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Lúcia

Lúcia

Coração e prosa 📖

Ficar: Stay

4.7(308)
Capítulo 1 · 5 min de leitura
3.5K
#RomancedeMáfia#HiddenIdentity#ForbiddenLove#MorallyGreyHero#EnemiestoLovers
Fui enviada para destruí-lo. Ele me olhou como se já conhecesse cada um dos meus segredos — e pela primeira vez em doze anos, eu quis ser conhecida.

Capítulo 1

Evelyn ensaiara ser uma estranha por duas semanas, e o homem na porta estragou tudo com uma palavra.

— Ms. Vale.

O estranho, o que ela viria e reviraria depois no escuro sem conseguir explicar, foi que sua primeira reação não foi medo. Foi alívio. Uma parte animal dela, a parte que passara doze anos fingindo, aquietou-se e quase agradeceu, como se ser conhecido fosse um tipo de descanso. Ela entrara na Moretti Foundation preparada para ser ninguém. Ele dissera seu nome como se estivesse guardando-o para ela, e um músculo que ela mantivera contraído por mais de uma década simplesmente relaxou.

Ela corrigiu isso em meio segundo. Precisava. Alívio era um luxo para pessoas que não estavam dentro da casa do homem que fora enviada para destruir.

Ela virou. Terno cinza-carvão, uma mão no bolso, a postura relaxada de alguém que era dono daquele andar e de vários acima. Lucian Moretti não reduziu a distância até ela. Deu-a espaço e a observou através dele, e a observação era a coisa mais honesta na sala.

Ninguém a apresentara. Seu crachá tinha noventa segundos. A festa de lançamento ecoava às suas costas, taças e risos abafados e o jazz cuidadoso que fundações tocavam para parecer humanas, e nada disso o alcançava. Ele estivera esperando na porta. Ela entendeu isso da mesma forma que entendia o clima. Não se surpreendera ao vê-la. Estivera confirmando-a.

— Você chegou cedo — disse ele.

— Sou pontual.

— A mesma coisa, no seu ramo. — O sorriso mal existia. — No meu também.

Seu ramo, segundo o crachá, era parcerias corporativas. Ela deixou a frase passar por ela sem ondulação e guardou o pequeno fato de que ele quisera vê-la pousar.

Liana Voss apareceu ao seu cotovelo então, brilhante e ensaiada, guiando-a em direção à sala com uma mão bem-intencionada que nada explicava. Evelyn deixou-se ser guiada. Agradecera às pessoas certas. Aceitara o copo certo. Dissera as coisas certas e irrelevantes sobre parcerias e impacto, e seu rosto fizera tudo corretamente. Sob a superfície ensaiada, ela continuava girando em torno do mesmo pequeno erro, o que não se aquietava. Não que ele a conhecera. Que ela queria que ele conhecesse. Construíra doze anos sobre nunca querer ser conhecida por ninguém, e não tinha nenhum arquivo, nenhum protocolo, nenhuma linha ensaiada para o que fazer com a parte dela que acabara de trair isso.

Um garçom passou e ela pegou uma taça de champanhe, porque pegá-la dava às suas mãos algo correto para fazer. Ela a erguera até a metade quando Lucian estava ao seu lado novamente, e a taça saiu de seus dedos antes que ela registrasse a troca. Ele colocou outra no lugar. Água com gás, uma rodela de limão, a mesma bebida transpirando em sua própria mão. Fez isso como um homem ajusta uma cadeira para a porta abrir, sem comentários, sem alardes, e então esperou para vê-la notar.

Ela notou. Seu rosto não lhe deu nada.

Três leituras correram enquanto ela o agradecia. A gentil era uma cortesia, uma decisão de que ela estava trabalhando e uma economia do teatro de beber. Havia um teste nisso também, se ela explicaria o champanhe ou perguntaria como ele sabia. Mas a leitura que importava era a mensagem, de que ele observava o que ela colocava na boca, e a prova disso era que ele deixara que ela o escolhesse.

— Uma longa noite pela frente? — perguntou ela.

— Para nós dois. — Ele virou o limão com um dedo. — Fico mais preciso assim.

Preciso. Ela guardou a palavra com as outras que ele lhe dera.

Uma mulher num vestido vinho a encontrou perto das janelas, duas unhas longas bordeaux alcançando para endireitar o crachá já preso à lapela de Evelyn. Carmen Reyes, da agência, a que levara o nome de Evelyn pela lista restrita até aquele prédio. Ajustou-o com um pequeno gesto proprietário e recuou para confirmar que estava reto.

— Eles quase nunca se movem tão rápido com uma contratação sênior — disse Carmen. — Alguém lá em cima queria você.

— Isso é lisonjeiro.

— É incomum. — O sorriso manteve sua forma. — Neste mercado, isso equivale à mesma coisa. Então ela se foi em direção ao bar, saltos firmes sobre o carpete cinza, e Evelyn virou a frase sem pegá-la. Alguém lá em cima queria você. Deixou-a onde estava.

Liana Voss a puxou para um escritório de paredes de vidro ao lado do salão por noventa segundos de providências. O jazz baixou para um murmúrio através da divisória. Liana falou rápido, com calor, como quem recita instruções que dá com frequência.

