Bati a porta da frente com força. O som ecoou pela casa perfeitamente silenciosa, uma violação de sua paz estéril. Eu sabia que minha mãe estava observando pela cortina da sala de estar, seu rosto uma máscara de fúria gélida. Mas não olhei para trás.
Apenas caminhei.
O ar de outono, que parecia nostálgico e acolhedor apenas uma hora atrás, agora estava cortante e frio. Ele atravessava minha blusa fina da Califórnia, mas eu mal sentia. Minha pele queimava de dentro para fora — com o fogo de uma traição de cinco anos e uma esperança tardia, desesperada e irracional.
Para onde eu estava indo? Eu não sabia. Estava apenas caminhando.
Meus pés me levavam por conta própria, por uma rota familiar, gravada na memória. Longe do gramado impecável dos meus pais na Wilson Avenue, longe do bairro de médicos, advogados e prefeitos. Eu estava caminhando em direção à parte antiga da cidade.
Segui por calçadas rachadas, passando por casas cheias de pessoas que me conheceram a vida inteira. A Mrs. Gable, regando seus crisântemos, acenou; devo ter retribuído com um aceno de cabeça, mas seu rosto era um borrão. Eu era um fantasma no meu próprio passado.
Atravessei a praça da cidade, o coração de Willow Creek. A fonte que nunca funcionava. Os bancos onde velhos jogavam xadrez. A velha capela branca, sua torre de cobre verde de tão antiga.
"Estarei na velha capela... Esperarei a noite toda."
Parei, respirando com dificuldade, e me apoiei no tronco frio de um carvalho antigo. Por um segundo, se eu apertasse os olhos, conseguia vê-lo. Uma silhueta fantasmagórica do garoto com o violão, sentado nos degraus, encarando a escuridão, esperando o som dos meus passos. O garoto que esperou em junho de 1965, enquanto eu, sem saber, chorava em um travesseiro, amaldiçoando-o por seu silêncio.
Ele deve ter pensado que eu o traí.
O pensamento era mais cortante do que a traição da minha mãe. A mentira dela era sobre medo e controle, mas a dor dele... a dor dele fora causada por mim. Pela minha ausência.
Cinco anos. O que teria acontecido com ele? Ele me odiava? Estava casado? Estava feliz? Ou...
Afastei-me da árvore, espantando os piores pensamentos. Eu precisava saber.
Eu conhecia esta cidade como a palma da minha mão. Conhecia o atalho pelo parque, passando pela antiga pedreira, em direção à Elm Street. A rua dele.
Enquanto eu caminhava, saindo da impecável Main Street, a cidade mudava. As casas ficavam mais velhas, os lotes menores, a tinta mais descascada. Era ali que os trabalhadores da serraria e suas famílias viviam. Este lugar cheirava a madeira bruta e à vida real.
E era ali que as memórias viviam.
Lá estava o banco perto do lago dos patos. O primeiro lugar onde ele me beijou. Eu tinha dezesseis anos, ele dezessete. Foi estranho, desajeitado, nossos dentes bateram, e então ele soltou aquela risada rouca, e achei que morreria de felicidade.
Havia o beco atrás do Rialto theater. Ele tinha me arrastado para lá depois da meia-noite com seu violão. Ele tocou para mim uma música que acabara de escrever. Era sobre uma garota com "olhos da cor de nuvens de tempestade". Eu me senti a única pessoa no universo.
Ele não era "apenas o garoto com o violão", como minha mãe o chamava. Ele era luz. Ele era o único que me via — não a filha do Mayor, não a aluna nota dez, apenas Mia. E eu deixei que ela o apagasse. Eu acreditei na mentira e construí uma vida sobre ela.
Cheguei ao fim da Elm Street. A casa dele sempre fora a última da rua, uma casa de fazenda grande e antiga que cheirava a cidra de maçã e ao terebintina da marcenaria de seu pai. O Mr. Harrison era carpinteiro, sempre pronto com uma limonada caseira. A Mrs. Harrison estava sempre na cozinha, com as mãos enfarinhadas, seu riso tão quente quanto suas tortas de maçã.
A casa deles tinha sido meu segundo lar. Tinha sido meu refúgio da ordem estéril da casa dos meus pais.
Virei a esquina, meus passos diminuindo no caminho de cascalho. E congelei.
A casa tinha sumido.
Ou melhor, ela estava lá. Mas não era a coisa viva e pulsante das minhas lembranças. Era um esqueleto. Uma carcaça. O fantasma de uma casa.
A que eu conhecia fora branca com detalhes em azul brilhante, uma varanda enorme transbordando com os gerânios de sua mãe.
Esta casa estava cinza.
A tinta tinha descascado em longas tiras, expondo a madeira desgastada e enegrecida. O jardim, o orgulho da Mrs. Harrison, era uma selva intransitável de ervas daninhas e girassóis mortos, com suas cabeças pesadas curvadas. A hera, grossa como uma corda, escalava as paredes, seus dedos cravando-se no revestimento, como se tentasse puxar a casa de volta para a terra.
Uma das janelas do andar de cima — a janela dele, aquela em que eu costumava atirar pedrinhas — estava quebrada. Um buraco negro e escancarado, como um dente faltando.
Caminhei lentamente, em direção ao portão da frente. Ele não estava pendurado por uma dobradiça — simplesmente não estava lá, caído no chão, semidesintegrado pela grama.
"Ethan?", sussurrei, e minha voz pareceu estúpida e pequena.
O vento sussurrou entre as ervas daninhas secas. Foi a única resposta.
Dei mais um passo, atravessando o portão inexistente, e segui pelo caminho coberto de mato até a varanda. As pedras do calçamento que eu lembrava estavam cobertas de musgo. Os degraus da varanda rangeram alto, dolorosamente, sob o meu peso.
Levantei a mão para bater na porta da frente. Meu punho parou no ar.
A porta estava aberta.
Estava pendurada, torta, a poucos centímetros do batente, bloqueada por um monte de folhas secas. Um cheiro de umidade, mofo e podridão emanava da fresta escura.
Ele não estava aqui. Não estivera aqui por muito, muito tempo.
Toda a esperança que borbulhava em meu peito, toda a adrenalina e a raiva que me impulsionaram da casa da minha mãe — tudo se esvaiu como se um ralo tivesse sido aberto. Fui inundada por um vazio gélido e ensurdecedor.
A casa estava abandonada. Ele tinha ido embora. Eu cheguei tarde demais.
