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Capítulo 3

O quarto estava frio o suficiente para que ela pudesse ver o próprio hálito ao sentar.

Delia colocou a pasta sobre a mesa à sua frente e manteve as mãos sobre ela. O livro-razão ficou ao lado, o mesmo volume que ela havia segurado sobre os joelhos dois dias antes. O contrato que seu pai havia redigido estava do outro lado da mesa, pronto para sua assinatura.

A porta se abriu. Seu pai entrou primeiro, preenchendo a moldura da porta da mesma forma que preenchia todos os cômodos por onde passava. Patrick Rourke havia construído sua fortuna sabendo quando falar e quando deixar o silêncio trabalhar por ele, mas nunca havia sido um homem quieto. Seu casaco era de lã nova, caro, cortado no estilo americano que o identificava como dinheiro de comércio no instante em que cruzava a soleira de qualquer sala de visitas irlandesa.

Atrás dele veio Edmund Ryan, o advogado. Era um homem magro e arrumado, o rosto composto na neutralidade profissional de quem havia supervisionado um grande número de transações e não tinha opinião sobre nenhuma delas.

Patrick cruzou até a mesa e se sentou. Ryan o seguiu, depositando sua pasta com a precisão cuidadosa de alguém que lidava com documentos para viver.

— Você chegou cedo — disse Patrick, como se o fato em si fosse interessante e ele ainda não houvesse decidido o que fazer com ele.

— Cheguei.

— Aproveitou para dar uma olhada nos livros, foi?

Ela encontrou os olhos dele. — Aproveitei.

Ele assentiu uma vez, o gesto de um homem que havia esperado exatamente isso e não estava descontente com o resultado. Em seguida, empurrou o contrato pela mesa em direção a ela.

— Ryan já passou por ele duas vezes. Limpo como poucos. Assine onde está marcado e teremos isso resolvido antes do jantar.

Delia olhou para o papel. Era um acordo matrimonial, os termos dispostos com a letra precisa de Ryan. Seu nome aparecia três vezes: uma no topo, uma na cláusula que transferia o capital de seu pai para as contas da propriedade e uma no final, onde havia sido deixado um espaço para sua assinatura.

Ela pegou a pasta à sua frente e a colocou sobre o contrato.

O olhar de Patrick se aguçou. Do outro lado da mesa, as mãos de Ryan pararam sobre a pasta.

— Vou assinar — disse Delia. — Este primeiro.

Seu pai recostou-se na cadeira. Não perguntou por quê. Esperou.

Ela abriu a pasta e retirou uma única folha. Os termos estavam escritos com a própria letra, cada linha clara e enxuta, da forma como havia aprendido a redigir à mesa dele em Boston quando tinha dezenove anos e ele lhe havia entregado o primeiro conjunto de contas de empreiteiros que não fechavam.

— Leia isto antes de eu assinar o seu.

Ela virou o papel para que ele pudesse ler. Ele o fez, os olhos percorrendo a página sem pressa.

— Power of attorney — disse Patrick.

— Sim.

— Sobre a propriedade. As contas, o land agent, os arrendamentos, os aluguéis. — Ele ergueu os olhos. — Tudo que é dele, você quer controlar.

— Quero.

Ryan se inclinou para a frente, a expressão inalterada. — Miss Rourke. Um power of attorney não é uma cláusula matrimonial. É um instrumento separado. Concede a você autoridade que se sobrepõe à do seu marido em todos os assuntos relativos à administração de sua propriedade.

— Eu sei o que é.

— Então a senhora compreende que é — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com o cuidado de quem havia percorrido esse caminho antes. — incomum.

— É necessário.

A mão de Patrick desceu plana sobre a mesa. Não uma pancada, apenas um som para trazer a atenção do cômodo de volta a ele.

— Explique necessário.

Ela havia se preparado para isso. Sabia que ele perguntaria, e havia preparado a resposta da mesma forma que preparava todas as respostas que lhe dava: reduzida ao essencial, sem nada que ele pudesse desmontar.

— Seu capital quita as hipotecas em etapas. Mr. Croft foi nomeado receiver. Ele volta em questão de semanas para inspecionar os livros e aceitar o primeiro pagamento. Se esses livros não estiverem em ordem quando ele chegar, a propriedade entra em receivership independentemente de quanto dinheiro você tenha investido nela. — A voz se manteve nivelada. — A propriedade não está se arruinando por causa do boycott. Está sendo roubada. E não posso provar isso se não tiver acesso aos registros.

O olhar de Ryan se voltou para o pai dela. Patrick não disse nada.

— Mr. Ryan — disse Delia. — A construção que descrevi é juridicamente sólida?

O advogado hesitou. Depois inclinou a cabeça.

— É.

— E dado que o receivership já foi aberto, e que o cronograma de pagamentos negociado pelo seu escritório está condicionado à solvência da propriedade durante o prazo de quitação — dado tudo isso —, há alguma outra forma de garantir que os registros sejam colocados em ordem antes da chegada de Mr. Croft?

Ryan a olhou por um longo momento. Ela sabia o que ele estava pesando. Não a lei. A lei era clara. Ele estava pesando se diria em voz alta o que todos sabiam: que sem alguém de olho no ombro do land agent, aqueles registros jamais ficariam limpos.

