Luzes vermelhas.
Elas brilham na chuva cinzenta e melancólica como duas brasas trazidas diretamente do inferno. O carro não está se movendo. Não está fazendo a curva. Está apenas parado ali, em marcha lenta no meio do cruzamento, uma fera sombria e elegante esperando sua presa fugir.
Meu coração não está apenas batendo — está se chocando contra minhas costelas como um pássaro preso em uma gaiola, o ritmo errático e doloroso. O fôlego fica preso em algum lugar da minha garganta, um nó sólido de pânico. Inspira. Expira. Nenhum dos dois vem com facilidade. O mundo se reduz àqueles dois pontos de luz vermelha através do vidro manchado pela chuva.
Mova-se, o grito silencioso rasga minha mente. Por favor, apenas mova-se.
Mas o carro permanece imóvel.
"Mama?"
A voz de Leo soa distante, filtrada por um algodão espesso. Um leve puxão na perna da minha calça quebra a paralisia. Ele está olhando para cima, confuso com a minha imobilidade de estátua.
"Pegue seu casaco", minha voz sai brusca, rouca e irreconhecível.
Pego sua jaqueta de chuva amarela no gancho baixo. Dedos desajeitados, blocos de gelo entorpecidos, tremendo tanto que a abertura da manga parece desaparecer. Enfio o bracinho dele — com muita força, com muito desespero.
"Eu não quero!" ele começa seu protesto habitual de criança pequena, se afastando. "Brincar de blocos!"
"Agora, Leo!" O estalo da minha voz assusta a nós dois.
Ele congela, os olhos se arregalando de susto. Seu lábio inferior — o lábio dele, aquela curva perfeita dos Rinaldi — começa a tremer. A culpa perfura o terror, afiada e quente. Eu nunca levanto a voz para ele. Caindo de joelhos, eu o puxo contra o meu peito, enterrando o rosto em seu pescoço por um breve segundo. Ele cheira a xampu de bebê e inocência.
"Me desculpe, baby. Me desculpe, a mama não teve a intenção", sussurro, tremendo contra ele. "Nós só... temos que ir para casa. Rápido. É um jogo. O jogo rápido."
"Ms. Miller? Grace? Está tudo bem?"
Mrs. Gable está espiando por cima de seus óculos de leitura, com a testa franzida. A mancha de tinta azul do carimbo que deixei cair ainda está escura em sua mesa impecável.
"Sim, sim, tudo bem", minto, as palavras saindo rápido demais. "Eu... acho que ele está com febre. Ele parece quente. Preciso colocá-lo na cama."
Sem esperar por uma resposta, coloco Leo no carrinho. Não há tempo para o cobertor. Apenas travo a fivela e puxo a proteção contra chuva. Ela esconde o rosto dele. Esconde suas feições. Esconde a verdade.
Meu olhar se recusa a voltar para a janela. Se o carro ainda estiver lá, se uma porta se abrir, se ele sair na chuva... eu não serei capaz de me mover. E se ele tiver ido embora... isso não significa nada. Predadores desaparecem antes de atacar.
"Sinto muito, preciso ir." Minha bolsa já está no ombro, os cartões da biblioteca abandonados sobre a mesa.
"Mas, querida, você esqueceu seu guarda-chuva —"
O tilintar do sino da porta a interrompe enquanto eu saio disparada para a rua fria e úmida.
O ar me atinge como um tapa — congelante, carregando o cheiro de pinheiro úmido e escapamento.
Dois quarteirões. Apenas duzentos passos até o meu apartamento em cima da padaria "Sweet Cedar". Em qualquer outro dia, um passeio de cinco minutos. Hoje, uma maratona através de um campo minado.
Uma curva fechada à esquerda nos afasta do cruzamento. Queixo enfiado no cachecol, olhos baixos. Regra número um dos caçados: nunca demonstre que está fugindo. Regra número dois: nunca olhe para trás. Se eles virem seu rosto, acabou.
Mas cada músculo do meu corpo está tenso, gritando perigo, esperando por uma mão que agarre meu ombro, por uma voz que chame um nome que morreu há três anos.
