O livro-razão sob a capa de Delia pesava menos de meio quilo, mas era capaz de destruir o homem cuja casa ela se aproximava.
Ela o havia roubado três noites antes do escritório do land agent — uma noite sem vigilância num edifício que deveria estar trancado. A chuva havia apagado seus rastros naquela ocasião. Agora os apagava de novo, tamboriland sobre as paredes de granito que ladeavam a estrada de entrada para a demesne de Ardglass.
A propriedade se estendia à sua frente, em ruínas. Chalés de pedra com telhados semidestruídos. Fumaça fina subindo dos que ainda tinham moradores, com o cheiro azedo de turfa molhada. Ela fizera os últimos três quilômetros a pé, deixando a charrete alugada no cruzamento. Se ainda não sabiam que ela havia chegado, saberiam em breve. Delia Rourke tinha chegado seis dias adiantada, e não por causa do casamento que seu pai havia arranjado.
Uma mulher estava parada na soleira da cabana mais próxima, observando sua aproximação. Delia parou.
— Estou procurando a casa do Mr. Merrick.
A mulher não se mexeu. Quarenta anos, talvez. Envelhecida além dos anos. — Você deve ser a americana, então.
— Sou. — Delia manteve a voz calma. — Delia Rourke. De Boston.
— Brigid Sweeney. — Sem reverência, sem deferência. Apenas um olhar fixo que a lia como um balanço contábil. — A casa fica a mais um quilômetro pela estrada. Mas se tiver algum juízo, vai dar meia-volta.
— Não preciso de juízo. Preciso saber que aluguel o Mr. Merrick está cobrando de você.
Isso provocou uma reação — uma torção amarga dos lábios. — Cobrando? Estamos três meses atrasados, senhorita. A Land League diz para não pagar. O agente diz que seremos expulsos no outono se não pagarmos. Me diga a qual senhor você serve, e eu lhe digo o que quer ouvir.
A mão de Delia se fechou sobre o livro-razão através do tecido da capa. Três meses atrasada. O livro sob seu braço dizia que Brigid Sweeney estava em dia até junho. Alguém estava mentindo. Ela já sabia quem.
— Não sirvo nem à League nem ao landlord — disse Delia. — Estou aqui para examinar os livros.
— Ah, é mesmo. — O olhar de Brigid desceu até o volume sob a capa de Delia. — E que livros seriam esses?
— Os que mostram quem está roubando de você. — Delia encarou seu olhar. — E dele.
Ela deixou Brigid parada na soleira, em silêncio. A chuva aumentou enquanto Delia subia em direção à casa — Ardglass House, sede de uma família que havia mantido essas terras por duzentos anos e estava prestes a perdê-las para a filha de um empreiteiro de Boston. A casa surgiu à frente, pedra cinzenta e janelas escuras. Sem fumaça em metade das chaminés. Um lugar morrendo aos poucos, como afirmara o advogado de seu pai.
Mas o livro-razão sob sua capa contava uma história diferente. Esta casa não estava morrendo por causa do boycott. Estava sendo sangrada.
E Delia tinha dois dias para encontrar sua alavanca antes de assinar o contrato que a vincularia a esta casa para sempre.

O porteiro na entrada principal olhou para sua capa, para a bainha enlameada e para a ausência de bagagem ou acompanhante. Seu rosto assumiu uma expressão de desaprovação profissional.
— A entrada de serviço fica nos fundos, senhorita.
— Não sou de serviço. — Delia encarou seu olhar e o sustentou. — Sou Delia Rourke. O Mr. Merrick está me esperando.
Isso não era verdade. O Mr. Merrick estava esperando uma herdeira de Boston dócil e obediente dali a seis dias, não uma auditora enlameada com as contas roubadas de seu land agent. Mas o porteiro não sabia disso. Ele se afastou.
O hall de entrada estava frio. Mais frio do que a chuva lá fora.
Delia sentou no hall de entrada e esperou.
Ninguém havia mandado ela sentar. Ninguém havia oferecido. Mas o porteiro que havia se afastado também não havia voltado, e ela estava encharcada. Ela escolheu um banco encostado na parede de onde conseguia ver tanto as escadas quanto a porta.
O livro-razão saiu de baixo da capa.
Ela o abriu sobre o colo. As páginas estavam úmidas nas bordas, mas legíveis. Colunas de nomes e cifras, datas que remontavam a anos atrás. Aluguéis pagos e aluguéis em atraso. Despejos registrados em letra caprichada.
Três meses atrás, Brigid Sweeney. Pago integralmente até junho.
O dedo de Delia percorreu a linha. A tinta era firme. O registro correspondia a uma dúzia de outros na mesma página — todos marcados como em dia, todos de arrendatários que afirmavam estar em atraso.
Alguém havia estado cobrando duas vezes.
Ela voltou ainda mais para trás. Os mesmos nomes apareciam repetidamente, cada vez com valores que não correspondiam aos arrendamentos que o advogado do pai havia enviado. Aluguéis mais altos. Prazos mais curtos. Notificações servidas a arrendatários que, segundo aquele livro, jamais haviam atrasado um pagamento.
