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O Coelho Branco

O tempo não parou apenas; ele coalhou.

Parada sozinha no estrado, o vestido branco de repente pareceu menos uma peça de alta costura e mais um avental de chumbo. O ar no salão de festas ficou espesso, sufocante, pressionando os tímpanos com o peso de perguntas não formuladas. O celebrante, um senhor gentil com óculos equilibrados precariamente no nariz, limpou a garganta — um som agudo e seco que ecoou como a batida de um martelo de juiz. Suas bochechas ficaram de um vermelho profundo e constrangido.

Nas primeiras fileiras, as máscaras da alta sociedade começaram a escorregar. Os rostos impecáveis e ricos que estavam radiantes momentos atrás agora se aguçavam com uma curiosidade voraz. A admiração fora substituída pela fome de espectadores em um acidente de carro, sentindo cheiro de sangue na água.

A música do órgão já havia morrido há muito tempo, deixando um vácuo de silêncio tão profundo que o roçar de uma saia de seda três fileiras atrás soou como um tiro. Naquele silêncio ensurdecedor, os únicos sons eram o bater frenético de um coração contra as costelas e os sussurros sibilantes serpenteando pelos bancos.

“…ele saiu? Bem no meio…” “…um problema com a transmissão? Que ridículo…” “…ela parece que vai desmaiar…” “…você acha que ele descobriu sobre o…?”

Desmaiar parecia uma opção viável. Meus joelhos tremiam tão violentamente que tiveram que ser travados para eu não desabar. Para onde ele tinha ido?

“Não se mova.”

O comando pairava no ar, uma gaiola invisível. Uma noiva de mármore branco, abandonada no altar. Fugir não era uma opção. Fugir significava quebrar o acordo. Quebrar o acordo significava que Leo morreria.

Respire. Inspira. Expira. O grande relógio na parede dos fundos zombava de mim com seus tiques lentos. Apenas dez minutos haviam se passado desde que a cerimônia começou. Vinte minutos restantes. Apenas vinte minutos parada, sendo a bonequinha bem-comportada na caixa cara.

A porta lateral — aquela pela qual Markus havia desaparecido — abriu-se novamente.

Os sussurros foram cortados instantaneamente. O silêncio tornou-se absoluto, pesado e expectante.

Era Markus.

Ele estava de volta.

Mas o homem que retornou não era o homem que havia saído. O Markus que saiu estava tenso, distraído, um CEO lidando com uma crise súbita. O Markus que retornou estava… perfeitamente calmo. Calmo demais. Era a quietude não natural do oceano antes de um tsunami recuar da costa.

Ele caminhou sem pressa de volta ao altar. Seu passo era suave, predatório, devorando a distância. Cada passo no tapete felpudo ecoava como uma batida de tambor no oco do meu peito. Ele ignorou o celebrante. Ignorou os centenas de convidados que o observavam com a respiração suspensa. Ele caminhou direto em minha direção.

“Graças a Deus,” as palavras foram uma oração silenciosa de alívio tão profundo que quase me causou tontura. Ele estava de volta. A cerimônia terminaria. O dinheiro ficaria.

Markus parou na minha frente.

De perto, a mudança nele era aterrorizante. Seu rosto era uma máscara de marfim, sem expressão, mas seus olhos… seus olhos eram duas pedras cinzentas no fundo de um rio congelante. Não havia calor. Nenhum pedido de desculpas. Nenhum reconhecimento da mulher com quem ele deveria estar se casando.

Ele parou tão perto que o perfume dele me envolveu novamente — ozônio, couro caro e poder. Mas havia uma nota nova no acorde agora. Algo sutil, agudo e metálico. Como moedas de cobre.

Ele não disse nada. Apenas olhou.

Era o olhar de um cientista examinando um espécime que desafiava classificações. Um quebra-cabeça complexo que ele tentava desmontar apenas com o olhar. Ele estava procurando algo em meu rosto, descascando camadas com aqueles olhos frios.

“Markus?” O sussurro tremeu sob o peso do seu escrutínio. “Está… está tudo bem?”

Ele sorriu.

Foi um lento e terrível curvar de lábios que não atingiu seus olhos. Era o sorriso de um lobo que acuou um coelho e se diverte com seu tremor.

Virando-se para os convidados e o celebrante, sua postura mudou instantaneamente. O charme estalou no lugar como um interruptor sendo acionado.

“Minhas mais sinceras desculpas pelo atraso,” sua voz de veludo preencheu o salão, projetando-se sem esforço até as fileiras do fundo sem microfone. “Parece que minha noiva… está se sentindo um pouco sobrecarregada. O calor, a emoção… Ela precisa se retirar por um momento, apenas para tomar um pouco de ar fresco.”

Uma onda de risadas aliviadas percorreu a multidão. Ah, apenas uma noiva nervosa. Que pitoresco. A tensão se quebrou.