A chuva se transforma em uma garoa gelada, infiltrando-se instantaneamente em meu colarinho, deslizando pela minha espinha como dedos frios. Leo reclama no carrinho, chutando as pernas. "Frio, mama. Molhado."
"Estamos quase em casa, baby. Quase em casa. Shh."
Botas de borracha batem contra a calçada molhada. Plaft-plaft-plaft. O som ecoa, ensurdecedor na quietude do meio-dia. Por que a cidade está tão silenciosa? Onde está todo mundo?
À frente, Mr. Henderson está varrendo a água da entrada de sua loja de ferragens. Ele olha para cima e acena, um gesto lento e amigável.
Um aceno de cabeça é tudo o que consigo fazer. Meu sorriso deve parecer uma careta, um esgar de terror.
Ele me vê? Ele vê alguém atrás de mim? Ele sabe quem eu realmente sou?
O beco entre a loja de ferragens e a floricultura se abre como uma boca. Uma fenda escura e úmida entre prédios de tijolos. Sombras se acumulam ali, profundas e impenetráveis. Um lugar perfeito para uma emboscada. Um lugar perfeito para puxar uma mulher e uma criança para a escuridão.
Com os nós dos dedos brancos na alça do carrinho, acelero o passo. Quase correndo agora. As rodas chacoalham violentamente sobre o pavimento irregular.
Os pulmões ardem. O ar tem gosto metálico.
Lá está ela. Minha rua. Meio quarteirão para chegar. A placa da padaria balança ao vento. O cheiro de fermento chega até mim.
Então, o som.
Um motor ruge atrás de mim.
Perto. Perto demais.
Não é o ronco baixo e aveludado de um sedã. É um chacoalhar, uma tosse, um rosnado mecânico alto. Mas o terror não faz distinção. O sangue congela em minhas veias.
Eles me encontraram. Estão logo atrás de mim.
Meus pés param. O corpo vira pedra. O instinto grita para empurrar o carrinho para o vão entre dois carros estacionados, para me lançar sobre ele.
Uma picape Ford vermelha caindo aos pedaços passa ruidosamente, lançando uma onda de água barrenta na calçada.
Farmer Jenkins.
Ele acena através do para-brisa, alheio ao ataque cardíaco que quase me causou.
O ar deixa meus pulmões em um suspiro trêmulo. Os joelhos fraquejam, quase me enviando ao chão.
Paranoia. Estou perdendo a cabeça.
Era apenas um turista rico lá no cruzamento. Ele parou para verificar o GPS ou responder a uma mensagem. Só isso. Ele se foi. Já deve estar na metade do caminho para a estação de esqui. A segurança é uma ilusão, mas, no momento, parece real o suficiente para continuar me movendo.
A pesada porta de carvalho ao lado da vitrine da padaria surge à frente. A pequena placa de latão diz "Apartamentos. Entrada Lateral." Meu lar. Minha fortaleza.
A mão mergulha no bolso do casaco, tateando. As chaves tilintam, zombando da falta de jeito dos meus dedos dormentes. Elas estão emaranhadas no fio dos meus fones de ouvido.
Vamos lá. Vamos lá. Mais rápido.
Um olhar fantasmagórico queima em minhas costas. Quente, pesado, físico. Como um ferro em brasa pressionado contra a espinha.
Não há ninguém lá. Não olhe.
As chaves se soltam, arranhando minha mão. A prateada se separa. Mãos trêmulas tentam encontrar a fechadura. Metal arranha contra metal. Errei.
Acalme-se. Grace, acalme-se.
Uma vez. Duas vezes. Na terceira tentativa, a chave desliza.
Gira. Click.
Empurrando a porta com o ombro, eu praticamente caio para dentro, puxando o carrinho atrás de mim. As rodas raspam contra o batente. O corredor estreito cheira a canela e madeira velha.
A porta bate e se fecha.
Costas pressionadas contra a madeira, as pernas viram água.
Tranca.
A fechadura gira. Um estalo pesado, final.
Corrente.
A corrente de latão desliza em seu sulco. Um tilintar agudo e fino.
