio.

"Obrigado... obrigado", balbuciou Finch. "Achei que estivesse morto. Achei que... Você é do SAS? A embaixada te enviou?"

Knox agarrou Finch pelas lapelas de seu terno Armani arruinado e o colocou de pé.

"Você consegue andar?"

"Sim... sim, acho que sim."

"Bom. Estamos saindo. Mantenha a cabeça baixa. Não olhe para ninguém. Se eu disser para correr, você corre. Se eu disser para se abaixar, você se abaixa. Entendeu?"

"Sim. Sim, eu entendo." Finch olhou para Knox com algo próximo à adoração. "Você é um herói. Minha empresa... Mayfair-Strategic... eles vão te pagar o que você quiser. Um bônus. Uma medalha!"

Knox o ignorou. Ele empurrou Finch em direção à porta. "Ande."

A saída foi mais difícil. A adrenalina da infiltração havia dissipado, substituída pelo cálculo frio da exfiltração. Eles pegaram as escadas dos fundos, evitando o salão principal da boate. Knox conduziu Finch para o beco, sob a chuva.

O ar frio atingiu Finch como um tapa. Ele estremeceu violentamente.

"Meu carro está no fim do quarteirão", disse Knox, escaneando os telhados em busca de vigias. "Sedã preto."

Eles se moveram rapidamente, chapinhando nas poças. Finch era desajeitado, tropeçando, mas Knox mantinha a mão firme em seu braço, impulsionando-o para frente como uma peça de bagagem.

Chegaram ao carro — uma Toyota blindada e discreta. Knox empurrou Finch para o banco do passageiro e deslizou para trás do volante.

Ele ligou o motor. As travas se fecharam com um estalo reconfortante.

Finch recostou-se no banco, rindo histericamente. "Conseguimos. Nós realmente conseguimos! Oh, graças a Deus. Leve-me ao aeroporto. Preciso de uma passagem de primeira classe para London e uma bebida. Uma bebida muito grande."

Knox colocou o carro no trânsito, os limpadores de para-brisa rítmicos e hipnóticos. Ele não virou em direção ao aeroporto. Virou em direção às montanhas.

"Não vamos para o aeroporto", disse Knox calmamente.

Finch parou de rir. Olhou para Knox, com a confusão nublando seu rosto. "O quê? Mas... eu preciso voltar. A reunião do conselho é amanhã. Se eu não estiver lá para apresentar os lucros trimestrais..."

"Eu sei", disse Knox. "Esse é o ponto."

Finch franziu a testa. "Eu não entendo. Você me salvou."

Knox olhou pelo espelho retrovisor, verificando se havia perseguição. "Os sequestradores queriam dez milhões de libras, Alastair. Sua empresa, Mayfair-Strategic, ofereceu duas. Eles estavam negociando. Estavam dispostos a deixar você sentado naquele quarto por mais uma semana para economizar alguns milhões."

Finch empalideceu. "Isso... isso não é verdade. Eles não fariam isso."

"Eles fizeram", disse Knox. "Mas seus concorrentes... eles foram muito mais decisivos."

Finch congelou. "Concorrentes? Você quer dizer... a RivalCorp?"

Knox assentiu. "A RivalCorp não queria você morto. Mas eles definitivamente não queriam você naquela reunião amanhã. Sua apresentação sobre o medicamento Xolaris... ela teria aumentado as ações da Mayfair em vinte por cento. A RivalCorp vai lançar a versão deles na semana que vem. Eles precisam que aquelas ações continuem baixas por apenas mais alguns dias."

Finch o encarou, o horror surgindo lentamente. "Você... você não está me resgatando."

"Estou te extraindo", corrigiu Knox. "Vou levá-lo para um esconderijo nos Andes. Tem uma adega, um chef e nenhum telefone. Você vai ficar lá por setenta e duas horas. Ficará confortável. Estará seguro."

"Você está me sequestrando", sussurrou Finch. "Você é apenas outro sequestrador."

Knox parou em um sinal vermelho. Ele olhou para Finch. Seu rosto era uma máscara de indiferença profissional.

"Sou um contratado, Alastair", disse Knox. Ele tamborilou no volante. "Os caras do cartel? Eram amadores. Eles operavam baseados na ganância. Eu opero baseado em um contrato. A RivalCorp pagou seu resgate e meus honorários. Você deveria ser grato. Sou a opção mais cara do mercado."

O sinal ficou verde.

"Agora recoste-se", disse Knox, acelerando na noite escura e molhada pela chuva. "E tente aproveitar a viagem. Você vale mais para mim vivo do que jamais valeu para sua empresa."

Finch desabou em seu assento, derrotado, observando a cidade passar.

Ryan Knox seguiu dirigindo. Ele não sentia culpa. Não sentia triunfo. Apenas sentia a satisfação de um trabalho feito de acordo com os termos. O contrato era soberano. E em um mundo cheio de caos, Knox era o único homem que sempre entregava exatamente o que fora pago para fazer.

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