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Lúcia

Lúcia

Coração e prosa 📖

O Perfil Carmesim

4.9(361)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
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#SuspenseRomântico#ForcedProximity#EnemiestoLovers#SlowBurn#BodyguardRomance
Passei vinte anos caçando um monstro nas sombras, apenas para encontrar minha verdadeira obsessão na mulher brilhante que ousou adentrar meu mundo sombrio.

O Homem na Chuva

O fragmento de vidro carmesim deixado na língua da vítima era uma assinatura que o Detective Noah Kade não via há vinte anos.

Era a marca de um fantasma.

Um fantasma que, contra toda lógica e razão, acabara de começar a matar novamente.

A chuva nesta cidade não limpava as coisas; apenas tornava a sujeira mais escorregadia. Transformava o beco em um rio de tinta, revolto com óleo, lixo e o cheiro metálico de sangue. Noah Kade agachou-se, os joelhos pressionando o asfalto molhado, ignorando a água fria que encharcava seu jeans. Ele não sentia o frio. Não sentia o peso úmido de seu sobretudo ou a exaustão que fora sua companheira constante por duas décadas.

Ele sentia apenas a raiva. Uma queimação fria e familiar que começava em seu estômago e subia até a garganta.

"Isso é impossível", murmurou seu parceiro, Diaz, atrás dele. O detetive mais jovem parecia sem fôlego, a voz fraca contra o pano de fundo da tempestade. "Kade, diga que não estou vendo o que acho que estou vendo".

Noah o ignorou. Ignorou o brilho vermelho e azul das viaturas que pintava as paredes de tijolos em um pesadelo estroboscópico. Seu mundo inteiro havia se reduzido à mulher à sua frente.

A vítima, uma morena na casa dos trinta anos, estava posicionada contra a alvenaria úmida como se fosse uma peça em uma galeria macabra. Suas pernas estavam esticadas, a cabeça levemente inclinada para trás, os olhos fechados. Seus braços estavam cruzados sobre o peito, a corda prendendo seus pulsos amarrada em um nó em forma de oito meticuloso e terrivelmente perfeito. Suas roupas estavam intactas, limpas, exceto pelo corte anatômico único e preciso em sua artéria carótida.

E, claro, o cartão de visitas.

Noah aproximou-se mais, ligando sua lanterna de alta potência. O feixe cortou a escuridão, iluminando o rosto dela. Sua boca estava levemente aberta. Repousando ali, perfeitamente centralizado em sua língua, havia um pequeno e afiado fragmento de vidro boêmio vermelho. Brilhava sob a luz forte do LED como uma joia.

A imprensa o apelidara de "The Crimson Shard" lá em 2003. Era cativante. Vendia jornais. Mas Noah o chamava de o monstro que definira seu ano de recruta e o assombrara em todos os anos seguintes. The Shard era a razão de Noah verificar suas trancas três vezes por noite. A razão de ele não ter uma esposa, ou um cachorro, ou uma vida fora deste distintivo.

"Isolem o perímetro!", rugiu Noah, levantando-se abruptamente. Sua voz ecoou nas paredes estreitas, assustando um fardado perto da entrada do beco. "Quero um raio de dois quarteirões fechado. Ninguém entra, ninguém sai. Tragam a perícia para cá agora. E, pelo amor de Deus, tirem o Officer Miller da zona de respingos antes que ele vomite na minha cena de crime".

Ele observou o recruta se afastar apressado, com o rosto pálido e a mão sobre a boca. Noah passou a mão pelo rosto, limpando a chuva, mas a imagem do fragmento de vidro estava queimada em suas retinas.

Vinte anos.

Vinte longos e silenciosos anos ele esperara por este momento. Ele o temera, o analisara, o ansiara. Acordara em suores frios, sonhando com o dia em que The Shard voltaria para terminar o que começou.

E agora ele estava de volta.

Noah voltou-se para o corpo, estreitando os olhos. Forçou-se a mudar de marcha. Deixou de ser a vítima assombrada e passou a ser o Detective. Precisava ver os detalhes, não o fantasma.

Olhou novamente para os nós. Um oito perfeito. Olhou para o corte. Cirúrgico. Limpo. Um único movimento.

"Exatamente como Alicia Martin em 2003", sussurrou para si mesmo, o nome com gosto de cinzas. "Exatamente como James Frye em 2005".

O M.O. era idêntico. Até o último detalhe.

E esse era o problema.

Era perfeito demais.

"Kade", Diaz aproximou-se novamente, baixando a voz para que os fardados não ouvissem. "Todos pensávamos que ele estivesse morto. Ou preso. Ou que tivesse se mudado para a Europe. Vinte anos é muito tempo para... apenas fazer uma pausa. Assassinos assim não se aposentam".

