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Capítulo 3

O que Mrs. Aldercott dissera sobre a prataria não era, estritamente, uma frase dirigida a Verity. Saíra como uma daquelas anotações de governanta que se seguem ao correio da manhã — His lordship estará em sua escrivaninha no andar de baixo até as três, miss. Um dia tranquilo para você — e fora entregue à janela, à chuva, como uma mulher diz a outra um fato que não deseja ser vista dizendo.

Verity inclinara a cabeça sobre a xícara. Não respondera. Não havia nada a ser dito que já não tivesse sido dito.

Às onze ela tinha seu plano. Às onze e meia, a chave.

A segunda camareira chamava-se Bessie. Tinha dezenove anos e ainda se encolhia quando uma porta fechava com força demais, e estava dobrando lençóis que tinham sido passados úmidos demais na escada dos fundos quando Verity se aproximou dela.

«Mrs. Aldercott vai mandar turfa para o meu quarto antes das três, mas não gostaria de incomodá-la na cozinha. Há uma corrente de ar na lareira — acho que uma telha solta. Queria verificar atrás do lambri. Só que os fundos da casa ficam nos corredores de serviço.»

Bessie ergueu os olhos. O pensamento chegou ao rosto da moça devagar, como um convidado que não tinha certeza de sua recepção.

«Os corredores, miss?»

«Se houver uma chave mestra para as passagens dos fundos. Não precisarei dela por muito tempo. Não gostaria que His lordship me encontrasse com frio quando perguntar como dormi.»

Não era estritamente verdade; ele não lhe perguntara desde a primeira manhã. Mas tinha a forma da verdade — a forma que uma moça que não dormira quentinha em sua própria cama por seis anos reconheceria e perdoaria. Bessie pousou o lençol, desenganchou uma chave pequena e chata de um prego atrás da porta do armário e a entregou a Verity com as duas mãos, como se entrega uma coisa da qual não se tem certeza.

«Mrs. Aldercott nem sempre —»

«Vou devolvê-la dentro de uma hora.»

«Sim, miss.»

Mrs. Aldercott teria de ser informada, e a moça deixou isso por dizer. A informação já havia sido dada, no ângulo da cabeça de Mrs. Aldercott no café da manhã — essa missão estava autorizada.

Ou assim Verity desejou, durante a meia hora que levou para chegar à segunda curva da passagem dos fundos, acreditar.

As passagens dos fundos eram mais estreitas que as da frente em quase meio metro, e sem iluminação. A luz vinha pela janela da escada dos fundos e se apagava doze metros adiante, na primeira curva. Depois da curva ela caminhou com a mão esquerda encostada no reboco, do jeito que seu anfitrião caminhava por qualquer cômodo — não de propósito; havia se escolhido sozinho.

Três portas davam para a passagem pelo lado da cozinha. Ela as passou sem tentar as maçanetas. A quarta porta ficava do outro lado, era maior e tinha um soleiro gasto até formar uma cavidade pelos pés. O cadeado que ela medira pelo lado do corredor estava do lado do corredor. Daqui a porta tinha apenas um ferrolho de ferro lançado através de uma argola. O ferrolho se destacava do encaixe. Faltara meio centímetro para fechar.

A fresta ela não podia alargar. A fresta ela podia encostar o olho.

O corredor além estava iluminado por uma janela no fundo — luz de tarde, fraca e cinzenta, tênue o suficiente para que o pó no assoalho repousasse nela como tecido. O corredor media uns doze passos. Na segunda tábua a partir dela, no pó, havia a marca de um sapato.

Um sapato de mulher. Uma forma estreita, menor que o seu. O salto fora pousado com o peso tranquilo de uma pessoa que conhecia as tábuas sob o pó e não as temia. A marca tinha no máximo três dias. Possivelmente uma tarde.

Uma segunda marca começava quinze centímetros depois da primeira, indo em direção à janela mais distante.

Ela fez uma lista disso dentro da cabeça, do jeito que seu pai lhe ensinara a fazer listas em inquéritos. O que está aqui: o pé direito, forma estreita, sem salto metálico. O que não está aqui: um homem correspondente. O que deveria estar aqui e está faltando: não conseguia ver longe o suficiente para saber.