Os números remontavam a uma década.
Seu peito apertou. Não porque o roubo a surpreendesse — ela já suspeitava disso quando havia entrado no escritório do agente três noites atrás. Mas porque a dimensão era maior do que esperara. Sistemático. Metódico. O tipo de esquema que não acontece por acidente.

Era essa a propriedade que o pai pretendia comprar. O contrato de casamento que ele havia negociado transferiria a titularidade, quitaria as dívidas e deixaria Fintan Merrick como um gentleman farmer com uma noiva de Boston que trouxera uma fortuna e nenhum direito de opinar em como seria gasta.
Exceto que ela havia chegado cedo. E estava com os livros.
Delia virou as páginas para frente, procurando os lançamentos mais recentes. Uma ordem de despejo datada de dois meses atrás. Um aumento de rack-rent sobre um lote que deveria estar protegido pelo arrendamento. Os números eram condenatórios. O tipo que se vê num tribunal. O tipo pelo qual as pessoas enforcavam, se a Land League os encontrasse primeiro.
Ela ouviu passos no andar de cima. Vozes abafadas. Depois silêncio.
Alguém estava vindo.
Fintan estava sentado no escritório, ouvindo Ambrose Croft explicar quanto tempo lhe restava.
— O tempo é curto, Mr. Merrick.
As palavras eram precisas. Sem sangue. Croft tinha a maneira de um homem que havia entregado más notícias com tanta frequência que já não as sentia. Sentado do outro lado da mesa com uma pasta aberta à sua frente, o olhar firme e inteiramente sem compaixão.
— O receivership segue conforme o programado — continuou Croft. — A menos que as dívidas sejam quitadas integralmente, a propriedade passa para administração. Você manterá a residência, mas não a autoridade. A terra, os aluguéis, os arrendatários — tudo isso será administrado pelo meu escritório até que um comprador seja encontrado.
Fintan manteve a espinha ereta. Era a única coisa que lhe restava de semelhante ao controle. Suas mãos estavam planas sobre a mesa. Sua voz, quando falou, era nivelada.
— Estou ciente dos termos.
— Então vai compreender minha posição. — Croft fechou a pasta e se levantou. — Voltarei em breve para inspecionar os livros. Eles precisarão estar em ordem. Sem discrepâncias. Se as dívidas forem quitadas até lá, podemos suspender o processo. Caso contrário… — Não terminou. Não era necessário.
Fintan também se levantou. A postura militar que aprendera no North Mayo Rifles o mantinha ereto, embora jamais houvesse visto um dia de combate. O uniforme fora decorativo. A disciplina, ao menos, era real.
— Mr. Doheny administra as contas da propriedade há vinte anos — disse Fintan. — Ele terá tudo preparado.
A expressão de Croft não se alterou. — Garanta que assim seja.
Ele saiu sem mais cerimônia. A porta fechou-se com um clique atrás dele, e Fintan ficou sozinho no quarto frio.
Permaneceu de pé por um momento, olhando para o lugar onde Croft estivera. Depois foi até a janela. A vista dava para a entrada, onde as árvores um dia haviam estado espessas. Tinham sido abatidas anos atrás para pagar a última rodada de dívidas. Os tocos ainda eram visíveis através da chuva.
Doheny teria os livros prontos. Sempre tinha. Por duas décadas, o homem havia sido a espinha dorsal de Ardglass — cobrando aluguéis, administrando arrendatários, mantendo a propriedade funcional quando o pai de Fintan estava embriagado demais para fazê-lo. E depois que Fintan herdou, quando as dívidas chegaram todas de uma vez, Doheny havia sido quem segurou a linha.
Era o único motivo pelo qual haviam chegado até ali.
O pensamento o estabilizou. Qualquer que fosse o desfecho nas próximas duas semanas, Doheny daria um jeito.
Uma batida rompeu o silêncio.
Fintan se virou. — Entre.
A porta se abriu. Um dos empregados da casa — um homem que geralmente ficava nas cozinhas — entrou. Parecia abalado.
— Senhor. Há uma senhora lá embaixo. Ela diz que é esperada.
Fintan franziu o cenho. — Uma senhora?
— A americana, senhor. Miss Rourke. — O homem hesitou. — Ela chegou sozinha. Sem acompanhante. E está com uma espécie de livro-razão.
As palavras caíram como um soco no peito.
— Ela está o quê?
— Sentou ali mesmo no saguão e começou a folheá-lo, senhor. Perguntou pelo senhor pelo nome e não disse mais nada desde então.
Fintan não se mexeu. A mente prendeu no nome — Rourke. A noiva que seu advogado havia negociado. O contrato que quitaria as dívidas e salvaria Ardglass, desde que ele se casasse com uma mulher que jamais havia visto e cedesse ao pai dela uma participação nas terras.
Ela não deveria chegar antes do casamento.
E não tinha nenhum motivo para estar com aquele livro-razão.
— Onde ela está agora?
— No saguão de entrada, senhor. Está esperando.
Fintan já estava a caminho da porta.