"Isso não é uma pausa. É um anúncio", disse Noah, passando a mão pela barba por fazer em sua mandíbula. O atrito o mantinha focado.

"Mas por que agora?", perguntou Diaz, balançando a cabeça.

"Não sei". Noah caminhou em um círculo lento ao redor do corpo, cuidadoso para não perturbar o fluxo de sangue. "Mas olhe para isto, Diaz. Olhe de verdade".

"Estou olhando, chefe. É o The Shard. É exatamente como nos arquivos antigos".

"Não", disse Noah, a percepção se assentando em seu estômago como uma pedra. "Os arquivos antigos... eles tinham uma fúria neles. Os nós eram apertados, brutais, funcionais. Eram feitos para conter uma vítima que lutava. Estes?" Ele gesticulou com a lanterna. "Estes são simétricos. As pontas estão escondidas. O vidro não foi apenas empurrado na boca; foi colocado. Centralizado".

"E?"

"E que o The Shard original era um açougueiro", rosnou Noah. "Isto... isto é teatro. É a mesma música, Diaz, mas o tom é diferente. É mais limpo. Como se o assassino tivesse passado os últimos vinte anos refinando sua arte em um laboratório".

Ele se afastou do corpo, a bile subindo em sua garganta. Precisava de ar. Precisava socar algo.

Ele marchou em direção ao seu Chevy descaracterizado, suas botas pesadas chapinhando em poças que refletiam as luzes caóticas da cena. Ele odiava aquilo. Odiava a arrogância da situação. The Shard não apenas matava; ele performava. E Noah era o espectador involuntário para quem ele havia comprado o ingresso.

Seu telefone vibrou violentamente no bolso. Ele checou a tela. Captain Miller.

Claro. Os abutres já estavam circulando.

"Não diga nada", Noah atendeu, entrando no santuário seco de seu carro e batendo a porta. O silêncio repentino era ensurdecedor.

"Ele voltou, não voltou?" A voz do Captain era cansada, pesada com o peso da burocracia e das más notícias. Não havia choque em seu tom, apenas resignação. "Os radares da mídia já estão disparando. 'Crimson Shard' está nos trending topics do Twitter. O prefeito está me ligando a cada trinta segundos".

"É o trabalho dele. Eu o reconheceria em qualquer lugar", disse Noah, encarando a chuva através do para-brisa. "A assinatura está lá. O vidro, os nós, a garganta".

"Mas?" O Captain o conhecia bem demais.

"Mas é mais limpo", admitiu Noah, odiando como aquilo soava. "Parece... ensaiado".

O silêncio se estendeu na linha, preenchido apenas pelo tamborilar rítmico da chuva no teto.

"Então você conhece o protocolo", o Captain finalmente disse. "Esta é uma reativação de alto perfil. Não vamos lidar com isso internamente. Vamos trazer uma consultora. O prefeito quer isso resolvido para ontem".

Uma fúria fria inundou o sistema de Noah, mais quente e rápida do que antes.

"Eu não preciso de uma maldita 'consultora' para me dizer o que estou vendo", rebateu Noah, segurando o volante com força. "Eu estava lá há vinte anos, Miller. Trabalhei em todas as cenas. Conheço esse cara melhor do que conheço minha própria família. Preciso de um mandado de escuta nas antigas conexões, preciso de acesso aos arquivos, preciso de pessoal—"

"Você precisa dela", interrompeu o Captain, sua voz definitiva. Afiada. "Ela é a única especialista neste cara que já fez sentido. Ela escreveu a tese sobre ele que o FBI usa para treinamento. Dr. Carmichael. Ela já está a caminho. Enviei para ela as fotos da cena".

O sangue de Noah gelou. Dr. Olivia Carmichael.

Ele conhecia o nome. Odiava o nome.

Ele lera seus artigos em jornais forenses. Lera sua tese: "Pathological Narcissism and Ritualistic Behavior: An Analysis of the 'Crimson Shard' Cold Cases".

Era tudo teoria. Todo aquele jargão acadêmico. Toda aquela porcaria de psicobaboseira do mundo acadêmico dela, escrita por alguém sentado em uma poltrona de couro com uma xícara de chá, a quilômetros de distância do cheiro de podridão e morte. Ela era uma analista que vivia em um mundo de texto em preto e branco, enquanto Noah vivia na realidade cinzenta e sangrenta.

"Ela é uma civil", argumentou Noah, a voz aumentando de tom. "Ela é um risco. Não tem ideia do que esse cara é capaz. Colocar uma civil na mira do The Shard é o mesmo que assinar a sentença de morte dela".

"Então você a mantém segura", ordenou o Captain. "Isso é uma ordem direta, Detective. Ela está esperando no seu escritório. Vá. Agora".

A linha ficou muda.