Sua mão foi até a cabeça do ferrolho e tocou o ferro. Estava frio, mas não com o frio de quem não é tocado há muito tempo. O ferro num corredor por onde ninguém passa absorve o gelo da pedra e nunca o larga. Aquele ferro havia sido tocado naquele mesmo dia.

Ela fechou a distância e voltou pelo caminho por onde viera.

Não teria notado a hora de maneira alguma, não fosse por ter subido a escada dos fundos e chegado ao corredor principal do andar dos quartos para encontrá-lo já mais escuro do que quando o havia deixado. Em novembro havia sempre um quarto de hora entre o abandono das janelas pela luz e o acendimento dos pavios. As governantas chamavam aquilo de a hora da vela. As lâmpadas estavam apagadas. O corredor se estendia por quinze jardas à sua frente e não devolvia nada lá no fundo senão o próprio comprimento.

Ela o percorreu no seu próprio ritmo. Não tinha medo. Estava pensando, e o pensamento era o de que a marca no pó era a marca de uma mulher à vontade. O calcanhar havia sido apoiado com o peso de uma mulher caminhando num corredor que conhecia.

Estava quase chegando à própria porta quando suas costas encontraram algo que não era a parede.

Não era a parede porque a parede não respirava.

Nenhum grito veio. Ela ficou imóvel. O corpo atrás dela havia sido encontrado de recuo; estava esperando. Havia estado esperando no corredor, do lado oposto à janela que se apagava, onde a escuridão se reunia primeiro.

Uma mão subiu entre sua omoplata e sua garganta. Sem pressa. Uma mão que sabia, antes de tocar, a altura exata de sua garganta — o ângulo, a distância do queixo. O centro do polegar encontrou o lugar abaixo da mandíbula onde a artéria ficava mais próxima da pele, e ali permaneceu. A mão não se fechou. Repousou.

Sem tabaco de cachimbo. Sem cavalo. A lã da manga dele, muito perto do seu ouvido, cheirava a sândalo e ao brilho seco da casca de bergamota, e por baixo de ambos, a quietude do papel que significava um homem que havia passado a manhã à mesa.

De quem era aquela mão não precisava ser dito. Esse foi o primeiro segredo que ela guardou para si.

A segunda mão subiu pela frente dela — não abaixo, não em nenhum lugar onde uma mão não seria permitida numa mulher vestida que está sendo reconhecida. Encontrou primeiro a linha do queixo. Os dedos percorreram o queixo até a ponta e ali se fixaram como um professor de música segura um pulso, para sentir o ângulo e deixá-lo ir. Subiram. Encontraram o canto da boca. Pausaram ali. Não se moveram além do canto da boca.

Ele a estava lendo.

Ela prendeu a respiração até lembrar que a respiração era uma das coisas sendo lidas, e a soltou. Ele ouviu ela soltar. Ficou onde estava.

«Miss Lane.»

A voz dele veio no tom baixo e uniforme que um homem reserva para quem se assusta com facilidade.

«My Lord.»

«Me dê sua mão esquerda.»

Ela a deu.

Ele a tomou sem olhar — não podia olhar — e a virou com a palma para cima. Os dedos passaram pelo calcanhar da palma, pelo lugar macio abaixo do polegar, e pararam na linha fina e pálida que corria da base do terceiro dedo até o pulso. Ele a percorreu. Percorreu de novo, mais devagar, como se confirmasse o caminho.

«Que idade você tinha.»

«Tinha nove anos.»

«Vidro.»

«Vidro.»

«No escritório do seu pai.»

Ela não havia lhe contado que o pai tinha um escritório. Havia lhe contado apenas que o pai havia sido solicitador e havia morrido. A pausa que ela fez não era mais longa do que aquela que o próprio Crispin havia feito na manhã anterior, diante da palavra corpo. Ele deixou que ela a tivesse.

«No escritório dele.»

«Você não mostrou isso a ninguém nesta casa.»

«Não.»

«Você não mostrou a ninguém em dois anos.»

Isso não era uma pergunta, e ela não lhe deu resposta.

O polegar na garganta dela ergueu um fio de cabelo e se acomodou de outro modo. Não com mais força. Com mais conhecimento. A mão que segurava a mão esquerda dela mantinha a cicatriz entre dois dedos, como um homem guarda a página de um livro ao qual pretende voltar.