— Oito horas amanhã, no escritório dele — disse. — Ele gosta de passar o portfólio pessoalmente para os novos funcionários de parcerias, na primeira vez. Considere uma cortesia. Não estende isso a todos. — Disse como se fosse um presente. — E não deixe o prédio lhe afetar. Sob todo o mármore ainda é apenas captação de recursos.

— Já fiz captação de recursos.

— Isso aparece. É por isso que você está aqui. — Liana apertou seu braço, soltou, já se virando para a próxima obrigação.

Evelyn colocou as oito horas ao lado do vidro e do crachá. Tudo o que lhe entregaram esta noite, também estavam pesando.

Ele voltou mais duas vezes ao longo das próximas duas horas, e cada vez o motivo teria sobrevivido a ser repetido para qualquer um que estivesse observando. Um membro do conselho que ele conduziu à sua órbita, nomes trocados, apertos de mão. Uma pergunta sobre um patrocinador corporativo do seu antigo setor, feita a ela como se sua resposta fosse a única coisa viva na sala. Na terceira aproximação ele ficou mais perto do que a pergunta exigia, perto o suficiente para que a própria distância fosse a frase, e ele a deixou ficar lá até que ela decidisse o que fazer com isso. Ela fez a coisa sem graça. Respondeu sobre o patrocinador e deixou o resto cair pelo chão entre eles.

Perto da porta de serviço, um homem mais jovem de terno escuro segurava a borda da festa sem nunca encará-la. Ele captou o olhar de Lucian uma vez e inclinou a cabeça um quarto de polegada em direção aos elevadores, alguma gramática privada passando entre eles, depois retornou à sua vigia de meio perfil. Evelyn o leu e seguiu em frente. Proteção próxima. Círculo interno. Um homem cuja ocupação inteira era notar exatamente a coisa pela qual ela tinha sido enviada para ser.

Ele a acompanhou até a saída ele mesmo um pouco depois da meia-noite, perto o suficiente para ser cortês, longe o suficiente para que nenhum colega notasse. Na calçada, um carro negro insonorizado com o motor em ponto morto. Ele lhe entregou uma pasta de couro, mais pesada do que o papel dentro dela poderia justificar.

— Sua cópia do contrato — disse. — Leia de novo com a cabeça fria.

— Já li duas vezes.

— Leia mais uma. — Quase sem sorriso. — Ms. Vale.

Ela tinha a mão na porta. Olhou para trás. Ele permaneceu onde estava na calçada, mãos soltas, o lobby iluminado brilhando atrás dele.

— Tenha cuidado com as primeiras impressões — disse. — As pessoas decidem rápido demais que tipo de sala entraram.

O carro entrou no trânsito antes que ela tivesse terminado de decidir se aquilo tinha sido uma cortesia ou um aviso. Ela virou a frase ao longo de três quarteirões e não chegou a lugar nenhum.

O motorista pegou a rampa em direção à ponte e a luz da cidade deslizou sobre seus joelhos em barras, ligada, desligada, ligada. Ela abriu a pasta porque conferir um documento era um reflexo mais antigo que aquela noite. O contrato estava onde deveria estar. Três páginas, seu nome, a mesma linguagem que ela lera pela primeira vez num quarto de hotel em Midtown doze anos atrás e cem vezes desde então.

No plástico por trás dele havia uma fotografia.

Preto e branco, densa, granulada como uma coisa é quando foi impressa de um negativo antigo. Vinte pessoas num cemitério ao lado de uma igreja de tijolos que ela conhecia pela cúpula de cobre esverdeada. St. Stanislaus, Greenpoint. Ela encontrou a garota de dezenove anos no casaco preto primeiro, de olhos secos, maxilar cerrado, porque encontrar a si mesma era automático. Depois a menina de dez anos pressionada no cotovelo daquela garota, todo o peso que aquela garota carregara todos os dias desde então. Depois o caixão, e seu pai dentro dele, no terno de três botões com o colete que ele nunca tirou nenhuma vez à luz do dia.

Alguém tinha ficado muito perto para tirar isso.

Ela virou a fotografia. A luz ligou, desligou, ligou. Tinta preta, uma caligrafia firme, sem pressão em nenhum dos traços. Duas linhas.

Ele não morreu pelo motivo que te contaram.
Tenha cuidado com as perguntas que faz em voz alta.

As mãos dela permaneceram abertas no colo e a fotografia estava sobre elas, virada para cima agora, seu pai olhando para o nada. Ela passou em revista as coisas que uma pessoa treinada faz com um documento como aquele. Fotografar. Registrar. Carregar na quinta-feira para o homem cuja função inteira era receber exatamente aquilo. Cada procedimento surgia, e cada um morria contra o mesmo muro, porque todos eles exigiam que ela explicasse como o objeto tinha chegado às suas mãos, e o único relato honesto disso a colocava dentro do prédio que ela tinha sido enviada para abrir por dentro.

A cidade continuava deslizando em barras de luz fria. Ela se manteve muito imóvel, como sempre fazia quando algo dentro dela tinha se movido sem sua permissão, e entendeu que pela primeira vez em doze anos não tinha protocolo para a única coisa que queria, que era saber a verdade sobre aquela fotografia.