Ele se voltou para mim, e o charme desapareceu instantaneamente, substituído por aquele olhar frio e morto. Ele me ofereceu o braço.

O celebrante assentiu em alívio, fechando seu livro. Os convidados começaram a conversar entre si, o show aparentemente encerrado para um breve intervalo. Tudo parecia respeitável. Tudo parecia bem.

Exceto por uma coisa.

Enquanto ele oferecia o braço, o punho rígido de sua camisa branca imaculada deslizou levemente para trás, revelando uma pesada abotoadura de diamante.

E logo abaixo dela, no tecido branco engomado, havia uma mancha.

Era pequena. Talvez do tamanho de uma moeda. Úmida. Vermelho escuro.

Sangue.

O mundo se estreitou àquele único ponto carmesim. As rosas brancas, os convidados, os lustres — tudo se transformou em um ruído cinzento. Apenas o sangue permanecia nítido.

“Venha, meu amor,” ele sussurrou. A voz era baixa, íntima, mas não continha afeto. Continha uma ameaça.

Meu olhar saltou do braço dele para seus olhos gélidos.

Ele estava tentando me levar embora. Estava tentando me tirar da segurança da multidão, para longe das centenas de testemunhas. Ele estava me levando para a porta lateral. Para o lugar de onde ele acabara de vir.

O lugar de onde o sangue viera.

Instintos, moldados por anos protegendo uma criança doente, gritaram. PERIGO.

“Não.”

A palavra foi mal um sopro, mas fez o sorriso dele oscilar, uma falha na matrix. “O quê?”

Recuei um passo, afastando-me de sua mão estendida. Ergui a voz, desesperada para que o celebrante ouvisse, para que qualquer pessoa interviesse. “Estou bem. Sério, Markus. Não preciso de ar. Vamos… vamos continuar a cerimônia. Podemos terminar agora mesmo.”

Eu estava apelando aos convidados. Ao público. Ao único escudo disponível.

O rosto de Markus endureceu. A máscara rachou. Ele entendeu exatamente o que estava acontecendo. Ele sabia que eu vira algo. Ele não podia fazer uma cena. Não aqui. Não agora.

“Não seja tola, querida,” ele sibilou, o termo carinhoso soando como uma maldição. Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço, seus ombros largos bloqueando-me da visão da primeira fileira. “Você está pálida. Precisa de ar.”

Ele estendeu a mão e agarrou meu cotovelo.

Não foi o toque gentil de um amante guiando sua noiva. Foi a garra de uma armadilha de aço. Seus dedos cravaram na carne macia do meu armo, deixando hematomas profundos.

Ele começou a puxar. Ele estava me arrastando, forçando-me fisicamente em direção àquela porta lateral, tudo enquanto mantinha o rictus de um sorriso para o público.

“Markus, não! Você está me machucando!” Minha voz falhou, subindo de tom, beirando a histeria.

“Eu disse,” ele rosnou, sua voz um estrondo baixo que vibrou em meus ossos, “nós. Estamos. Saindo.”

Ele era forte demais. Meus saltos de cetim deslizavam inutilmente pelo tapete.

Minha mente corria, frenética, aterrorizada.

O que ele tinha feito? Era sangue. Meu Deus, era sangue fresco. Era o sangue dela? Celine? Ou de outra pessoa? Ele estava ferido?

Eu não sabia. Não tinha como saber. Mas uma coisa era absoluta, cristalina: se ele me arrastasse por aquela porta, para as sombras onde não havia testemunhas, eu nunca mais voltaria. Qualquer pesadelo que esperasse naquela sala me engoliria inteira.

Eu não iria com ele. Não podia.

Não.

Eu não deixaria. Não enquanto Leo estivesse esperando. Não enquanto meu filho precisasse de uma mãe.

Havia apenas uma saída.

Ele estava contando com a vergonha. Estava contando com o contrato social que dizia que noivas não fazem cenas, que mulheres vão em silêncio, que o dinheiro compra o silêncio.

Eu precisava quebrar o contrato. Eu precisava da única coisa que um homem como Markus Tremaine temia mais do que tudo: um espetáculo.

Enquanto ele me arrastava pela mesa do bolo — uma estrutura maciça e robusta que sustentava a maravilha arquitetônica de seis andares de açúcar e creme — eu agi.

Parei de lutar. Meu corpo amoleceu.

Ele não esperava por isso. Ele sentiu a resistência desaparecer e relaxou o aperto por uma fração de segundo para ajustar a pegada.

Naquele instante, eu me lancei.

Não para longe dele. Em cima dele.

Lancei todo o peso do meu corpo, canalizei todo o meu terror e adrenalina em um empurrão violento contra o peito dele.

Ele tropeçou. Ele era grande, mas estava desequilibrado e usando sapatos sociais de sola lisa. Ele cambaleou para trás, seus braços girando como moinhos em uma tentativa desesperada de encontrar apoio no ar.

Ele colidiu diretamente com o bolo de casamento.