Então o leve clique da outra mão dele — a que não estava na garganta, não na palma dela — soou ao subir até o próprio rosto. Os dark spectacles foram retirados. Dobrados uma vez na ponte. O pequeno roçar de lã soou enquanto ele os guardava no bolso do paletó.

Ele virou o rosto para ela. O rosto estava mais perto do que ela havia imaginado — quinze centímetros, não mais. Os olhos não eram os olhos que ela havia visto no café da manhã. A pele pálida da pálpebra era a mesma. Os cílios eram os mesmos. Os olhos em si haviam tomado a cor de leite no qual se deixara cair uma gota de tinta azul e se mexera. Não se moviam. Não precisavam. Estavam apontados para o lugar onde o rosto dela tinha de estar, porque o ouvido dele o sabia.

Ela não desviou o olhar. Desviar o olhar teria sido algo a ser lido, e ela ainda não havia decidido quanto de si mesma estava disposta a deixar que lessem.

«Miss Lane.»

«My lord.»

«Seu pulso falhou quando a senhora deu seu nome à Housekeeper. Falhou na segunda vez que saiu de sua boca, não na primeira. Na primeira era apenas um nome. Na segunda era um nome que a senhora vinha repetindo há um tempo que ainda não medi. Dois anos, talvez. Talvez mais.»

Ela não falou.

«Falhou quando perguntei no café da manhã como a senhora havia dormido e a senhora disse maravilhosamente. A palavra não era a palavra errada. A pausa antes da palavra era a pausa errada. Já havia ouvido aquela pausa uma vez antes, entre Pickering e o cascalho. O cocheiro a deu em seu lugar quando perguntei a que hora a senhora havia tomado o trem.»

Ele havia perguntado isso ao cocheiro, então. O fato chegou como novidade.

«Está falhando agora. Vem falhando desde que a senhora saiu da escada dos fundos. A senhora não passou pela cozinha a caminho de cá. A cozinha cheira a carneiro, e a senhora não.»

Ele esperou. O polegar contra a garganta dela sentia cada batida que ela não lhe dava permissão de dar.

«Eu gostaria», disse ele, com a mesma voz, «de saber o nome da senhora. O verdadeiro. Gostaria de sabê-lo antes que alguém nesta casa a confunda com a mulher que a senhora não é, e a mate por conta dela.»

A palavra dela ele não explicou.

Ele deixou a mão na palma dela deslizar. Deixou a mão na garganta dela deslizar — devagar, do jeito que um homem tira a mão de um cavalo que pretende deixar calmo. Os dark spectacles voltaram. Desdobrados uma vez na ponte. O pequeno roçar de lã ao colocá-los no nariz.

«Você tem até de manhã.»

Ele não se virou. Passou por ela, pelo lado direito, junto à parede contra a qual a própria mão dela ainda repousava. A manga dele não tocou a dela. Os sapatos eram silenciosos no tapete. No alto da escada o som se reduziu a nada. A própria escada não devolveu nenhum passo.

Ela não se moveu.

A mão esquerda havia ficado aberta no ar no lugar em que ele a soltara. Ela a fechou. Levou-a à própria garganta e pousou a ponta do próprio polegar onde o polegar dele estivera. O pulso sob o polegar não era o pulso de uma mulher que havia sido assustada. Era o pulso de uma mulher que havia sido vista.

Ela não havia sido vista desde a morte do pai.

O corredor estava mais escuro agora do que quando ela entrara nele. Bem longe, pelo interior da casa, a camareira Grace ia de arandela em arandela com o acendedor — o pequeno lampejo e a pega de cada pavio avançando em sua direção aos poucos, um cômodo iluminado e depois outro cômodo iluminado, nenhum deles ainda aquele.

Ela falou uma vez, bem baixo, para o corredor. Ele não responderia; ela não estava perguntando a ele.

«Alguém nesta casa me mataria.»

Ela disse isso sem inflexão ascendente, como quem pronuncia em voz alta um fato que se recusara a aceitar quando a prova foi apresentada pela primeira vez, e agora acreditava.

De manhã, pensou, ela precisaria decidir o que estava disposta a lhe dar.

Quando chegou à própria porta, compreendeu que a decisão já havia sido tomada.

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