Noah encarou o telefone, tentado a jogá-lo pelo para-brisa. "Droga!", gritou ele, batendo o punho no volante. O impacto estalou seus nós dos dedos, mas a dor o trouxe de volta à realidade.

Este caso já era um pesadelo. Uma ressurreição de seu pior fracasso. E agora, o Captain o estava transformando em um circo.

Ele ligou o motor, e o velho carro rugiu à vida. Atravessou a cidade em alta velocidade, dirigindo rápido demais para as condições do tempo. Gotas de chuva escorriam pelo vidro como lágrimas de sangue sob a luz neon dos bares e mercearias que passavam.

Ele imaginou a mulher que estava prestes a conhecer. Tinha uma imagem clara na cabeça: Dr. Carmichael. Ela seria mais velha, quadrada, vestindo um paletó de tweed com cotoveleiras. Olharia para ele por cima do nariz através de óculos grossos. Provavelmente começaria a analisar sua "raiva reprimida" e seu "complexo de salvador" antes mesmo de ele pendurar o casaco.

Ele já a odiava. Odiava o fato de precisar dela — ou melhor, de o Captain achar que ele precisava dela.

Ele entrou na delegacia como um touro, sacudindo a água de seu sobretudo, ignorando os cumprimentos do sargento de plantão. A delegacia zumbia com o burburinho de baixo nível do turno da noite, telefones tocando, teclados estalando.

Dirigiu-se direto para seu escritório, o aquário de paredes de vidro nos fundos da central.

Ele a viu através do vidro antes mesmo de chegar à porta.

Ela estava de costas para ele.

Ela não era o que ele esperava.

Não havia tweed. Sem cotoveleiras. Ela vestia uma blusa preta de gola alta simples e ajustada e calças escuras sob medida. Sua silhueta era esguia, mas mantinha uma tensão, uma postura que falava de alerta, não de relaxamento. Seu cabelo castanho estava preso em um coque apertado e severo, expondo a linha graciosa de seu pescoço.

Ela não parecia uma acadêmica assustada esperando pelo grande detetive malvado. Parecia... focada.

Estava encarando o quadro de cortiça em sua parede.

Noah sentiu uma pontada de violação. Aquele era o seu quadro. Seu santuário para o fracasso. Continha vinte anos de obsessão — fotos pós-morte de Alicia e James, cronogramas, mapas da cidade com alfinetes vermelhos marcando os locais de descarte, recortes de jornais amarelados gritando SHARD ATACA NOVAMENTE. Era o interior de seu cérebro, estampado em uma parede para que todos vissem, e aquela estranha o estava dissecando.

Ele escancarou a porta. O impacto da madeira contra o batente foi alto o suficiente para fazer o recruta na mesa ao lado dar um pulo, mas a mulher nem estremeceu. Ela nem sequer se virou imediatamente.

"Dr. Carmichael", latiu Noah, entrando na sala e deixando a porta bater atrás de si. "Você está no meu caminho".

Ela se virou lentamente.

Noah parou.

Seu estereótipo da "acadêmica da torre de marfim" desmoronou, mas ele percebeu que havia errado nos detalhes, não na essência. Não era sobre as roupas dela. Era sobre os olhos dela.

Ela tinha os olhos mais aguçados e inteligentes que ele já vira. Eram de um tom impressionante de avelã, emoldurados por cílios escuros, e eram totalmente desprovidos de medo. Não havia hesitação, nenhum pedido de desculpas por estar ali. Apenas análise fria e dura.

Ela olhou para ele, e Noah sentiu como se ela estivesse lendo o código de seu DNA. Ela absorveu seu casaco molhado, seus punhos cerrados, a lama em suas botas e a exaustão gravada em seu rosto em um único olhar.

"Detective Kade", disse ela. Sua voz era calma, clara e possuía uma qualidade melódica que parecia fora de lugar naquela sala sombria. Não havia tremor. "O Captain me encaminhou suas fotos preliminares do beco".

"E?", desafiou ele, cruzando os braços sobre o peito. Moveu-se para ficar entre ela e o quadro, uma barreira física protegendo seu trabalho. "Você está aqui há dez minutos. Presumo que já tenha resolvido o caso?"

O sarcasmo pingava de sua voz, mas ela não mordeu a isca. Seus olhos encontraram os dele, inabaláveis.

"Eu não o resolvi", disse ela. "Mas eu o analisei".

Ela deu um passo em direção a ele. Era menor que ele, tendo que inclinar a cabeça ligeiramente para trás para encontrar seu olhar, mas não cedeu nem um centímetro de terreno.

"E você está errado", disse ela com absoluta certeza.

Noah piscou. "Como é?"

"The Shard", disse ela, gesticulando vagamente para as fotos em sua mesa. "Ele não voltou. Este é um The Fan".