Houve um estrondo catastrófico, de abalar a terra. A mesa cedeu sob o peso dele. Seis camadas de pão de ló, creme de manteiga e flores de açúcar desabaram em uma pilha.

Markus caiu em uma explosão de glacê branco e porcelana quebrada.

Por um batimento cardíaco, o salão mergulhou em um silêncio total e chocado.

E então, um suspiro coletivo sugou o ar da sala. Gritos irromperam.

Os seguranças, que estavam parados como estátuas no perímetro, finalmente entraram em ação. Mas o protocolo deles fora quebrado. Eles não foram treinados para isso. Hesitaram, com os olhos fixos em seu chefe invencível, agora debatendo-se em uma pilha de sobremesa arruinada.

Markus rugiu. Foi um som de pura fúria animal. Ele se levantou desajeitadamente, seu smoking arruinado, o rosto sujo de creme branco, parecendo um palhaço demoníaco.

“PEGUEM-NA!” ele gritou, apontando um dedo coberto de glacê para mim.

O feitiço se quebrou. Os guardas avançaram, empurrando os convidados.

Mas eles estavam correndo em minha direção, e eu já estava em movimento.

Não corri para a saída principal no final do longo corredor. Era longe demais. Eu nunca conseguiria.

Levantando as pesadas saias de cetim do vestido, chutei meus saltos e disparei para a porta de serviço no lado oposto da sala — a que eu vira os garçons usando para trazer o champanhe.

Pés descalços batiam contra o chão polido. O baque pesado de botas ecoava atrás de mim.

Atravessei as portas vai-e-vem e invadi a cozinha.

Caos. Gritos. O tilintar de pratos.

“Mas que di—” um chef gritou, deixando cair uma bandeja de canapés enquanto uma noiva em um vestido rasgado voava por ele como uma banshee.

Empurrei um carrinho de pratos sujos no caminho atrás de mim. Ele tombou, espalhando louça estilhaçada pelos azulejos, criando uma barreira de cacos de porcelana.

“Pare!” um guarda gritou, sua voz próxima. Próxima demais.

Uma porta de metal pesada marcada como “SAÍDA” surgiu à frente, brilhando com um sinal vermelho. Não diminuí o passo. Bati o ombro contra a barra de segurança.

O ar frio da noite atingiu meu rosto como um tapa.

Eu estava em uma doca de carregamento de concreto. O barulho da festa foi abafado atrás de mim pela porta pesada.

Abaixo, ao pé dos degraus de concreto, estava um furgão de buffet branco. Idealmente, ele estaria ligado. Não estava.

Mas a porta do motorista estava entreaberta. Um funcionário estava parado junto às portas traseiras, fumando um cigarro, alheio ao drama que se desenrolava lá dentro.

Não pensei. Pulei da doca, aterrissando com força no asfalto. O vestido rasgou audivelmente, um longo rasgo na costura.

O fumante deixou cair o cigarro, boquiaberto. “Ei! Moça!”

Subi no banco do motorista. Rezei para um Deus com quem não falava há anos. Por favor, que as chaves estejam aqui. Por favor.

Estavam. Um chaveiro pesado balançando na ignição.

Bati a porta e girei a chave. O motor engasgou, tossiu e rugiu à vida.

A porta da cozinha se escancarou. Dois guardas saíram para a doca, armas em punho.

“PARE! SAIA DO VEÍCULO!”

Pisei fundo no acelerador.

O furgão deu um solavanco para a frente com um guincho de pneus. Girei o volante bruscamente para a esquerda, tirando o fumante do caminho.

Um tiro soou. O espelho lateral estilhaçou, espalhando vidro na cabine.

Gritei, abaixando-me sobre o volante, e acelerei tudo. O furgão derrapou, os pneus soltando fumaça, e disparou pela via de serviço.

Eu não sabia para onde estava indo. O portão principal surgiu à frente, mas já estava fechando, as pesadas barras de ferro se movendo.

À direita, uma saída de serviço estreita e não pavimentada, bloqueada por uma frágil cancela de madeira.

Mirei o furgão direto nela.

Eu me preparei.

CRACK.

A madeira estilhaçou como um palito de dente. O para-brisa ficou em teia de aranha, mas aguentou. O furgão atravessou a barreira e saltou para a estrada pública.

Não tirei o pé. Corri pela estrada escura e sinuosa, colocando o máximo de distância possível entre mim e o monstro no bolo.

Eu não conseguia ver nada através das lágrimas que finalmente escorriam pelo meu rosto, cegando-me. Eu soluçava, ofegante, tremendo tanto que meus dentes batiam.

Eu estava no vestido de noiva arruinado de uma estranha. Estava dirigindo um furgão roubado. Tinha acabado de agredir um bilionário.

Eu estava livre.

Mas, ao olhar pelo retrovisor para as luzes da propriedade que se distanciavam, eu soube a verdade.

Eu nunca, em toda a minha vida, estive em maior perigo.

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