Eu olho para ela. Aquela fina tira de metal. É o que separa o mundo de nós. O passado do presente.
Me afastando da porta, o movimento retorna. Ainda não terminei.
"Mama?" Leo pergunta, com a voz pequena.
"Um segundo, baby", eu respiro.
Deixando-o no corredor, corro para a cozinha. O apartamento é pequeno, um caminho reto. As botas deslizam no linóleo.
A porta dos fundos. Aquela que leva para a escada de incêndio e para o beco atrás da padaria.
Minha mão agarra a maçaneta. Puxo. Ela não se mexe. Trancada.
Os olhos verificam a pesada fechadura. Está acionada. Vertical. Sólida. Só eu tenho a chave. Só eu e o proprietário, Mr. Henderson, sequer sabemos que esta porta existe. Ela abre para um beco sem saída cheio de latas de lixo e caixotes de entrega. Invisível.
Porta da frente trancada e com corrente. Porta dos fundos trancada.
Selados. Uma fortaleza.
Parada no meio da cozinha, eu escuto. Por passos nas escadas. Pelo som de um motor de carro lá fora.
Silêncio. Apenas o zumbido da geladeira e a chuva suave contra a janela.
"Mama, casa", Leo anuncia do corredor, quebrando o feitiço.
"Sim, baby", sussurro, a adrenalina começando a recuar, deixando tontura em seu rastro. "Estamos em casa."
Caminhando lentamente de volta para ele, as mãos ainda tremem enquanto desabotoo as tiras. Eu o levanto, segurando-o um pouco mais forte do que o necessário. Ele se contorce, querendo descer.
Um sorriso é forçado em meu rosto. Parece quebradiço, como gesso rachado. "Quem quer brincar de blocos?"
"Eu!"
Ele se solta e corre para nossa pequena sala de estar, indo direto para seu tapete colorido. Um segundo depois, o barulho familiar e reconfortante de blocos de madeira caindo da caixa preenche o ar.
Toc-toc-toc.
Um suspiro trava na minha garganta. Eu giro, encarando a porta, o coração reiniciando seu martelar frenético.
Mas não é a porta.
Leo está batendo dois blocos quadrados vermelhos um no outro. Clic-clac. Toc-toc.
Uma risada escapa de mim. Histérica, sufocada, beirando um soluço. A mão pressiona minha boca para abafá-la.
Insana. Um farrapo paranoico.
Três anos de fuga me transformaram em um animal caçado, pulando com sombras, aterrorizada por brinquedos de criança.
Não era ele.
A lógica retorna, lenta e constante. Dante Rinaldi é um rei. Ele não ronda cidades pequenas sob a chuva. Se ele tivesse me encontrado, não teria estacionado a três carros de distância na Main Street como em um desfile. Ele teria enviado um fantasma. Um homem quieto em um terno cinza sentado na minha poltrona quando eu entrasse.
Ele não está aqui.
Coincidência. Apenas carros. Apenas chuva.
A expiração é real desta vez. A tensão deixa meus ombros, músculo por músculo. A jaqueta molhada é retirada, pendurada no gancho ao lado da porta.
Em casa. Segura. Trancada.
Na sala, Leo constrói uma torre, com a língua para fora em concentração. Os lábios dele.
Meu coração dói com um amor feroz e protetor. Farei qualquer coisa para protegê-lo. Eu fiz de tudo.
Mas agora... agora, o perigo está apenas na minha cabeça.
A adrenalina se esvai, substituída por uma exaustão pegajosa e densa. Os joelhos tremem — não mais de medo, mas pelo choque. Açúcar. Preciso de açúcar.
A cozinha é minúscula, mal chega a ser uma kitchenette, mas é nossa. É quente.
"A mama vai pegar suco", chamo, com a voz se estabilizando. "Você quer um pouco?"
"Suco!" ele comemora, sem olhar para cima.
Um sorriso se forma — um de verdade. A geladeira se abre, o ar fresco atingindo meu rosto corado. Caixa de suco de maçã na mão, pulso desacelerando para o normal. Um copo da prateleira.
Segura.
Apenas Grace Miller. Em casa.