— Não — disse ele em voz baixa. — Não há.

A cadeira de Patrick raspou no chão. Ele se levantou e foi até a janela, as mãos cruzadas nas costas. Por um momento, o único som na sala foi o leve rangido do assoalho sob seu peso.

Então ele se virou, e havia algo em seu rosto que ela nunca tinha visto antes. Não era aprovação. Era reconhecimento. O olhar de um homem que acaba de perceber que está sentado à mesa com alguém que sabe exatamente quais cartas ele tem na mão.

Passou rápido. Ele sorriu, o sorriso largo e fácil que usava quando fechava um negócio, e fez um gesto em direção ao papel sobre a mesa.

— Ela te encurralou, Ryan. Assine como testemunha.

Ryan abriu sua pasta.

Delia olhou além do pai para o homem que ainda não havia falado.

Fintan estava na extremidade oposta da mesa. Estivera ali o tempo todo, tão imóvel que ela poderia tê-lo ignorado se não soubesse onde procurar. O casaco era o mesmo de dois dias atrás, boa fazenda gasta além do seu tempo, e ele estava de pé como se alguém tivesse encaixado uma barra de aço ao longo de toda a sua espinha.

Os olhos dele estavam no papel à frente dela.

— Mr. Merrick — disse ela.

Ele não ergueu o olhar.

— Se você assinar isso, manterá o título da propriedade. Mas a administração dela passa para mim. As contas, o land agent, os arrendatários — tudo. Você não terá autoridade para contrariar minhas decisões nesses assuntos.

— Você entende isso?

Aí ele ergueu o olhar. Por um momento ela viu algo tremeluzir por trás da frieza cuidadosa de seu rosto. Não raiva. Algo mais frio.

— Miss Rourke. — A voz dele era baixa e muito uniforme. — Tenho apenas algumas semanas antes de Ambrose Croft voltar para fazer um balanço desta propriedade e de tudo o que ela contém. Se os registros não estiverem em ordem quando isso acontecer, perderei Ardglass independentemente do dinheiro do seu pai. Você deixou claro que acredita que alguém está me roubando. Não sei se isso é verdade. Mas sei que estou sem tempo para descobrir. — Ele pegou a caneta que Ryan lhe estendia. — Então sim. Eu entendo.

Ryan deslizou os dois papéis pela mesa até ele — a folha dela e, ao lado, o contrato que Patrick trouxera —, e Fintan os assinou um após o outro, a caneta sem sair de sua mão entre um e outro.

Ele pousou a caneta e recuou um passo, como se tivesse tocado em algo que ainda não havia terminado de queimar.

Ryan os puxou de volta pela mesa. Delia assinou da mesma forma, com a mesma rapidez — seu nome no contrato abaixo do dele, e em sua própria folha o dele abaixo do dela. Patrick acrescentou o seu sob a cláusula que vinculava o dinheiro dele ao acordo, depois empurrou as páginas para o centro da mesa, concluído.

Então ela ergueu o olhar para o pai.

— A propriedade está sendo roubada — disse ela. — Não pela Land League. Não pelo boycott. Por alguém de dentro dela.

As sobrancelhas de Patrick se ergueram. — Você tem um nome?

— Ainda não.

— Então o que você tem?

Ela bateu no livro-razão ao lado de sua pasta. — O suficiente para saber que está acontecendo. O suficiente para saber que acontece há anos.

Ryan pigarreou. — Miss Rourke, se pretende fazer uma acusação formal —

— Não pretendo. — Ela manteve os olhos no pai. — Não até poder provar.

Patrick a estudou. Depois sorriu de repente, um sorriso agudo, como se tivesse acabado de enxergar uma brecha na proposta de um concorrente e soubesse exatamente como aproveitá-la.

— Muito bem — disse ele. — Suponho que é melhor começar a trabalhar.

Levantou-se, deu uma palmada no ombro de Ryan e saiu.

Ryan recolheu os papéis em silêncio. A porta se fechou. A sala ficou quieta.

Delia dobrou o documento assinado e o guardou de volta na pasta. Fintan Merrick estava na outra extremidade da mesa. Olhava para o lugar onde a assinatura dele repousava abaixo da dela — tinta preta sobre papel branco, o nome dele sob os termos dela.

A expressão permanecia fechada. O peso total do que havia acontecido ainda se assentava entre os dois.

Ele lhe dera a casa. Ela lhe dissera que alguém estava roubando-a. E o nome do ladrão ainda estava trancado atrás de uma coluna de números que ela sabia ler, mas ainda não conseguia provar.

Fintan virou-se e caminhou até a porta. Parou com a mão na moldura, de costas para ela.

— Foi misericórdia ou conquista, Miss Rourke?

Ela não tinha resposta para lhe dar.

Ele saiu sem esperar por uma.

Delia ficou sozinha à mesa, a pasta nas mãos e o frio pressionando de todos os lados. A pergunta pairava no ar entre eles, sem resposta. Ela havia ganhado a casa.

E nenhum dos dois sabia ainda se ela o havia salvo ou feito prisioneiro.